Na reta final para o primeiro turno, uma notícia agitou os canais de influenciadores que apoiam o presidente Jair Bolsonaro (PL). No dia 13 de setembro, a União Europeia (UE) aprovou uma lei para combater o desmatamento que proíbe a compra de 14 produtos originários de áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2019. Entre os eurodeputados, o texto teve 453 votos a favor, 57 contra e 123 abstenções.

No dia seguinte, o influenciador bolsonarista Daniel Lopez, que tem 1 milhão de seguidores, comentou a notícia em seu canal no YouTube. “A própria Europa está se desfazendo de florestas tradicionais para poder gerar energia suficiente com a queima do combustível fóssil da madeira”, disse ele no vídeo, que teve 382 mil visualizações.  É uma afirmação bastante exagerada, como veremos abaixo, e vai na mesma linha de raciocínio usada pelo também influenciador bolsonarista Kim Paim.

Toras de madeira extraídas ilegalmente e apreendidas pelo Ibama na Terra Indígena Manoki, em Brasnorte, no Mato Grosso. No dia 13 de setembro de 2022, a União Europeia aprovou uma lei que proíbe a compra de produtos originários de áreas desmatadas. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

O engenheiro Kim Paim, seguido por 678 mil pessoas que consomem suas avaliações políticas pró-Bolsonaro no YouTube, usou o mesmo canal para dizer, com base em argumentos desconexos, que essa lei foi criada em conluio com a esquerda brasileira contra o agronegócio. “Essa lei aqui, na verdade, é para impedir a expansão do agro brasileiro”, diz ele no vídeo, que teve 200 mil visualizações e pedido de voto em Bolsonaro.

Paim também critica a eurodeputada Anna Cavazzini por “se encontrar com a turma das centrais sindicais”. “Tava com os petistas e taí agora tentando limitar a expansão do agronegócio brasileiro.” A opinião do engenheiro é incorreta: não existe nenhum indício de que legisladores brasileiros de esquerda tenham participado do processo de construção da lei. Ele é um dos influenciadores citados na representação que o Partido dos Trabalhadores fez ao Tribunal Superior Eleitoral por supostamente espalhar desinformação nas eleições deste ano.

“A gente sabe que isso é lorota, que os europeus querem é protecionismo mesmo”,  ecoou o canal “com viés libertário” Ancapsu em vídeo na mesma plataforma (com 63 mil views). O responsável público pelo canal no YouTube, que tem 284 mil seguidores, é o engenheiro que fala de finanças Ricardo Albuquerque, sob o pseudônimo de Peter Turguniev. “A Europa está destruindo suas florestas ancestrais para tirar carvão”, repete.

Como fazemos o monitoramento?

O projeto Mentira Tem Preço, realizado desde 2021 pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA, monitora e investiga desinformação socioambiental. Nas eleições de 2022, checamos diariamente os discursos no horário eleitoral de todos os candidatos a governador na Amazônia Legal. Também monitoramos, a partir de palavras-chave relacionadas a justiça social e meio ambiente, desinformação sobre a Amazônia nas redes sociais, em grupos públicos de aplicativos de mensagem e em plataformas.

Procurado, o YouTube não respondeu aos questionamentos sobre o conteúdo veiculado pelos influenciadores em sua plataforma até a publicação desta matéria. Entre todos os vídeos mencionados, apenas o de Paim recebeu do YouTube uma tarja que traz, abaixo da imagem, um link para quem quiser ter mais informações sobre as eleições no Brasil.

Plantação de Café na Embrapa Cerrados. Segundo especialista da Rainforest Foundation, o risco real para a competitividade das commodities brasileiras não são as novas regras europeias, mas a explosão do desmatamento e da violência contra povos indígenas. Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

A lei, ao contrário do que dizem os influenciadores, não foi feita especificamente para o Brasil —muito pelo contrário. “A lei da União Europeia será aplicada a todos os produtos com alto risco de desmatamento, incluindo produtos originários da Europa. Isso é muito importante para a credibilidade do regulamento. Achamos infundada a acusação de protecionismo”, avalia Nils Hermann Ranum, chefe da equipe de Desmatamento Zero da Rainforest Foundation, na Noruega.

O texto tampouco é “jogo combinado” entre eurodeputados e petistas. O texto final é resultado de um amplo processo democrático: segundo a própria UE, a Consulta Pública sobre essa proposta legislativa teve mais de 1,2 milhão de respostas e foi a segunda mais popular na história do bloco.

Isso demonstra apoio dos cidadãos europeus, e de outras partes do mundo, à ação da UE para combater a desflorestação e a degradação florestal. Além disso, em 2023 a lei será discutida com todos os parlamentos nacionais dos membros da UE para fazer ajustes e, então, entrar em vigor.

A derrubada e a queima de florestas tropicais são responsáveis por cerca de 20% das emissões globais anuais de gases de efeito estufa. Isso é mais do que o gerado pelo setor de transporte do mundo.

NILS HERMANN RANUM, DA RAINFOREST FOUNDATION

“A lei antidesmatamento da UE visa remover a demanda do consumidor europeu por commodities que impulsionam o desmatamento e a degradação florestal”, esclarece Ranum. “Reduzir o desmatamento é essencial para combater as mudanças climáticas e reduzir as emissões de CO2. A derrubada e a queima de florestas tropicais são responsáveis por cerca de 20% das emissões globais anuais de gases de efeito estufa. Isso é mais do que o gerado pelo setor de transporte do mundo.”

Ele explica que a Comissão Europeia estimou que o regulamento reduziria as emissões de carbono para a atmosfera em pelo menos 32 milhões de toneladas métricas por ano. “Então a legislação realmente faz sentido do ponto de vista climático”, assegura Ranum.

Florestas da Europa estão protegidas

Ao dizer que os europeus devastam florestas para gerar energia, Lopez e Paim, na verdade, estão abordando um problema pontual como se fosse a regra. Existe uma discussão na Europa sobre se o uso de pellets de madeira para geração de energia está causando a destruição de florestas em alguns países, como a Romênia. Mas a realidade está muito longe da ideia propalada pelos influenciadores de que todo o continente está colocando suas florestas no chão.

A Terra Indígena Karipuna, localizada nos municípios de Nova Mamoré e Porto Velho (RO), é palco de invasão de madeireiros e grileiros. A lei europeia que pune países que desmatam será discutida com todos os parlamentos nacionais dos membros da UE em 2023. Foto: Christian Braga / Greenpeace

Ao contrário do que dizem os YouTubers no Brasil, as florestas da Europa se recuperaram nos últimos séculos —e não o contrário. Como mostra um relatório da Agência Ambiental Europeia, no final do século 17, mais da metade das florestas da Europa havia sumido. Ao longo dos séculos, grandes projetos de reflorestamento e proteção ambiental passaram a ser implantados com sucesso.

Resultado: nos últimos 200 anos, as florestas ressurgiram na Europa. O êxodo rural se acelerou e a tecnologia permitiu intensificar os sistemas agrícolas em áreas menores. As florestas também se expandiram pela regeneração espontânea em terras agrícolas abandonadas. Hoje, o desmatamento não tem impacto significativo no contexto europeu (apesar de ser um tema que merece constante atenção, por ser chave para a redução dos gases de efeito estufa). As florestas da Europa removem cerca de 430 milhões de toneladas de dióxido de carbono atmosférico e armazenam 13% das emissões de gases de efeito estufa do continente.

O argumento de que a Europa também desmata e se mostra hostil com o agro brasileiro, outra desinformação que ganhou status de verdade, reverberou também em outros canais. “A gente vê nessa legislação europeia um desrespeito, um boicote à legislação brasileira”, opinou Caio Penido, presidente do Imac (Instituto Mato-Grossense da Carne), no programa “Hora H do Agro”, da Jovem Pan, no dia 17 de setembro.

Imagem aérea de monitoramento de desmatamento na Amazônia, no município de Lábrea-AM, realizado em 26 de março de 2022. Diferentemente do que ocorre no Brasil, florestas europeias se recuperaram em pastagens abandonadas. Foto: Christian Braga / Greenpeace

“O continente que destruiu quase tudo o que tinha de floresta resolve punir o Brasil por causa do ‘desmatamento’”, disse Rob Correa no vídeo “Europa quer falir o agro do Brasil”, que teve 111 mil visualizações no YouTube no dia 15 de setembro (o canal, sobre finanças, tem mais de 383 mil seguidores).

Acontece que a lei não prejudica o agro —e pode beneficiar bons produtores. Ranum esclarece que, se implementada, ela terá efeitos benéficos para os produtores. “Uma lei eficaz contra o desmatamento garantirá mais igualdade”, diz. “As empresas que atuam de forma sustentável e evitam exportar commodities ligadas ao desmatamento para o mercado europeu não correrão o risco de ser superadas por quem não está tomando as medidas necessárias para proteger as florestas.”

Segundo ele, do lado brasileiro, as partes que estão reclamando da nova regulação para evitar a exportação de produtos ligados ao desmatamento são as mesmas que fazem lobby pelo enfraquecimento das leis ambientais no Congresso Nacional. “O risco real para a competitividade das commodities brasileiras não são as novas regras europeias. É a explosão do desmatamento e da violência contra os povos indígenas”, ratifica Ranum.

Essa reportagem faz parte do projeto Mentira Tem Preço – especial de eleições, realizado por InfoAmazonia em parceria com a produtora Fala. A iniciativa é parte do Consórcio de Organizações da Sociedade Civil, Agências de Checagem e de Jornalismo Independente para o Combate à Desinformação Socioambiental. Também integram a iniciativa o Observatório do Clima (Fakebook), O Eco, A Pública, Repórter Brasil e Aos Fatos.

A autorização para republicação do conteúdo se dá mediante publicação na íntegra, o Mentira Tem Preço não se responsabiliza por alterações no conteúdo feitas por terceiros.