O nadador vai se aposentar após os Jogos Paralímpicos de Tóquio e deu uma entrevista exclusiva para a NINJA Esporte Clube

Daniel à frente de uma piscina olímpica, sorri apontando para seis medalhas de ouro no pescoço.

Foto: Reprodução / CPD

Por Monique Vasconcelos

Maior atleta paralímpico brasileiro e melhor nadador paralímpico do mundo, Daniel Dias escreve mais um capítulo da sua história no esporte nas Paralímpiadas de Tóquio. Nesta quarta-feira (25), em sua primeira final, Daniel já começou conquistando uma medalha de bronze nos 200m livre da classe S5 e ainda tem chances de subir ao pódio mais vezes. Amanhã disputará a final dos 100m livre, às 5h (de Brasília). Na sexta-feira (27), terá a final dos 50m borboleta, às 6h25. Depois, é a vez dos 50m costas, na segunda-feira (30), e nos 50m livre, na quarta-feira (1), prova em que fez sua melhor marca no último Mundial.

Ao longo da carreira, o nadador, de 33 anos, acumulou 24 medalhas em Jogos Paralímpicos, sendo 14 de ouro, sete de prata e quatro de bronze, 40 medalhas em Campeonatos Mundiais, sendo 31 ouros, sete pratas e dois bronzes, e 33 pódios em Jogos Parapan-americanos, sendo todas de ouro. Além disso, é o único brasileiro a ter três Troféus Laureus (em 2009, 2013 e 2016), considerado o “Oscar do Esporte”.

– Tive muitos momentos especiais ao longo da carreira, mas acredito que comemorar a minha 24ª medalha paralímpica nos Jogos Rio 2016, a que me tornou o maior medalhista do mundo, com a minha família toda na arquibancada foi inesquecível. Foi muito emocionante para mim aquela torcida toda gritando meu nome e eu podendo abraçar meus filhos, esposa e pais – relata.

Além do dom, Daniel sempre teve resultados excepcionais graças a muita dedicação aos treinos na piscina de cerca de 2h de segunda à sexta-feira e musculação três vezes na semana. A pandemia afetou a rotina completamente e o nadador teve que fazer a preparação física com adaptações de exercícios em casa, mas o treino na água teve que esperar um tempo. Mas isso não deve afetar o desempenho do nadador, que conta seu ritual antes de cada prova: “Eu costumo revisar a minha prova mentalmente. Repasso todos os detalhes do nado e presto atenção na técnica. Ah, e também sempre dou uma corridinha no banheiro antes”, conta aos risos.

Além das dificuldades na quarentena, Daniel passa por outro entrave: as recentes mudanças na classificação funcional da natação impostas pelo Comitê Paralímpico Internacional desde janeiro de 2018. A classificação é dividida em três partes: teste clínico, observação durante as competições e teste na água (no qual o atleta faz vários exercícios dentro da piscina). Neste último, os testes passaram a ser pontuados de 0 a 300, o que não se dava antes. Com isso, Daniel desde os Jogos Paralímpicos do Rio 2016 perdeu os recordes mundiais dos 50, 100 e 200 metros nado livre, os 50 metros costas, os 50 metros borboleta.

Daniel no meio de dois meninos. Menina pequena no colo. Todos sorriem.

Foto: Reprodução Instagram

O atleta ainda manteve o recorde dos 100 metros peito, mas subiu de classe da SB4 para a SB5, ou seja, mantém o recorde, mas vai nadar na classe superior. Isso coloca o nadador num cenário jamais visto em sua carreira, em que vai para uma competição onde todos os atletas que estão a sua frente vem de classes superiores, ou seja, com menor deficiência funcional.

– Eu acredito que o processo de reformulação das regras de classificação não foi o ideal. Por ser no meio de um ciclo, ficou um pouco conturbado. As regras ainda são subjetivas e penso que ajustes ainda possam ser feitos. Sou candidato ao Conselho de Atletas do Comitê Paralímpico Internacional e este é um assunto que eu gostaria muito de poder contribuir, principalmente dando voz aos atletas, que são os mais impactados com estas mudanças – afirma.

Natural de Campinas, interior de São Paulo, Daniel Dias começou a competir após se inspirar assistindo ao ex-nadador Clodoaldo Silva na televisão durante os Jogos Paralímpicos de Atenas 2004, e decidiu um ser atleta profissional em 2005 quando participou da primeira competição nacional em Belo Horizonte e ganhou uma medalha de bronze. Daniel encerra a sua carreira bem-sucedida nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, onde vai se aposentar. Casado e pai de três filhos, Asaph, Daniel e Hadassa, o nadador pretende ter mais tempo para a família.

– Eu acredito que a carreira de um atleta é composta por fases. Vejo que a minha contribuição com a natação já tenha sido excepcional, muito além do que eu esperava na verdade. Acho que posso continuar contribuindo com o esporte de outras maneiras agora. Quero poder ter mais tempo com a minha família e ver os meus filhos crescerem. Ser pai para mim é a realização de um sonho. É uma grande benção. Me dedico ao máximo para estar presente, para participar da vida deles e principalmente ser um bom exemplo. Incentivo muito os meus filhos a praticarem esportes. Eles fazem judô, jogam futebol e também aprenderam a nadar, mas mais por uma questão de sobrevivência, não necessariamente para seguir os meus passos. – conta Daniel.

Além da maior proximidade com a família, na aposentadoria, o atleta vai estar mais ativo na gestão do Instituto Daniel Dias, que oferece treinamentos de natação paralímpica às pessoas com deficiência da cidade de Bragança Paulista, cidade onde mora atualmente; vai continuar a ministrar palestras; e vai seguir na atuação como membro do Conselho Nacional de Atletas e da Assembleia Geral do Comitê Paralímpico Brasileiro. Além disso tudo, Daniel aguarda o resultado da eleição do Conselho de Atletas do Comitê Paralímpico Internacional, em que é candidato, e vai iniciar as atividades como membro da Academia Laureus.

Inspiração para muitos jovens que sonham um dia em seguir a carreira paralímpica e admirado pelos torcedores brasileiros, Daniel Dias deixa um recado cheio de entusiamo.

– Eu gostaria que as pessoas sempre se lembrassem de sorrir. O sorriso tem muito poder.

– Pode mudar o dia de alguém. A vida é tão mais linda com sorrisos, é tão mais fácil encarar os desafios assim. Além disso, gostaria de que as pessoas soubessem de que há uma força dentro delas que é capaz de realizar grandes feitos, que não há o “impossível” quando se trata de sonhos – finaliza.

Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube

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