Salas de exibição têm resistido após a pandemia, e partir disso, o longa promete refletir sobre importâncias culturais e urbanas

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Por Victor Meira

Deixados de lado pela maior parte do público, os chamados “cinemas de rua” enfrentam dificuldades há décadas. Seja pelo aumento das redes de cinema em shopping centers, pelo fechamento durante a pandemia de Covid-19, ou meramente por mudanças nas metrópoles. Estes estabelecimentos, muitas vezes históricos para as cidades, não possuem muito incentivo político para se manterem abertos ou serem preservados. O filme “Retratos Fantasmas” propõe uma reflexão acerca da transformação urbana de Recife e como isso afetou os cinemas de rua ao longo dos anos.

“A cidade se transforma a cada ano. Um cinema pode ser um espaço de gentileza. Um cinema como uma igreja. Cinemas que morreram e que voltaram como templos”reflete o diretor Kleber Mendonça Filho, em trecho do trailer de seu novo filme. O longa estreou no Brasil no Festival de Gramado e deve entrar na disputa para ser o concorrente estrangeiro do Brasil no Oscar.

Assista ao trailer do filme:

No dia 8 deste mês, a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, apurou que o Itaú pretende encerrar seu patrocínio com salas de cinema. O banco entrou no ramo há mais de 24 anos, quando o Cine Majestic, da Rua Augusta, na capital paulista (SP), virou patrocinado pela empresa. Em nota, o Itaú Unibanco negou a informação. Em 2021, a rede fechou 17 salas de cinema entre Curitiba, Salvador e Porto Alegre. 

Segundo um estudo georreferenciado da Ancine, em 2019, 88% das salas de exibição no Brasil estavam em shopping centers.

“Em números, o parque exibidor passou de 2.352 salas, em 2011, para 3.507 salas, em 2019 – um aumento de 1.155 salas. Destas, 1.054 foram salas abertas em shopping centers e apenas 71 foram salas de rua”, relata a publicação. 

Para efeito de comparação, apenas a cidade do Rio de Janeiro teve 198 cinemas de rua na década de 60. Atualmente, a prefeitura da cidade anunciou em Julho o programa Viva o Cinema de Rua, que vai destinar R$ 3,5 milhões a oito projetos para manutenção, funcionamento e reforma de salas de exibição.

Mas não são apenas questões políticas e de incentivo, os hábitos dos consumidores também mudaram após a pandemia. Em uma entrevista da Veja SP, Juliana Britto, diretora executiva do Petra Belas Artes, famoso cinema de rua de São Paulo, conta que as novas tecnologias mudaram o cenário: “A gente sentiu que a pandemia ‘quebrou’ o hábito das pessoas de irem ao cinema. Os streamings seguiram entregando conteúdos audiovisuais para suprir essa demanda, o que fez o público se acomodar”, disse Juliana.

Foto: Wikimedia Commons/Hilary Shirley Carneiro dos Santos

O cinema São Luiz, tradicional sala no Recife, está fechado há mais de um ano para reforma no sistema de esgoto e no teto da construção. Até pouco tempo, a obra não tinha previsão para terminar e o estabelecimento não tinha data de reabertura. Segundo o jornal Folha de Pernambuco, a governadora Raquel Lyra disse à imprensa que o histórico cinema será reaberto em 2024, mas não entrou em detalhes em que momento do próximo ano. O fechamento do cinema é retratado em “Retratos Fantasmas”, de acordo com críticos e o próprio Kleber Mendonça Filho.

Apesar da dificuldade, algumas salas pelo país tentam resistir mesmo sem os shopping centers. Mês passado, no dia 7 de julho, reabriu o Cine Victoria, espaço no Centro Histórico de Porto Alegre, com nova direção pelo Cult Cinemas. O estabelecimento, que foi inaugurado pela primeira vez em 1940, estava fechado há seis anos. Em Niterói, no Rio de Janeiro, há um projeto de restauração do Cinema Icaraí, tradicional por ficar na orla da praia. Construído nos anos 40, o espaço está com um edital de licitação em que o investimento pode chegar a R$ 55 milhões.

“Retratos Fantasmas” chega aos cinemas tanto nos shoppings, quanto nos “de rua” em 24 de agosto.