Esse “pó preto”, conhecido como Material Particulado (MP 2,5), identificado pela OMS como o poluente mais prejudicial à saúde humana, levanta preocupações sobre os impactos na saúde da população

Foto: Nilmar Lage

Ipatinga, cidade mineira cortada pela Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), enfrenta desafios ambientais significativos devido à atividade da Usiminas, considerada a maior produtora de aços planos da América Latina. Com uma área de 10 km² na cidade e uma produção estimada em torno de 11 mil toneladas de aço por dia, a empresa registrou um lucro líquido de R$ 76 milhões no primeiro trimestre deste ano.

O cotidiano dos 13 mil funcionários da Usiminas reflete as preocupações crescentes sobre a qualidade do ar. Uma pesquisa conduzida pela própria empresa em 2017 revelou que 89% dos moradores de Ipatinga se incomodam com o “pó preto”, uma referência ao material particulado emitido durante a produção de aço. No entanto, o desconforto vai além das percepções subjetivas, conforme indicado por um monitoramento ambiental concluído em dezembro de 2022, que revelou concentrações de poluentes 56 vezes acima do recomendável dentro da usina e dez vezes superior nos bairros.

Esse “pó preto”, conhecido como Material Particulado (MP 2,5), identificado pela OMS como o poluente mais prejudicial à saúde humana, levanta preocupações sobre os impactos na saúde da população. Estudos científicos associam a exposição ao MP 2,5 a diversas doenças, incluindo acidente vascular cerebral, doenças cardíacas, diabetes e câncer. Embora dados do IBGE indiquem um aumento de 14% nas mortes associadas à poluição atmosférica no Brasil entre 2006 e 2016, em Ipatinga, ainda não há pesquisas que vinculem diretamente o poluente a causas específicas de morte.

“O pó preto é muito forte. Por eu ser praticamente vizinho do pátio de estocagem de minério da Usiminas, posso dizer com segurança. Qualquer vento forte é suficiente para fazer subir um nevoeiro metálico que logo se espalha sem controle algum por praticamente toda cidade. Ninguém sabe o que tem nesse pó. A Usiminas não divulga nada”, reclamou Júlio César Batista, morador do bairro Cariru, um dos 13 que cercam a siderúrgica, em entrevista ao Brasil de Fato.

A legislação local, como a Lei 3279/2013, que define parâmetros para o Índice de Qualidade do Ar, não tem sido efetivamente implementada, apesar das tentativas da vereadora Lene Teixeira (PT) de buscar apoio do Ministério Público. Diante desse cenário, sindicatos, autoridades locais e a população clamam por ações mais concretas e transparentes.

O Ministério Público do Trabalho e o Ministério Público do Estado se comprometem a investigar e buscar soluções para proteger a saúde dos trabalhadores e dos moradores de Ipatinga. A questão ambiental na cidade destaca a necessidade urgente de medidas coordenadas para enfrentar a poluição do ar e garantir a saúde da comunidade.

A assessoria de comunicação da Usiminas informou que a empresa “observa a legislação ambiental vigente nas suas operações e investe no controle ambiental com foco, entre outros, na mitigação das emissões de material particulado, por meio da adoção de práticas e sistemas de controle consolidados no setor de siderurgia”.

*Com informações do Brasil de Fato