Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Maria Vitória de Moura

Segundo o estudo “Suicídio entre jovens indígenas no Brasil de 2000 a 2020”, conduzido pela pesquisadora Jacyra Paiva, da Fiocruz, 64% dos suicídios entre os indígenas ocorre dentro da faixa etária de 10 a 24 anos, o que difere muito do cenário entre a população geral, na qual as maiores taxas de suicídio ocorrem entre pessoas com mais de 70 anos.

“O cenário se inverte com os indígenas e eu acredito que isso se dá muito em função da falta de expectativa do jovem com o amanhã, essas desilusões em relação ao território, à possível inserção socioeconômica e à desestruturação das famílias”, avalia o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia.

O suicídio recorrente entre a juventude indígena já havia sido apontado em um relatório epidemiológico do Ministério da Saúde em 2017, no qual a faixa etária dos 10 aos 19 anos já aparecia com a maior porcentagem de suicídios. O documento também traz que, comparado a jovens brancos e negros, a taxa de suicídio entre os jovens indígenas é oito vezes maior.

Na pesquisa, entre 2000 e 2020, em todas as faixas etárias, a região Centro-Oeste apresentou a maior parte dos casos de suicídio, principalmente Mato Grosso do Sul, estado com 3° maior número de indígenas no Brasil e com histórico de décadas de conflitos envolvendo repressões, perseguições e assassinatos na luta pela demarcação das Terras Indígenas (TI).

Com altas taxas de suicídio, Mato Grosso do Sul também concentra o maior número de conflitos envolvendo indígenas no país. Conforme o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre 2003 e 2019, o estado concentrou 39% dos 1.367 assassinatos de lideranças indígenas ocorridos no Brasil. Só em 2019, foram registradas 10 mortes, o maior número entre as 35 observadas nacionalmente.

Vice-campeão na concentração de terras no Brasil, 92% do território sul-mato-grossense é formado por áreas privativas. No índice de Gini de concentração fundiária, indicador calculado com base numa escala de 0 a 1, onde 0 representa a igualdade total, ou seja, situação em que todos têm a mesma quantidade de terra, e 1 significa a desigualdade máxima, Mato Grosso do Sul aparece com 0,84, perdendo só para o da Bahia (0,85) e acima da média brasileira, de 0,73.

A concentração de terras e os conflitos contra a demarcação dos territórios pertencentes às populações indígenas são fatores cruciais para entender o grande número de suicídios entre os mais jovens.

O Ministério da Saúde destaca que a não demarcação da terra não é a única razão, mas “pode ser um dos determinantes sociais que impactam na saúde e na situação de vulnerabilidade a que os povos indígenas estão submetidos”. A falta de perspectiva, desilusões em relação ao território e o próprio sentimento gerado pela marginalização na sociedade contribui para um aumento no número de suicídio e abuso de substâncias como álcool e drogas.

Levantamento realizado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) observou que o esvaziamento dos territórios indígenas pela juventude vem acompanhado de problemas psicossociais graves, principalmente pela falta de políticas públicas que garantam acesso à saúde, ensino, trabalho e lazer, levando esses jovens a migrarem para a cidade, onde raramente encontram pleno acesso ao que buscavam, mas sim um forte preconceito. Frustrados, sem esperança e desiludidos, buscam no abuso de substâncias um refúgio.

“Só para citar um exemplo, eu trabalhava em um bar chique e toda vez que entravam donos de fazendas, minha supervisora chamava as outras garçonetes, que eram brancas, para atender a mesa. Elas levavam os drinques, e eu limpava o chão”, conta Kunha Poty Rendy’i, ativista guarani-kaiowá em Mato Grosso do Sul.

Kunha cursa Ciências Sociais na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), mas não acredita que conseguirá emprego em sua área. Em entrevista ao UOL, Kunha contou sobre sua própria tentativa de suicídio aos 15 anos, assim como de amigos e parentes próximos. Ela conta, ainda, que “de tanto acontecer [o suicídio entre os jovens], é como se fosse normal”.

“Quando o jovem guarani-kaiowá pensa em se suicidar, ele pensa em muita coisa. Que não tem terra para viver, que não vai conseguir emprego porque é indígena, que tem conflitos com a família, que foi violentado. Muitos também fazem isso porque bebem muito ou usam drogas. São vários motivos em um só”, relata Kunha.

A falta de seus territórios e a luta constante por ele, atrelada à precarização dentro das aldeias, como a falta de escolas indígenas e espaço para viverem e desenvolverem suas culturas, agrava as questões psicossociais vividas pela juventude.

“Também precisamos de escolas indígenas dentro dos nossos tekohá [como os guarani chamam a terra onde vivem seus costumes], porque nossas escolas protegem as crianças do preconceito e ensinam a nossa cultura”, diz o cacique Celso Japoty Alves, da Terra Indígena Ocoi, em São Miguel do Iguaçu, no Paraná.

No sul do Paraná forma-se um cenário parecido ao vivenciado em Mato Grosso do Sul e no Brasil de forma geral. Segundo levantamento do Cimi, há na região cerca de 5.000 indígenas sem-terra.

Em 2020, ano marcado pelo aumento de invasões a Terras Indígenas (TI) e ofensivas contra os direitos ao território e à vida dessa população, o governo paralisou estudos para a demarcação de territórios no oeste do estado. No ano seguinte, que registrou 38,7% mais casos de invasões a TI no Brasil, a região Oeste do Paraná constatou 14 suicídios envolvendo jovens indígenas, o maior número já registrado no estado.

Há particularidades culturais e étnicas que perpassam a ocorrência de suicídios entre os jovens indígenas, mas no pano de fundo a conjuntura política, econômica e social que escancara as portas das aldeias e altera a vida dessas populações como um todo exerce um papel fundamental para entender os problemas psicossociais vividos por essa população.

Como formas de reverter esse cenário, especialistas listam desde maior atendimento psicológico e capacitação para que psicólogos e assistentes sociais atuem em Terras Indígenas, até a necessidade de que as perspectivas de vida sejam incentivadas com escola, saúde e lazer para a juventude dentro das aldeias, respeitando as tradições e conhecimentos indígenas sem que o conceito ocidental de saúde mental seja empurrado a essa população de forma arbitrária.