Foto: Edu Moraes

Por Isis Maria

A gente sabe como a história do Mamonas Assassinas termina. Ver o filme nos ajuda a entender como esta história começa. Mas, mesmo com o final marcado, ele não entrega o que a última cena nos promete.

Quem foi criança/ adolescente nos anos 1990 viveu esse momento dos 5 de Guarulhos com bastante intensidade. E se lembra bem como foi o 02 de março de 1996, em que recebemos a notícia da batida do avião na Serra da Cantareira.

Dinho é quem começa a narrar a história que vai contar os 5 anos de corre e os 8 meses meteóricos de sucesso da banda, interrompidos pela tragédia. Nesse ponto, o destaque para Dinho, Sérgio e Samuel leva a crer que eles são os personagens principais. E se você manja de Mamonas, sabe que tem mais gente envolvida. Talvez a ênfase aqui seja para mostrar que Dinho era uma liderança nata no grupo, do qual ele não fazia parte. Ainda.

Sérgio e Samuel tinham uma banda chamada Utopia. Samuel era baixista, Sérgio baterista e Bento, que ainda não tinha sido visto no filme, o guitarrista. Há um tecladista no rolê, que não parece ter importância. Sérgio e Dinho já tinham se estranhado em um jogo de futebol. E num momento inusitado durante um show da Utopia, Sérgio se vê com Dinho como vocalista improvisado de sua banda. Dali em diante, Dinho vai se tornar o vocalista oficial. A gente vai entender ao longo do filme também que Dinho fazia outros trabalhos querendo ser famoso e a entrada na banda abre uma porta em sua vida.

Em um momento que não fica claro (no cinema, porque se você ler a história, dá pra saber), Júlio, amigo de Dinho, entra para o Utopia. E o outro tecladista que não sabíamos quem era, desaparece.

Tem horas em que a gente se confunde entre ser um filme sobre os Mamonas e um filme sobre o Dinho, mas é perceptível que muitos detalhes sobre ele são importantes para entender músicas, sonoridade, irreverência. Um pé na bunda, sua origem familiar, sua cara de pau. Se você conhece as músicas, vai pegar as referências na hora – o alemão, o jumento, a 5º série. Em outras horas, o filme parece ser sobre os irmãos Sérgio e Samuel, mas é para mostrar corre, resiliência, empenho, parceria. Bento e Júlio tem menos destaque, quase como coadjuvantes na história.

Outra figura de extrema importância é o italiano, o produtor musical que topa gravar o Utopia, mas percebe que o caminho deles não era ser uma banda de rock progressivo e sugere que eles abracem o que lhes é peculiar. No caso, a veia mais cômica que os lança para o mundo. O produtor é o Rick Bonadio, que eles chamavam de creuzebeck. E se você não estava em marte, sabe de quem eu tô falando.

Entre shows, tretas, perrengues e tentativas de se lançar no mundo, os garotos conseguem ser vistos por um grande produtor que decide gravá-los. Vão mixar discos nos Estados Unidos, tocam na rádio, aparecem na TV.

Na época, Guarulhos, para quem é do interior, era só um aeroporto. Virou um local de potência. Dinho tem consigo, e isso o filme deixa claro porque leva até no nome, que o impossível não existe. Ele faz de tudo para gravar, cantar, conseguir se apresentar. E nunca perde de vista que, focado e desenrolando, ele vai vencer.

Sérgio e Samuel protagonizam a única cena que chegou perto de marejar um olho no filme todo. A parceria entre irmãos. Se colocar em risco para provar o amor. Não abandonar o outro, ser base, abrigo, apoio.

O filme consegue descrever uma trajetória que te emociona pelos percalços, que faz rir nas desgraças e erros. Mostra o momento da virada de grana, mudança de vida. A casa própria, a moto. O conflito sobre ser cantor solo, será que eu sou maior que isso? E o épico show em Guarulhos em que Dinho faz um discurso sobre o sonho, onde o Utopia abre o show para o Mamonas Assassinas, no palco onde haviam sido rejeitados antes. Mas perde em amarrar melhor o fim.

Depois deste show épico, a gente vai se encaminhar para momento do acidente. Tem apelo da namorada que confessa que ainda tem amor, do casamento prometido, do orgulho do pai, o sonho premonitório. A despedida do empresário na ida. E uma volta que não acontece.

A gente sabe que eles morreram, um lettering nos diz. Algumas imagens felizes do grupo aparecem, temos datas. O acidente não é abordado em profundidade. Mas as milhões de horas na TV, homenagens, pessoas chorando, luto na cidade, aulas suspensas que aconteceram depois disso, também não.

Não é um filme para apresentar o Mamonas para quem não os conhece. Pode causar uma nostalgia quando algumas músicas tocam, você pode cantarolar “sabão crá crá” quando Dinho toma banho. Quando a gente poderia ver o impacto do Mamonas na vida das pessoas, a gente vê uma tela que diz “Mamonas Vive”, sem nos apresentar nenhuma evidência disso. Um fã, uma pessoa que foi influenciada por eles. O que eles mudaram no cenário local, musical. Nada.

Muito provavelmente, as músicas cantadas na época não funcionariam hoje. Robocop Gay não tocaria em nenhum lugar.

Fui embora com a sensação de que, se você não foi fã dos Mamonas, vai sair do cinema sem entender a comoção que eles causaram. E este filme não vai te convencer a querer saber.