Ginasta alemã Sarah Voss durante o Campeonato Europeu de Ginástica Artística. Foto: Divulgação / EPA

Por Beatriz Cruz

Por ser um fenômeno sociocultural, o esporte ultrapassa as fronteiras impostas por suas modalidades e ocupa a sociedade de várias maneiras diferentes. Uma delas é a indústria da moda esportiva. Podemos ver itens relacionados a determinadas modalidades atuando como peças chaves tanto em looks de passarela, como no street style, não havendo dúvidas da atual relação de amor entre moda e esporte. Mais do que ditar ou não o que é tendência na indústria da moda, o esporte pode trazer assuntos à tona que, podem parecer banais ou desnecessários, mas são importantes para a vida em sociedade. E casos recentes, tanto nos Jogos Olímpicos de Tóquio quanto fora dela, trouxeram os holofotes para um em específico: a sexualização dos uniformes esportivos femininos.

Um dos que ganhou mais atenção foi o da Seleção Norueguesa de Handebol de Praia, que foi multada pela Comissão de Disciplina da Associação Europeia de Handebol por usar shorts ao invés da parte de baixo do biquini em um Campeonato Europeu da modalidade. Segundo a Federação de Handebol de Praia Europeia, os trajes foram impróprios e ferem os Regulamentos de Uniforme de Atletas definidos nas Regras de Jogo do Handebol de Praia da IHF. Apesar da Federação Norueguesa ter controlado a situação e pagado as multas, o caso chamou bastante atenção da comunidade internacional, principalmente nas redes sociais. A cantora norte-americana P!nk até anunciou que pagaria todas as multas que as jogadoras receberam por usar shorts.

Outra situação no esporte que chamou a atenção e levantou a discussão da sexualização dos uniformes em esportes femininos foram os uniformes que as ginastas alemãs usaram para disputar as Olimpíadas. O uso do macacão que também cobrisse as pernas, ao invés do maiô tradicional na modalidade, traz um conforto maior e foi usado em forma de protesto contra a sexualização na modalidade. No caso alemão não houve punição, já que uniformes desse tipo são permitidos para ginastas que tenham objeções religiosas na hora de mostrar as pernas.

Porém, o que exatamente é a sexualização? Segundo o dicionário, o ato de sexualizar é o mesmo que adquirir conotação, aparência ou conteúdo sexual. Segundo a teoria da objetificação, as mulheres das culturas ocidentais são amplamente tratadas como objetos do olhar masculino. O resultado disso, além de afetar o psicológico das mulheres no processo de internalizar padrões e modelos para seus corpos, a moda também tem papel importante de influência social para essa sexualização.

Dentro do esporte, o assunto ainda é tratado como um tabu – isso quando é amplamente discutido. Isso é reflexo histórico, já que a maioria deles teve seu início sendo praticado somente por homens. Um fato sempre baseado numa crença de que as mulheres não tinham porte físico para praticá-los e que esses esportes “masculinizavam” os seus corpos. A evolução das modalidades e categorias femininas se devem aos avanços e conquistas que as mulheres conseguiram e conseguem no dia-a-dia da sociedade. A luta fora de campo interfere – e muito – no seu desenvolvimento dentro dele.

Em 1978, a professora estadunidense de Educação Física e Fisioterapia chamada Emily Wughalter batizou o fenômeno das mulheres terem que demonstrar sua feminilidade no esporte de “the female apologetic”, ou seja, o pedido de desculpas feminino. Para compensar o fato de estarem se mostrando fortes, rápidas, ágeis e de alguma forma masculinas, exigia-se que elas equilibrassem isso com “babados e rodopios”.

O empoderamento feminino passa a ter um papel importante no esporte. Na contramão das que querem o direito de usar uniformes mais confortáveis, há mulheres que utilizam de elementos como maquiagens, unhas compridas e lantejoulas para se expressar. A luta não é sobre usar ou não usar algum uniforme, é sobre ter o direito de escolher. É ter o direito de se usar e se expressar como bem entenderem.

Movimentos sociais como o feminismo colocam ainda mais os holofotes na luta diária feminina por espaço, direitos, representatividade e respeito – dentro e fora do esporte. A questão dos uniformes é apenas a ponta do iceberg de toda desigualdade vivida dentro e fora das quadras. Casos como o da Seleção Norueguesa de Handebol e das ginastas alemãs mostram que as discussões são pertinentes e importantes se quisermos alcançar a tão sonhada igualdade de gênero.

Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube

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