Diego Moraes, ou Diego San, é um dos repórteres do seleto grupo de jornalistas da Rede Globo que está em Tóquio cobrindo os Jogos Olímpicos

Foto: arquivo pessoal

Por Thales Teixeira

Diego Moraes, repórter da Rede Globo em Tóquio, além de jornalista também é atleta de Karatê. Ele concedeu uma entrevista exclusiva e falou sobre o sentimento de cobrir uma Olímpiada, a frustração de não se classificar como atleta, sua representatividade como jornalista negro, sobre suas experiências dos Jogos até aqui e passou uma mensagem para o povo preto do Brasil. Confira a entrevista exclusiva, na íntegra, com o jornalista-atleta Diego ‘San’ Moraes:

Como você se sentiu ao saber que iria cobrir as Olimpíadas de Tóquio diretamente do Japão?

É uma conquista. Estou na reportagem desde 2013 e eu confesso que, desde quando eu virei repórter, eu tinha um sonho de cobrir uma Olimpíada. A Olimpíada do Rio de Janeiro eu cobri, fiz uma cobertura mais tímida, até por eu ter apenas 3 anos de reportagem só. E aí para a olimpíada do Japão eu me dediquei ainda mais para estar, então é um sentimento de conquista, de “Olha! Eu consegui!”. São doze repórteres só. Estar nesse grupo é uma satisfação imensa! Uma conquista gigantesca!

Como você lidou com a frustração de não ter conseguido ir para as Olimpíadas como atleta de Karatê?

Não ter conseguido vir como atleta foi duro porque foi uma divisão de funções em quatro anos e meio, então eu abdiquei de muita coisa. A gente se abdica muito como jornalista e como atleta mais ainda, porque ainda tem que ter uma vida regrada de dormir cedo, acordar cedo. Então foi dureza sim, mas eu diria que a frustração seria maior se eu não conseguisse mostrar essa luta toda que eu mostrei durante quatro anos e meio. Eu acho que entender o quão importante é a trajetória, para mim foi essencial para eu lidar com a eliminação da minha vinda como atleta.

Na Rede Globo, apenas você e a Karine Alves estão representando o povo preto diante das câmeras. O que isso representa pra você?

Isso representa o sistema, né? O preto, na maioria das vezes, tem que ser minoria nesses lugares de visibilidade e ter apenas nós dois é exatamente o que representa o nosso Brasil, infelizmente. E “pensando no copo meio cheio”, é prazeroso não estar sozinho, ter mais uma pessoa contigo nessa luta aqui em Tóquio.

Como está sendo essa experiência de cobertura até aqui? O que mais te chamou a atenção até agora?

De um modo geral, estou gostando muito da cobertura porque eu tenho produzido sobre esportes totalmente diferentes. Já fiz um pouquinho de ginástica, remo, taekwondo, wrestling, judô, handball, vôlei de praia. E duas experiências que me marcaram foram: cobrir minha namorada do wrestling, fazer reportagens sobre ela, estar ali torcendo e ao mesmo tempo reportar, é um sofrimento dividir o pessoal do profissional, mas foi possível, foi uma experiência muito louca. Gostaria que ela tivesse ido à frente, ‘medalhado’, brigasse por alguma medalha, mas ela deu o máximo e eu fiquei muito orgulhoso por tudo que ela fez no tapete.

A outra experiência pessoal que eu tive foi fazendo o vôlei de praia. O Alisson me viu na zona mista e veio falar comigo, eu nunca troquei ideia com o Alisson, nunca tinha feito vôlei de praia na vida (risos), e ele me viu e veio falar da minha história, o quanto que a minha mãe é guerreira, corajosa, e lembrou muito a história da mãe dele, como ele foi criado. Então você ter um cara que foi medalha de prata em Londres e atual campeão olímpico, falando isso da sua história, que reconhece o esforço que foi para você batalhar e tentar uma vaga Olímpica, cara é um afago descomunal. Até porque, passa tanta coisa na nossa cabeça até chegar aqui, tanta coisa que a gente passa na vida para conseguir dar passos para frente nas nossas carreiras. Então, o Alisson nem faz ideia do quanto ele me ajudou.

Consegui também cobrir o bronze da Mayra Aguiar no judô. Foi espetacular poder fazer uma reportagem sobre a história dela, que já passou por sete cirurgias, sete lesões graves, tinha acabado de se recuperar de uma outra lesão no joelho e lutou demais e conquistou o bronze. Ver atletas começando na vida olímpica, como o Lucas Verthein, do remo, que já conseguiu chegar na semifinal, o Brasil nunca tinha chegado… Garoto pureza, um cara que se divide em várias funções, entrega quentinha para a mãe, trabalha em loja de computação. E, cara, o treinador dele é negro! Pô, um treinador de remo negro, nossa senhora! É impressionante o quanto isso representa em um ambiente tão branco quanto o remo.

Nas Olímpiadas, de um modo geral, somos poucos jornalistas aqui cobrindo que são negros, somos pouquíssimos aqui, de um modo geral, a imprensa internacional. E você ver também técnicos, de um modo geral, também é muito difícil. Foi legal cobrir o Lucas no primeiro dia dos Jogos Olímpicos de esportes individuais, então foi interessante demais fazer essa cobertura.

Diego, você consegue ter a noção que você é um espelho pra os negros no Brasil? Você passa uma esperança por estar cobrindo o maior evento esportivo do mundo e quase estar participando, de fato, como atleta. Como você encara isso e qual mensagem você gostaria de passar?

Eu confesso que parece que às vezes eu tenho noção e em outros momentos eu penso que eu não tenho noção nenhuma de quanto que isso pode impactar as pessoas. Eu só tento dar o meu melhor, poder burlar o sistema. Eu falo muito que o negócio é boicotar o sistema para conseguir sobreviver nessa nossa rotina de querer dar cada vez mais passos para frente. O sistema foi criado para nos impedir de fazer isso, e fazem de tudo, fazem de tudo. Nos escondem, tentam nos separar, tentam criar intrigas entre nós, tentam de tudo. Eu tento manter a caminhada firme para, exatamente, boicotar esse ‘querer’ do sistema. Não faço ideia do quanto eu posso estar impactando. Eu não faço ideia do quanto represento mas espero poder estar deixando as pessoas com um certo orgulho ou esperançosas de poder fazer o que quiserem.

Infelizmente não é merecimento, a gente não fala só de meritocracia, quando o caso é esse, a gente fala de correr 100 metros o tempo inteiro e que mesmo as pessoas caminhando, a gente não consegue chegar. Então, a nossa dificuldade, a nossa velocidade nesses 100 metros no nosso ponto de partida, mesmo essa velocidade toda, enquanto o branco está caminhando, a gente tem muita dificuldade para chegar a esse ponto de partida do branco. Isso as pessoas tem que entender e elas simplesmente fingem que entendem, porque na hora do ‘vamos ver’ cada um pensa no seu.

Eu estou com vários negros e negras do Brasil comigo. E o que eu tento passar dia após dia é que eles entendam que eu estou com eles e que eu possa sentir cada vez mais que eles estão comigo. É só isso!

O que eu tento passar para o povo preto é que não é meu, não é seu, é nosso! Eu não estou sozinho aqui. Eu estou com vários negros e negras do Brasil comigo. E o que eu tento passar dia após dia é que eles entendam que eu estou com eles e que eu possa sentir cada vez mais que eles estão comigo. É só isso! Porque o sistema quer que nós nos separemos e eu brigo cada vez mais pela nossa união. Por mais difícil que seja, em alguns momentos, porque tem hora que a gente se fecha em uma bolha para conseguir sobreviver, porque se a gente não sobrevive, a gente não vai abrir espaço para quem está vindo. Mas assim que a gente dá um passo e abre uma porta, eu tento fazer questão de escancarar essa porta para ter mais e mais negros, e que venham mais! Só peço que as pessoas não desistam do que elas queiram realmente fazer. Não é fácil, nem um pouco fácil. A gente tem que se esforçar muito, muito, muito mais e isso não garante que vai chegar, porque o sistema vai te puxar para trás.

Então se prepare para o sistema psicologicamente, tecnicamente, e força para conseguir hackeá-lo. Não é fácil, não é fácil, mas é possível. Eu consegui hackear, outros conseguiram hackear. Em algum momento a gente vai alcançar o que a gente precisa alcançar, que é a igualdade de possibilidades para todos os povos, todas as raças, e eu falo principalmente para o povo preto, que foi escravizado durante séculos, que é menosprezado a todo tempo, e que precisa das possibilidades e das mesmas ferramentas para brigar.

Entrevista produzida em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube

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