Saiba como a maioria dos imigrantes vive à margem das estatísticas oficiais do país

Foto: AFP via Getty Images

Por Lays Serafim Ribeiro

A escolha do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 é polêmica desde o seu anúncio em 2010: aspectos climáticos e direitos humanos foram pautas discutidas ao longo dos últimos anos. Nos primeiros dias de Copa, circulou nas redes sociais um vídeo, originalmente publicado no TikTok, que supostamente mostra muros construídos para ocultar dos turistas os bairros periféricos catarianos. Apesar de não termos acesso à data e local exatos da gravação, trata-se de mais um elemento que coloca em xeque os dados estatísticos oficiais do país, disponíveis no Censo de 2020, que apontam melhora dos índices sociodemográficos.

Quem precisa ser escondido, afinal?

O professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), Antônio José Barbosa, pesquisador em história contemporânea da Ásia, destacou em entrevista à Agência Brasil que “menos de 20% da população é nativa”. O restante é gente de fora, pessoas muito pobres que vão para lá trabalhar, de países tanto da África quanto da Ásia”.

A BBC News, em novembro deste ano, apurou que esses imigrantes não usufruem dos mesmos benefícios sociais que os catarianos como, por exemplo,em relação ao acesso gratuito ao sistema de saúde, auxílio-moradia e auxílio-transporte. É importante dizer, ainda, que os dados estatísticos oficiais do país, são construídos a partir da renda de sua população nativa, o que endossa o viés social do país.

Em 2015, a equipe do GloboEsporte.Com visitou alojamentos de imigrantes que, na época, eram os construtores da exuberante estrutura vista hoje na Copa. As condições eram precárias e o custo de vida muito alto diante dos salários recebidos. Em 2019, mesmo após denúncias relacionadas às condições de trabalho dos imigrantes, não parecia ter mudado muita coisa. De acordo com o UOL, não havia tratamento de água e esgoto adequados nas moradias dos trabalhadores.

Foto: Matheus Tibúrcio para GloboEsporte.Com

Foto: Leo Burlá para UOL

Além das imagens: o que significa ser imigrante no Catar em 2022?

A melhor forma de entendermos a realidade atrás dos muros é por meio de números. Para exemplificar, utilizaremos os ganhos de imigrantes da área de construção civil, apurados pela BBC News: US $2 mil por ano. Atualmente, 1 dólar americano equivale a 3,64 Riais Catarinenses (QAR), moeda local. Convertendo os ganhos dos imigrantes, anualmente, são 7282 QAR e, mensalmente, 606,83.

O que é possível, então, pagar com 606,83 QAR? O Expatistan.com é uma calculadora de custo de vida, construída coletivamente e voltada para expatriados. De acordo com seus dados, 606,83 QAR não são suficientes para o custo de vida mensal estimado para uma pessoa. Seriam necessários, pelo menos, 19 vezes esse valor para cobrir os 11595 QAR estimados. Além disso, comprar apenas 12 cervejas nos locais permitidos durante a Copa, já significa não ter dinheiro pro resto do mês (600 QAR). Em contrapartida, a média salarial de cidadãos catarianos é de US $700 mil por ano (2 548 700 QAR anuais e 212 391,67 QAR mensais).

Tamanha discrepância, mais uma vez, evidencia os contrastes do Catar, tão questionados nos últimos anos. O custo de vida no país empurra, de fato, imigrantes para trás dos muros, para as nuvens de areia do deserto. Pois, não há condições mínimas para usufruir das belas cidades. Cidades essas, construídas pelo suor das suas mãos. Algumas mãos, que já não estão mais aqui.

Minky Worden, diretora de iniciativas globais da Human Rights Watch, em novembro deste ano reiterou: “O legado da Copa do Mundo de 2022 dependerá do Catar e da FIFA promoverem indenizações por conta das mortes e outros abusos sofridos por trabalhadores migrantes que construíram a infraestrutura do torneio, implementar de fato as reformas trabalhistas recentes e proteger os direitos humanos de todos no Catar – não apenas de torcedores e atletas”.

Com informações de HRW, Expatistan, Uol, BBC, GE e Agência Brasil

Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube