Das 40 pessoas presas na cidade norte-americana, apenas 1 era branca.

Por @umprincipedogueto

Nova York além de se tornar o epicentro global da pandemia nos Estados Unidos, também começa a viver o acirramento racial com as prisões de negros e latinos por falta de uso de máscaras e por violarem o distanciamento social.

As tensões raciais estão aumentando cada vez mais nos bairros negros e latinos da cidade após as ações policiais sobre as regras de distanciamento se tornarem mais agressivas.

Em entrevista ao jornal The Guardian o congressista nova-iorquino Hakeem Jeffries tem questionado as incursões feitas pela NYPD – Departamento de Polícia de Nova York – de modo mais agressivo nos bairros negros do que nas áreas “mais brancas” e “mais ricas” da cidade, já que nas últimas ações divulgadas pelos promotores do Brooklyn, a polícia americana prendeu 40 pessoas por violarem o distanciamento social, sendo 35 negros, 4 latinos e apenas 1 pessoa branca.

Várias publicações nas redes sociais questionam a violência policial e a discriminação racial em bairros afro-americanos no Brooklyn, já que no mesmo horário havia imagens de outros bairros em Manhattan com multidões de pessoas, em sua maioria brancas, aglomeradas nos parques, enquanto a polícia gentilmente distribuía máscaras.

A NYPD, a polícia nova-iorquina, tem recebido duras críticas de vários segmentos de defesa dos direitos civis, depois que o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, adotou uma política de “tolerância zero”, cobrando uma maior repressão às reuniões de pessoas nas ruas para evitar a propagação do Covid-19. O argumento é que a polícia está “aproveitando” da lei de distanciamento social para reprimir afro-americanos.

O prefeito assumiu uma política mais dura após ir pessoalmente no bairro de Williamsburg, que fica localizado no Brooklyn, onde a polícia teve que dispersar mais de 2.500 pessoas da comunidade judaica ortodoxa que se reuniram para o funeral de um famoso rabino chamado Chaim Mertz, que morreu em decorrência de coronavírus.

Nas redes sociais há imagens e vídeos dos policiais tentando dispersar a multidão, mas em nenhum momento usou força física e violência contra a comunidade judaica.

Foto: Reprodução. Em meio à comunidade branca, polícia faz tratamento diferenciado para dispersão.

Após o episódio, o prefeito recebeu duras críticas da comunidade judaica da maneira como ele lidou com a situação. Ele se desculpou com a comunidade, mas afirmou que as ações  a partir de agora seriam mais “agressivas”.

Bill de Blasio ainda declarou: “Já passou o tempo das advertências. Eu instruí o NYPD, que a próxima reunião será realizada com prisões, ponto final.”

Após esse incidente com a comunidade judaica, a polícia nova-iorquina começou a fazer batidas mais duras e violentas em distritos com predominância negra como no Brooklyn, Harlem e no Bronx, segundo o jornal The New York Times.

Usando o argumento de “evitar aglomerações” por conta do Covid-19, a polícia se voltou mais fortemente para as comunidades negras e latinas da cidade. Na semana passada um vídeo publicado nas redes sociais mostrou um policial sem máscara agredindo violentamente um homem negro por estar sem máscara.

Nas imagens é possível ver o policial ameaçando utilizar a arma de choque num outro rapaz que se aproxima para questionar a violência durante uma detenção – o policial tenta derrubá-lo e o agride com socos no rosto.

Na última sexta-feira, 8, outro vídeo publicado nas redes sociais mostra um grupo de jovens negros ajoelhados com o rosto voltado para a grade. Era mais uma ação da NYPD contra “aglomerações”. A questão é que a polícia está realizando ações agressivas apenas nos bairros negros, enquanto nos bairros mais ricos, como East Village, em Manhattan, a população branca recebe doações de máscaras da polícia.

O advogado público de New York, Jumaane Williams, disse que “mesmo depois de tudo o que vimos e sabemos, isso é flagrante”. Williams ainda disse que a polícia de New York tem usado formas diferentes para lidar com  o problema de distanciamento social dependendo do grupo e do bairro.

Outra questão é que o uso de máscaras para os jovens negros pode configurar um claro risco de morte. Há vários relatos em comunidades negras americanas de perseguição policial à negros que estavam utilizando máscaras caseiras. No twitter, há algumas semanas, foi publicado um vídeo de um médico que foi algemado em frente a sua própria casa por “parecer suspeito” – ele estava testando moradores de rua para o Covid-19.

A questão é que um homem negro às vezes terá que decidir qual risco correr: ser contaminado pela Covid-19 ou ser preso por estar sem máscara, ou ainda usar a máscara e ser preso por ser “suspeito” – e a prisão nesse último caso é a melhor hipótese, num país em que o porte de armas é legal e qualquer pessoa pode alegar que atirou porque se sentiu em risco. Imagine a preocupação dos pais negros e de seus filhos ao optarem por utilizar máscaras.

Um  jovem negro usando uma máscara ou uma bandana no rosto traz  o estereótipo racial que temos que lutar para acabar e, além disso, não existe um padrão de máscara, pois na verdade há uma escassez de EPI (equipamento proteção individual) ou os preços são absurdos -, forçando as pessoas a criarem suas próprias máscaras.

A população negra e latina são os grupos que mais morrem devido ao Covid-19 no EUA. Os últimos dados divulgados pelo governo americano revela que 60% das mortes são de negros. A população afro-americana já vive um aumento absurdo do desemprego, falta de acesso à saúde e acrescenta-se a isso as perseguições e assassinatos de negros.

A polícia de New York chegou a prender 3 pessoas que faziam uma vigília pela morte de um rapper, alegando aglomeração.

Toda essa situação só tende a agravar ainda mais a situação dos Estados Unidos, visto que a prática de discriminação e extermínio da população negra, latina e pobre segue firme mesmo em tempos de pandemia.