Com risco de submergir nos próximos 20 ou 30 anos, Tuvalu está buscando alternativas para sobreviver e isso inclui tornar-se a primeira nação digitalizada no metaverso. Direto do território, o ministro das Relações Exteriores, Simon Kofe, via transmissão virtual, disse na 27ª Conferência Mundial do Clima que o país insular do Pacífico replicará ilhas e pontos turísticos com o uso da realidade aumentada e virtual para preservar sua história e cultura.

“Nossa terra, nosso oceano, nossa cultura são os bens mais preciosos de nosso povo e para mantê-los a salvo de danos, não importa o que aconteça no mundo físico, vamos movê-los para a nuvem”, disse ao tempo em que apresentava uma réplica da ilha ameaçada pela elevação do nível do mar.

 

Simon Kofe tem buscado várias maneiras de sensibilizar os líderes dos países (Divulgação)

E alertou: “apenas um esforço global pode garantir que Tuvalu não fique permanentemente no universo virtual e desapareça para sempre do plano físico. Sem uma consciência global e um compromisso global com nosso bem-estar, podemos em breve ver o resto do mundo se juntando a nós no mundo virtual enquanto suas terras desaparecem”.

Kofe tem buscado várias maneiras de sensibilizar os líderes dos países. No vídeo transmitido durante a conferência mundial do ano passado, que ocorreu em Glasglow, ele aparecia de terno e gravata com água do mar até os joelhos.

“Tuvalu estava tendo que agir porque os países em todo o mundo não estão fazendo o suficiente para prevenir a mudança climática”, disse ele.

Seul e Barbados já manifestaram vontade de entrar no mundo virtual, para fornecer serviços administrativos e diplomáticos, mas Tuvalu vai além. “A ideia é continuar a funcionar como um estado e, além disso, preservar nossa cultura, nosso conhecimento, nossa história em um espaço digital”, disse Kofe à Reuters.

Segundo ele, isso já está acordado com os outros sete governos: eles entendem que é importante garantir que mesmo que submerso, continue a ser reconhecido internacionalmente como uma nação e ainda, suas fronteiras marítimas e seus recursos sejam mantidos. Kofe destaca que se efetivaria aí uma nova área do direito internacional.

 

Futuro incerto

Em Tuvalu, localizada entre a Austrália e o Havaí, vivem 12 mil pessoas. Até 40% da capital fica submersa na maré alta, e a previsão é que todo o país fique submerso até o final do século. Uma dessas pessoas que mais teme o futuro incerto é o ambientalista Talua Nivaga, que em entrevista ao Um Só Planeta, disse que seus três filhos podem ser forçados a deixar o país para viverem em outro lugar.

“Olhando para a crise que estamos passando agora e projetando para o futuro, existe um cenário muito ruim. Todas as causas pelas quais eu luto hoje, todas as belezas únicas que Tuvalu tem, terão ido embora em duas ou três décadas. Eu não sei se meus filhos terão a possibilidade de dizer, com orgulho, que são de Tuvalu, como eu falo hoje. Não sei se eles serão obrigados a emigrar e eles serão chamados ‘estrangeiros’. Eu já chorei várias vezes ao pensar no futuro dos meus filhos”, disse à reportagem.

Atualmente, os efeitos das mudanças climáticas estão em todos os lugares e já é difícil até mesmo, encontrar terreno para construir casas, principalmente na capital. Também há escassez de alimentos, intrusão de água salgada nos rios, erosão costeira, ciclones e secas. Segundo levantamento do projeto Borgen, os habitantes estão entre os primeiros refugiados do clima.

Por isso, a nação polinésia se tornou a segunda do mundo — a primeira integrante da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) — a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis. A adesão foi anunciada durante a Conferência do Clima nas Nações Unidas, a COP27, que acontece até esta sexta-feira (18) no Egito.

O tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis propõe a regulação da produção de carvão, petróleo e gás, por meio de um mecanismo internacional. As negociações só não avançaram em nível internacional devido à dificuldade — e falta de vontade — de nações ao redor do globo de abrirem mão de suas fontes poluidoras. Diante da inação dos países no tema, a sociedade civil deu um passo à frente.

Alerta

O Um Só Planeta informa que um estudo feito pelo Instituto para o Meio Ambiente e Segurança Humana, da Universidade das Nações Unidas, mostrou que, até 2055, as migrações internas em Tuvalu e Kiribati — nação-ilha da Micronésia vizinha a Tuvalu — vão aumentar em 70% e 100%, respectivamente.

“Atualmente, 15% da população de Tuvalu já foi forçada a se deslocar para outros países, 12% já migrou internamente e 8% gostaria de ter migrado, mas não teve condições. O mesmo estudo também diz que 23% das pessoas deslocadas em Kiribati e 8% em Tuvalu atribuíram o deslocamento diretamente às mudanças climáticas. As outras razões para a migração e emigração estão indiretamente relacionadas ao tema climático, como busca de melhores condições de vida e trabalho”, diz trecho da reportagem.