“As distorções e fake news são estratégias de uma extrema direita que promove a desinformação”, afirmou o autor e professor, Jefferson Tenório

Foto: redes sociais

O premiado livro “O Avesso da Pele”, do escritor Jeferson Tenório, está sofrendo uma tentativa de censura em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. O livro é distribuído pelo Ministério da Educação em milhares de escolas do Brasil, mas, no município, a coordenadoria de educação orientou os diretores das escolas estaduais da região a suspenderem a distribuição do livro nas bibliotecas e aos alunos do ensino médio “até segunda ordem”.

A diretora da Escola Estadual Ernesto Alves, Janaina Venzon, publicou um vídeo nas redes sociais criticando a linguagem e o conteúdo da obra, que inclui palavras consideradas de baixo calão e cenas de sexo. No vídeo, a diretora expressa sua indignação com a escolha do livro para ser trabalhado com os alunos, questionando a qualidade do material e atribuindo a responsabilidade ao governo federal. No entanto, foi a própria escola que decidiu adotar o livro.

A Secretaria de Educação, no entanto, afirmou que deve manter o livro em bibliotecas da rede estadual de ensino. “O uso de qualquer livro do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) deve ocorrer dentro de um contexto pedagógico, sob orientação e supervisão da equipe pedagógica e dos professores. A 6ª Coordenadoria Regional de Educação vai seguir a orientação da secretaria e providenciar que as escolas da região usem adequadamente os livros literários”, afirmou a Secretaria.

Em sua conta oficial no Instagram, o autor e professor classificou falas proferidas pela diretora como “distorções e fake news”.

“As distorções e fake news são estratégias de uma extrema direita que promove a desinformação. O mais curioso é que as palavras de “baixo calão” e os atos sexuais do livro causam mais incômodo do que o racismo, a violência policial e a morte de pessoas negras”, disse.

Tenório, que foi o primeiro escritor negro e o mais jovem a ser homenageado com o patronato da Feira do Livro de Porto Alegre, ainda afirmou que o livro em questão já foi adotado em centenas de escolas pelo Brasil. “Não vamos aceitar qualquer tipo de censura ou movimentos autoritários que prejudiquem estudantes de ler e refletir sobre a sociedade em que vivemos”, disse.

Foto: Carlos Macedo/reprodução

A escolha de “O Avesso da Pele” para integrar o catálogo do PNLD foi feita pela escola no final de 2023, para ser utilizado no ano letivo de 2024. A obra, premiada com o Jabuti na categoria de melhor romance em 2021, passou por uma avaliação criteriosa do PNLD, sendo aprovada por uma banca de educadores e especialistas em literatura e língua portuguesa.

A Companhia das Letras, editora responsável pela publicação do livro, manifestou seu repúdio à decisão de suspender a distribuição, destacando que a retirada de exemplares baseada em uma interpretação distorcida e descontextualizada viola os princípios fundamentais da educação e da democracia, prejudicando o desenvolvimento do pensamento crítico dos estudantes.

Ao ser contatada pela imprensa, a Secretaria Estadual de Educação afirmou não ter emitido nenhuma orientação para recolher a obra literária, porém, o ofício da 6ª CRE é claro ao solicitar que os livros não sejam disponibilizados nas bibliotecas e aos estudantes “até segunda ordem”.

A associação Mães e Pais pela Democracia (AMPD), apresentou uma representação ao Ministério Público Federal (MPF). A entidade argumenta que o caso fere princípios constitucionais, como a liberdade de aprender e ensinar, a gestão democrática e o pluralismo de ideias.

Na representação, a AMPD pede responsabilização da diretora da escola e de uma deputada estadual que republicou o vídeo, além da retirada do material das redes sociais e a devolução dos livros às bibliotecas, acompanhada por uma campanha de conscientização contra a autocensura nas escolas.

*Com informações do Sul21