A tenista, favorita ao ouro olímpico, estreia hoje às 23h (Brasília)

Reuters / Christian Hartmann

Por Felipe Conte para a Cobertura Colaborativa NINJA Esporte Clube 

No Japão, país marcado pela disciplina e tradição milenar, a Olimpíada começou com quebras de protocolo – e nenhuma relacionada aos procedimentos de segurança contra a Covid-19. A tocha olímpica, objeto historicamente carregado apenas por atletas no estádio, passou pelas mãos de estudantes, médicos e enfermeiras, como uma forma de exaltar os profissionais que atuam no combate à pandemia. A cerimônia de abertura simboliza um recomeço, embora muitos países ainda sofram para conter o vírus. Como fora na última vez em que Tóquio sediou os Jogos, em 1964, após as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Naomi Osaka, a escolhida para acender a pira, coincidentemente, tem cidadania japonesa e estadunidense.  

O holofote da Arena e as atenções do mundo inteiro estiveram sobre a tenista de 23 anos que, enquanto subia os degraus com a tocha na mão direita, escrevia seu nome na história. Filha de haitiano com japonesa, a jovem tornou-se a primeira mulher negra a acender a pira olímpica. O fogo que queimou mulheres durante a Inquisição e negros após a Guerra Civil Americana, agora simbolizava renascimento e renovação de forças. Naomi, nascida em Osaka e residente de Beverly Hills desde os três anos de idade, tem as raízes questionadas por não se encaixar no “padrão” de fenótipo étnico-racial japonês. Apesar do preconceito e discriminação, Naomi Osaka escolheu representar o país de origem nos Jogos e chega como favorita para a primeira Olimpíada da carreira.

Foto: Stefan Wermuth / Reuters

A atual segunda melhor do mundo no ranking da Associação Feminina de Tenistas (WTA, em inglês), no entanto, está acostumada a não se encaixar em padrões e quebrar paradigmas. Aos 20 anos, tornou-se a primeira japonesa a conquistar um Grand Slam de tênis, derrotando justamente a lenda do esporte Serena Williams. Ao final do jogo, Osaka pediu desculpas aos espectadores que torciam pela norte-americana e agradeceu por terem assistido ao jogo. Essa costuma ser a postura da tímida tenista fora das quadras, muito diferente do estilo agressivo com o qual enfrenta os adversários nas quatro linhas. Com pernas ligeiras e força no saque, ela esbanja todo potencial com a agilidade e fúria de um samurai. Não satisfeita com o primeiro Grand Slam conquistado, venceu logo outros três. Tudo isso aos 22 anos.

A ascensão astronômica fez dela a mulher mais bem paga do mundo do esporte. Somente em julho deste ano, Naomi foi capa da revista Vogue Hong Kong, lançou um documentário na Netflix e ganhou uma boneca Barbie inspirada nela. A fama, a pressão e o desgaste da carreira aliado à pandemia exigiram demais da jóia rara do tênis. Ela optou por desistir de Roland Garros e deixou de jogar Wimbledon por conta de ansiedade e depressão. O problema veio à tona após uma partida de Roland Garros, em maio, quando a tenista se recusou a participar da coletiva de imprensa, sendo que o regulamento do Grand Slam obriga os competidores a atenderem os jornalistas, se forem solicitados a fazê-lo. Osaka, com a coragem necessária para expor as fragilidades que a assombram, levanta uma discussão sobre a saúde mental dos atletas.

Reprodução: Redes Sociais

Essa não foi a primeira vez em que a tenista usou a visibilidade dos torneios para voltar as atenções a uma causa nobre. No US Open de 2020, último campeonato do qual se sagrou campeã, ela apoiou o movimento “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”) que tomaram as ruas dos Estados Unidos contra a violência policial. Silenciosa, a mensagem de Naomi rodou o mundo. Em cada jogo, uma máscara com o nome de um negro assassinado no país norte-americano. Até a final, foram sete partidas homenageando os nomes de Breonna Taylor, Elijah McClain, Ahmaud Arbery, Trayvon Martin, George Floyd, Philando Castile e Tamir Rice. À sua maneira, Naomi Osaka busca um mundo mais saudável e menos desigual, uma postura que deveria inspirar outros atletas até mais experientes.

A primeira Olimpíada da carreira, em casa, pode ser o palco perfeito para que a atleta busque o equilíbrio entre ser uma grande tenista e uma importante ativista. Apesar de não ser eterna como os diamantes, a pequena pérola negra japonesa vai ter muito tempo para ser lapidada. Ela estreia nos Jogos Olímpicos hoje (24), às 23h (Brasília) após período afastada das quadras. 

Foto: Clive Brunskill / Getty Images

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