Por Sérgio Kendziorek para cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube 

Os jogos olímpicos sempre revelam gratas surpresas. Heróis e heroínas inesperadas, trajetórias inspiradoras e muitas histórias de superação que ultrapassam o limite do esporte e inspiram a elevação em nossas vidas.

Uma dessas histórias é a de Barbra Banda. Atleta de futebol feminino da Zâmbia. A primeira atleta a marcar dois hat-tricks consecutivos na história das Olimpíadas.

O brilho da capitã da seleção africana, de apenas 21 anos, e jogadora do Shanghai Shengli da China, não veio fácil. Ela se dividia entre o futebol, que começou a praticar aos 7 anos, e o boxe que treina desde a adolescência.

Em entrevista à Fifa em 2020, Banda contou que ainda usa o boxe como treinamento complementar: “me ensina a pensar rápido e a entender a importância do equilíbrio entre ataque e defesa”.

A paixão pelo futebol surgiu com a influência de seu pai, também jogador. Porém, os pais de Barbra sentiam que o jogo era para meninos e temiam que o futebol afetasse seus estudos e se opuseram em um primeiro momento. Ela chegou a pegar calçados escondida dos pais para ir jogar bola. “Eu não me importava, amava futebol”, dizia.

Aliás, chuteiras não faziam parte da realidade dela. A atleta emergente dessa Olimpíada jogava nos campinhos de Lusaca, capital da Zâmbia, e costumava ser a única jogadora descalça na quadra ou campo de futebol.

Joyce Nkhoma, mãe de Banda, vendo a dedicação da filha desde cedo, passou a encorajá-la, mesmo quando a modalidade ainda era um tabu para mulheres. A aposta deu resultados. Com 13 anos, disputou o mundial sub-17 pela Zâmbia. Em 2018, disputou sua primeira competição pela seleção principal, a Copa Africana de Nações.

Ainda em 2018 foi contratada pelo Logroño, equipe da primeira divisão espanhola. A única jogadora do futebol feminino de Zâmbia jogando no exterior se destacou muito na pequena equipe, inclusive com um hat-trick contra o Real Madrid.

Banda, que desde 2020 atua pelo Shanghai Shengli da China, é aquela atacante veloz que rasga a defesa adversária. Espera o passe vertical certo entre as linhas e o usa toda a sua categoria para dominar, carregar e finalizar em gols incríveis.

foto: The Athletic

Barbra se desculpou pelas redes sociais, pois a Zâmbia não passou pela fase de grupos nos Jogos de Tóquio. Derrota para Holanda e Brasil e empate contra as chinesas. Não que ela precisasse de tal gesto. A grandeza da atleta já extrapola as quatro linhas.

Foto: página pessoal da Barbra na rede social, Weibo.

Barbra Banda não é um fenômeno somente em campo. Ela fundou em 2 de fevereiro deste ano uma fundação para promover o empoderamento de mulheres e meninas. 

“Como muitas, eu não vim de um lugar com abundância e, portanto, eu entendo o que significa precisar de ajuda e não ter ninguém disposto a ajudá-la. Também experimentei como a vida fica muito mais fácil quando você tem pessoas prontas para ajudá-la em seu caminho para o sucesso. Com a formação desta fundação, pretendemos apoiar programas que promovam o empoderamento de mulheres e meninas. Desigualdade econômica, violência de gênero, falta de acesso a oportunidades igualitárias, gravidez na adolescência e casamentos prematuros são alguns dos principais problemas que mulheres e meninas enfrentam hoje e queremos ajudar a aliviar esses vícios usando o poder do esporte ”.

Foto: facebook da Bauleni United Sports Academy

Apesar de inúmeros feitos, Barbra tem apenas 21 anos e um longo caminho de sucesso pela frente tanto nos gramados, como pelo empoderamento feminino. Como ela mesma afirmou em entrevista coletiva após o empate com a China, seu objetivo é ser a melhor jogadora do mundo.

Esse objetivo vai ser acompanhado de perto por uma brasileira, Mylena Freittas, recém contratada pelo Shanghai Shengli, será companheira de Banda. Inclusive a atleta já mandou recado para a brasileira pelas redes sociais.

Foto crédito: página pessoal da Barbra na rede social, Weibo

Mylena, que ainda não estreou pelo time chinês, conversou com a nossa reportagem. Ainda não conheceu a jogadora da Zâmbia, destaque da Olimpíada, mas espera poder contribuir com o seu melhor pela nova equipe.

Barbra Banda é mais uma grata surpresa revelada pelos Jogos Olímpicos. O exemplo de persistência e superação mostram que o caminho não é fácil, mas é possível, principalmente quando se tem apoio. E é isso que a jogadora tenta retribuir ao clube e seleção, mas também a todes através da sua Fundação. Se antes ela era acompanhada por fãs locais, agora o mundo estará torcendo por ela.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Colunista NINJA

Memória, verdade e justiça

FODA

Qual a relação entre a expressão de gênero e a violência no Carnaval?

Márcio Santilli

Guerras e polarização política bloqueiam avanços na conferência do clima

Colunista NINJA

Vitória de Milei: é preciso compor uma nova canção

Márcio Santilli

Ponto de não retorno

Andréia de Jesus

PEC das drogas aprofunda racismo e violência contra juventude negra

Márcio Santilli

Através do Equador

XEPA

Cozinhar ou não cozinhar: eis a questão?!

Mônica Francisco

O Caso Marielle Franco caminha para revelar à sociedade a face do Estado Miliciano

Colunista NINJA

A ‘água boa’ da qual Mato Grosso e Brasil dependem

Márcio Santilli

Mineradora estrangeira força a barra com o povo indígena Mura

Jade Beatriz

Combater o Cyberbullyng: esforços coletivos

Casa NINJA Amazônia

O Fogo e a Raiz: Mulheres indígenas na linha de frente do resgate das culturas ancestrais

Rede Justiça Criminal

O impacto da nova Lei das saidinhas na vida das mulheres, famílias e comunidades

Movimento Sem Terra

Jornada de Lutas em Defesa da Reforma Agrária do MST levanta coro: “Ocupar, para o Brasil Alimentar!”