Ao analisar as últimas oito edições, a premiação parece ser marcada por um mecanismo de “avanços e freios”

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Por Sabrina Ventresqui*

Há quase uma década, um movimento tomou conta das redes sociais e causou polêmica em Hollywood. Trata-se do “OscarsSoWhite, que ocorreu em 2016. Naquele ano, a internet foi tomada por uma série de protestos para reivindicar mais diversidade nos indicados à premiação, já que foi o segundo ano consecutivo que nenhum ator ou atriz não brancos foram lembrados nas principais categorias da noite: Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Atriz e Ator Coadjuvante. O impacto da manifestação foi tão grande que os atores Jada Pinkett Smith, Will Smith e o diretor Spike Lee decidiram não comparecer à cerimônia e a falta de diversidade chegou a ser abordada pelo apresentador daquele ano, o comediante Chris Rock, em seu monólogo de abertura. Vale destacar que além da falta de diversidade racial, também havia a de gênero, já que nenhuma mulher foi indicada na categoria de Melhor Direção. Desde a controvérsia, a Academia prometeu mais inclusão e diversidade. Mas, será que isso realmente aconteceu?

Em 2017, sinalizando ter compreendido o recado, a Academia reconheceu a potência e premiou o belíssimo Moonlight: Sob a Luz do Luar na maior categoria da noite, a de Melhor Filme. Cumprindo a promessa, os atores Ruth Negga e Denzel Washington, Mahershala Ali, Dev Patel, Viola Davis, Naomie Harris e Octavia Spencer foram indicados ao prêmio de Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente, sendo que apenas Ali e Davis foram laureados com a estatueta. No entanto, como no ano anterior, nenhuma mulher concorreu em Melhor Direção.

Em 2018, as coisas pareciam estar melhorando, uma vez que Corra!, do diretor Jordan Peele, foi nomeado na categoria de Melhor Filme e levou o Oscar de Melhor Roteiro Original enquanto Greta Gerwig se tornava a quinta mulher a concorrer ao prêmio de Melhor Direção por Lady Bird. Além disso, houve diversas manifestações a favor da diversidade racial e de gênero, inclusive pela atriz Frances McDormand, que venceu a estatueta de Melhor Atriz por Três Anúncios Para um Crime. 

Porém, em um olhar mais atento, é possível perceber que a Academia já havia começado a falhar em honrar seu compromisso com a diversidade, já que nas categorias de Melhor Atriz e Ator, apenas artistas brancos foram nomeados ao Oscar.

Em 2019, a Academia premiou Regina King como Melhor Atriz Coadjuvante, Mahershala Ali novamente por Coadjuvante e o diretor mexicano Alfonso Cuarón por Roma. Bem como lembrou das atrizes latinas Marina de Tavira, Yalitza Aparicio, que concorreram por Atriz Coadjuvante e Melhor Atriz, respectivamente.

Parecia que a premiação estava fazendo progresso, certo? Contudo, a noite terminou com um grande balde de água fria quando Green Book, um filme abertamente racista, recebeu o Oscar de Melhor Filme.

No ano seguinte, depois do fiasco de Green Book, a Academia concedeu a Parasita a maior honraria da noite. Porém, não foi capaz de indicar nenhum dos membros do elenco em categorias de atuação.

Esse sistema de avanços e freios parece ser algo recorrente no Oscar. Toda vez que a premiação parece estar avançando, algo acontece e a faz retroceder. É como se as indicações fizessem parte de uma cota para satisfazer o desejo do público ou como se os votantes dissessem: ‘Olha, já fizemos o que vocês queriam, somos inclusivos. Agora nos deixem em paz’. E ano após ano, somos ludibriados pela luz ofuscante dos holofotes que nos faz pensar que a Academia é inclusiva e diversa, quando boa parte dos membros são homens brancos de meia idade e sequer pensam na representatividade, importância e impacto que a indicação de pessoas negras, latinas, mulheres, não bináries e membros da comunidade LGBTQIAPN+ fazem na vida de quem assiste e se identifica com cada uma dessas identidades.

Ao dar um passo para frente e dois para trás, o Oscar se encaixa em um fenômeno descrito pela autora feminista Susan Faludi, na década de 1990. Em seu livro ‘backlash’, a escritora discorre sobre uma espécie de retaliação por parte da mídia e da sociedade em resposta aos avanços do movimento das mulheres. Neste caso, a mesma represália pode ser observada na premiação, mas no contexto da diversidade racial, de gênero e orientação sexual. É o mesmo mecanismo: toda vez que as minorias sociais estão perto de fazer grandes conquistas, uma retaliação acontece para minar o avanço. 

Apesar de todas as hipocrisias cometidas pela Academia depois de uma promessa de diversidade, a mudança parece ter começado a ganhar fôlego cinco anos depois, em 2021. Naquele ano, houve, de fato, mais indicações e prêmios às minorias. Como exemplo, a diretora asiática Chloé Zhao venceu Melhor Direção por Nomadland e pasme, ela não foi a única indicada, pois Emerald Fennel também concorreu por Bela Vingança. Além disso, Zhao foi a primeira mulher não branca a ser premiada na categoria. 

Riz Ahmed, Steven Yeun, Chadwick Boseman disputaram o prêmio de Melhor Ator, e desta vez, a categoria teve atores não brancos como maioria. Já Viola Davis e Andra Day concorreram em Melhor Atriz, Daniel Kaluuya venceu o Oscar por Melhor Ator Coadjuvante, sendo que além dele, outros dois atores negros, Leslie Odom Jr. e Lakeith Stanfield, também foram indicados na categoria. Fechando o ciclo de diversidade, Yuh-Jung Youn foi premiada em Melhor Atriz Codjuvante por Minari. 

Em 2022, a Academia premiou uma mulher pelo segundo ano consecutivo em Melhor Direção quando Jane Campion levou a estatueta por Ataque dos Cães. Essa foi a sétima indicação feminina e a terceira vitória nos quase 100 anos de premiação. 

No mesmo ano, Will Smith se consagrou o Melhor Ator por King Richard, tornando-se o sexto ator negro a vencer a categoria. Em Melhor Ator Coadjuvante, nenhum artista não branco foi indicado, já em Atriz Coadjuvante, Ariana Debose levou a melhor pelo papel em Amor, Sublime Amor. 

Por fim, em 2023, o Oscar surpreendeu ao reconhecer o sucesso e maestria de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo e o premiou como Melhor Filme. Ainda, Michelle Yeoh levou a estatueta de Melhor Atriz e fez história como primeira asiática a levar o Oscar na categoria. Ke Huy Quan foi consagrado Melhor Ator Coadjuvante enquanto Stephanie Hsu foi nomeada em Melhor Atriz Coadjuvante pelo mesmo filme, marcando a primeira vez que artistas asiáticos são indicados às principais categorias de atuação ao mesmo tempo.

Todavia, como é de se imaginar, a conquista foi agridoce, já que o Oscar não indicou atores não brancos em Melhor Ator e nenhuma diretora em Melhor Direção. 

Neste ano Justine Triet, concorre a Melhor Direção por Anatomia de uma Queda, Colman Domingo foi lembrado em Melhor Ator, Lily Gladstone, concorre a Melhor Atriz por Assassinos da Lua das Flores e é a primeira mulher indígena a ser indicada ao Oscar.

Sterling K. Brown, por Ficção Americana, Danielle Brooks, por A Cor Púrpura, America Ferrera, por Barbie e Da’Vine Joy Randolph, por Os Rejeitados foram nomeados por Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente, e representam a diversidade nas indicações principais. Agora resta saber se a Academia optará por dar um passo em direção ao progresso ou se permanecerá retrógrada, racista e discriminatória ao premiar atores e diretores brancos por trabalhos medíocres.

*Texto produzido em cobertura colaborativa da Cine NINJA – Especial Oscar 2024