Filme estrelado por Marieta Severo e Zé Carlos Machado chega aos cinemas nesta quinta-feira (4)

Foto: Divulgação

Por Lilianna Bernartt

“Domingo à noite” é um exemplo de filme que se inclina a uma determinada pauta, mas consegue expandir sua semântica, justamente pela subjetividade ampla do assunto central – a memória.

Marieta Severo, coincidentemente, vive uma das grandes atrizes do Brasil, Margot. Ela divide essa função com a de cuidadora de seu marido, Antônio (vivido por Zé Carlos Machado), um escritor premiado que se encontra já em estágio avançado do Alzheimer.

Com dificuldades para memorizar suas falas e assim, finalizar seu último filme, do qual também responde pela produção, ela sofre um novo choque quando recebe o diagnóstico de que também está com Alzheimer. Com a descoberta, ela passa a questionar o futuro e a manutenção de sua identidade.

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A privação da memória afeta a própria autonomia existencial da pessoa acometida pela doença, seu eu social. Para Margot, a perda de sua autonomia representa a perda de uma história de vida e de luta, sendo que sua figura, neste ponto, excede a trama central e se assume como um corpo social que se vale da memória como forma de resistência, da garantia do reconhecimento de uma trajetória marcada pela busca pela liberdade e autonomia individual, acerca do próprio corpo e escolhas.

Para as mulheres, historicamente oprimidas, periga o apagamento de árduas conquistas e lutas. Em uma sociedade em que presenciamos a precificação de um estupro, da violação do corpo feminino, como o recente caso do estuprador Daniel Alves, o debate é imprescindível.

O filme segue se utilizando da memória como mecanismo análogo a certificação dos esforços de um sujeito, de um país ou mesmo de um continente, frisando a necessidade do auto conhecimento para garantia de sobrevivência pós-processo de violação de direitos.

É preciso lembrar as histórias de cerceamento de direitos, tortura, de supressão da autonomia individual, para que possamos combater movimentos opressores resistentes e cíclicos dentro de um processo histórico. Nesse sentido, lógica a citação do ator Zé Carlos Machado ao autor Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha.

A dramaturgia do autor foca na exposição de movimentos e regimes opressores, e na necessidade e urgência da análise das possíveis formas de resistência a esses. Através de personagens como ditadores, revolucionários, o autor analisa temas tocantes à atualidade, uma vez que esta se mostra cíclica.

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A história é constantemente revisada, a partir de elementos do passado, já diria, não necessariamente desta forma, o estudioso Peter Gray, por isso a memória é a chave para o pensamento e organização de um coletivo.

No que diz respeito a nossa Margot, o paradoxo culmina justamente no texto que ela tanto luta para memorizar, quando percebe que na verdade, se trata o mesmo de uma transposição do que por muitos anos ela procurou suprimir de sua memória, um trauma insuperável.

E a questão reside justamente neste aspecto: o enfrentamento, a memória como resistência. Os traumas e vivências constituem nossa formação e dentro disso, para que possamos nos tornar conscientes acerca do que somos e do que almejamos ser – como indivíduos e como coletivo – é preciso lembrar. E resistir.