Por Ben Hur Nogueira

Crescemos com a ideia abjeta de que o preconceito racial já era expurgado do Brasil e que não havia nenhuma reparação histórica por mais de 350 anos de escravidão e genocídio, do qual mais escravos africanos morreram vindos pelos navios negreiros do colonialismo europeu, ora por doenças, ora por chibatadas e ora por não se aceitarem em condições sobre-humanas e se lançarem simplesmente ao mar, recusando o destino escusado que os aguardava em terras brasileiras.

A chegada no continente tinha um preço caso sobrevivessem. Era na lavoura, servindo a casa-grande dotada de privilégios, era nos  campos massivos de algodão colhendo algo para vestir a casa-grande para, futuramente, pintarem um daqueles quadros que tantas vezes outrora vimos no colégio.

Era talvez negar a existência de Orixás, ou simplesmente adotar novos métodos para a adoração de cultos africanos numa tentativa singela de esconder um passado glorioso num continente estranho, onde nem terras haviam ganhando ao chegar neste novo, estranho e curioso mundo novo.

Talvez, para mim, o racismo foi notavelmente mais perceptível pela presença massiva de melanina na minha pele.

Outrossim, era a minha chegada, às vezes em ambientes majoritariamente brancos, onde olhos se cruzavam como se a minha presença (já indubitavelmente peculiar) fosse um paradoxo ou até, talvez, uma anomalia mundana onde supostamente o que tinha a pele mais escura era profano e o que tinha a pele mais branca era profundamente sacro.

Eram nestes ambientes onde sumariamente via pessoas da minha cor indo retirar o lixo pra fora através do elevador de serviço que hodiernamente se tornou um novo modelo de senzala urbana. Como, às vezes, ir para cozinha e ouvir a família recatada da casa dizer que esta pessoa “era quase da família” mesmo mal podendo participar da própria mesa, pois tinha um quartinho especial só para ela, onde nem a luz do sol batia.

Foi no início dos anos 2000, na Pedreira Padre Lopes, uma comunidade belo-horizontina  precária tomada pela violência, tráfico e a epidemia de crack – que estava longe de acabar naquela época-, onde tive minha primeira experiência literária em uma biblioteca cercada de ruínas de casas no alto de morros em situações de vulnerabilidade e risco prestes a cair e matar mais uma família – já que para a defesa civil eram números que importavam naquela época, não vidas. Era nesta época onde eu e meus primos tínhamos de atravessar a comunidade inteira para chegar em uma biblioteca cuja a vista principal era um grafite de conscientização contra o uso massivo de crack feito pelos próprios moradores no final dos anos 1990. Para voltar, tínhamos de torcer para nenhuma bala “supostamente perdida”, vinda de armas oriundas de países em situação de guerra, acertar-nos no meio do caminho.

Havia um corredor especial que ainda me recordo nesta biblioteca. Ali havia vários exemplares de livros feitos por editoras brasileiras maximizando as conquistas de personalidades famosas. Havia Einstein, Simone de Beauvoir, Hitchcock e várias outras personalidades que de fato fizeram a diferença no meio que elas atuavam. Contudo, tinha apenas uma pessoa preta na capa, era um homem preto vestindo um terno usualmente religioso  em frente a uma imagem de uma cruz sendo queimada no Alabama, eu era porventura, infante demais para reconhecê-lo e saber de sua importância no mundo todo. Foi nesta ocasião especificamente, onde notei que ser dotado de melanina teria suas consequências para mim no futuro e, quiçá, em qualquer lugar que eu fosse, sem exceções, a pressão racial seria tão avassaladora quanto uma daquelas cruzes sendo queimadas no sul dos Estados Unidos onde outrora, mais crucialmente naquela época, o supremacismo branco era tão perigoso quanto o colonialismo europeu era no passado para nativos e meus descendentes.

Somente anos posteriores me mostrariam que aquele homem da minha cor de terno religioso tinha um nome reverencialmente citado e amplamente aclamado: Martin Luther King, cuja a presença, para mim, continuaria ecoar anos e anos até os dias de hoje. Foi uma cena desumana que ocorreu na Espanha, nas vésperas de um jogo do Real Madrid, que me lembrou de uma fotografia publicada no livro sobre. Uma imagem um tanto assustadora quanto peculiar: era a foto de um boneco feito de graxa sendo enforcado no alto de uma árvore no interior dos Estados Unidos e com uma legenda escrita na sua barriga “Vão embora crioulos”, em uma tradução de bastante acurácia histórica com aquele ambiente segregacionista.

Foi talvez viver 21 anos em um país preconceituoso cujo a casa-grande, dotada de seus privilégios, nunca aceitou um reconhecimento geral dos danos causados pela escravidão, foi talvez passar boa parte dos meus estudos cinematográficos maximizando a presença da ridicularização de pessoas negras talentosas na televisão ou no cinema – como por exemplo Toni Garrido, Grande Otelo e o músico Mussum -, foi lendo livros como “As caçadas de Pedrinho” ou “O saci” – no qual temos um personagem negro sendo ultramente ostratizado pelas falas evitáveis de uma boneca de pano – ,foi justamente estudar em uma escola particular onde já fui chamado de “macaco” e “favelado” por alguns estudantes e escutar minha vida inteira que “as cotas raciais me davam mais privilégios”, sendo que 350 anos de escravidão para uma burguesia pífia nunca foi o suficiente para entender o processo cognitivo de um país e seus efeitos causados pela colonização de povos por parte dos europeus no passado, que pude me dar contar o motivo principal do ódio ao meu irmão de cor, Vinicius Junior e o porquê que aquela cena da representação de um homem negro sendo enforcado se repetiu mesmo com o passar dos anos.

Para explicar tal motivo, cito Paulo Freire, que em seu magnum opus “A pedagogia do oprimido”, o patrono da educação brasileira se refere ao comportamento do opressor como uma raiva seletiva à falta de aceitação dos erros cometidos no passado por determinados grupos étnicos. Ele explnada que a facilidade de expor preconceitos chega ser maior do que se aceitar como opressor e até mesmo, para alguns oprimidos, é mais fácil emular o comportamento opressor para obter como resultante uma aceitação de status por um grupo consideravelmente insignificante, mas que pode dar trabalho, do que buscar uma redenção introspectiva sobre atos que outrora eram visto como usuais mais hoje em dia, graças a Oxalá, são vistas como desumanos.

Vini e eu temos quase a mesma idade e somos individualmente oriundos de periferias, a diferença é de dois anos, sendo ele o mais velho. Para mim, a inércia de explicação por parte dos europeus em termos do caso recente de racismo, onde Vinícius Júnior mais uma vez saiu como vítima sendo expulso e estrangulado por um jogador branco que não foi penalizado, maximiza problemas de um passado bastante recente considerando a história da humanidade, onde o mesmo país onde Vinícius Júnior joga bola e se destaca entre os demais, foi durante anos um país imperialista com forte presença de dominação política nos países da  América do Sul e da África, cuja cultura colonialista ainda permeia uma parte considerável da mídia e da população.

Ainda citando Paulo Freire na “Pedagogia do oprimido”, podemos visualizar o fato crucial de que a vitória de povos historicamente oprimidos incomodam o lado opressor e eventualmente oprimidos que se pensam opressores.

Vinicius Junior jogando bola me lembra uma canção do Milton Nascimento, de 1976, cujo o nome é “Raça”, e lá ele se refere a uma força poderosa que o motiva a viver apesar dos problemas oriundos do preconceito racial: “Lá vem a força, lá vem a magia, que incendeia meu corpo de alegria”. Esta força está presente em Vinicius como jogador prolífico que é, pois não basta apenas ser bom, é preciso ser bom e mostrar ao lado opressor as eventualidades trágicas de mexer com nosso povo.

Baila Vini!!

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