Enquanto a Conferência das Partes (COP 28) continua a moldar o futuro das ações climáticas globais, representantes da sociedade civil brasileira marcam presença no evento, trazendo perspectivas para as discussões sobre mudanças climáticas

Foto: Mídia NINJA

Por Rebecca Lorenzetti para Mídia NINJA

No sábado (02) mais de 140 organizações da sociedade civil brasileira se reuniram por cerca de duas horas para ouvir as ministras Marina Silva e Sônia Guajajara, o governador do Pará, Helder Barbalho e, em seguida, expressar suas demandas e convicções.

A delegação brasileira da sociedade civil é uma das maiores e mais diversas da história, composta por líderes de diferentes setores, incluindo organizações ambientais, representantes indígenas, movimentos sociais e especialistas em sustentabilidade. Essa diversidade reflete a abordagem inclusiva do Brasil na busca por soluções abrangentes para a crise climática, como tem se mostrado nos espaços de discussão da conferência a fim, inclusive, de protagonizar a luta em um momento de emergência climática.

A presença de líderes indígenas, como Sinéia Wapichana, coordenadora do departamento de Gestão Territorial e Ambiental (DGTA), enfatiza a importância de incorporar conhecimentos tradicionais na formulação de políticas climáticas. Essa abordagem destaca a interconexão entre a preservação ambiental e o respeito aos direitos indígenas.

Jovens ativistas climáticos também têm papel de destaque, trazendo entusiasmo e urgência para a COP 28. A Juventude pelo Clima do Brasil, representada por Raquel Wapichana, destaca a necessidade de ações rápidas para garantir um futuro sustentável.

A delegação enfrenta desafios significativos, incluindo a urgência de ações concretas diante dos relatórios alarmantes sobre a crise climática. O Brasil, um dos países megadiversos e diretamente afetados pelas mudanças climáticas, tem os olhares globais voltados para si.

No entanto, os representantes da sociedade civil brasileira estão comprometidos em pressionar por compromissos ambiciosos, cobrar responsabilidades dos líderes globais e contribuir para soluções inovadoras. A COP 28 não é apenas uma arena para negociações entre governos, mas também um palco para a influência e ação direta da sociedade civil em busca de um futuro sustentável.

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As organizações foram representadas por quatro porta-vozes. Dinamam Tuxá, coordenador da articulação dos povos indígenas do Brasil, representou os povos indígenas e expressou o desejo de mobilizar 5.000 indígenas na COP 30. “Somos 5% da população e protegemos mais de 80% da biodiversidade do país. Para avançar no debate, precisamos estar no centro da tomada de decisão, fortalecer a Funai e demarcar os territórios”, destacou.

Kátia Penha, membro da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), enfatizou a importância da regularização dos quilombos para a preservação do meio ambiente. “Os quilombolas estão em todos os biomas, sendo 30% deles moradores da Amazônia legal. Os programas de quilombamento precisam ser reforçados para garantir a segurança dos territórios”.

Representando a juventude e a periferia, Marcele Oliveira, negociadora pelo clima, iniciou sua fala pedindo para que outros jovens se levantassem. Em seguida, questionou qual legado será deixado no espaço da COP e nas pautas de clima como um todo. “Estamos aqui, num evento onde o português sequer é língua oficial, com pouco espaço para participarmos dos debates que nos afetarão. Por isso, peço que considerem programas nacionais para o desenvolvimento de jovens negociadores pelo clima”, solicitou.

Já Márcio Astrini, do Observatório do Clima, dirigiu-se ao presidente solicitando que reforce as pautas para as lideranças globais: “Há um vácuo na liderança global no engajamento pelo clima”. O representante também abordou a produção de petróleo, tema polêmico na COP 28, visto que o evento é presidido por Al Jaber, sultão e CEO da petrolífera Adnoc. “Há diversas promessas sendo feitas para conter as mudanças climáticas, mas há uma promessa que não é mencionada: quando vamos acabar com o uso de combustíveis fósseis no planeta?”, questionou.

Apesar da sala contar com muitos apoiadores do presidente, assim como ocorreu em encontros semelhantes na COP 27, em Sharm el-Sheik, as críticas foram expressas, inclusive por quem não teve a oportunidade de se dirigir ao microfone. Um exemplo é a ativista indígena Txaí Suruí, que discursou na plenária da COP26, em Glasgow. Durante grande parte da reunião de hoje, ela segurou uma página pedindo a revogação da portaria 683, de 2017, que anula a declaração da terra indígena Jaraguá.

Enquanto as discussões prosseguem em Dubai, a expectativa é que as vozes da sociedade civil brasileira continuem a ecoar, impulsionando as decisões tomadas na COP 28 em direção a um compromisso coletivo para enfrentar a crise climática.