Por Thammy Luciano

As trajetórias da atacante Kerolin e da zagueira Lauren até a Copa do Mundo 2023 foram cheias de desafios individuais, mas há algo que une suas carreiras: A origem no futebol amador. Os gramados das várzeas, que testemunharam os primeiros passos das jovens promessas do futebol feminino brasileiro, são espaços de incentivo para as novas gerações. É ali que o futebol amador desperta em meninas o sonho de serem jogadoras profissionais.

Praticado por atletas não profissionais, o futebol de várzea surge através da paixão pelo esporte. Tradicionalmente, situados em bairros, os times amadores disputam campeonatos e movem torcedores fiéis. Entre as quatro linhas dos “campinhos”, como são carinhosamente chamados os gramados onde acontecem as partidas, muitos meninos e meninas têm o primeiro contato com o futebol e começam uma jornada para tornar o esporte uma profissão.

Aos 10 anos, Lauren Leal descobriu o amor pelo futebol. No Parque Jataí, em Votorantim, cidade do interior de São Paulo, a zagueira participava de um projeto que promovia a prática esportiva para meninos e meninas. As aulas de futebol aconteciam duas vezes na semana, em um campo onde o mato era alto e não havia uma boa estrutura. Apesar das dificuldades, foi ali que Lauren começou a sonhar. Em entrevista recente ao GE, a zagueira da seleção brasileira relembrou seus primeiros passos no gramado do bairro. “É um campo que representa muito da minha história.”, disse.

 

Lauren, zagueira da seleção brasileira, no primeiro campo que jogou futebol. Foto: Bárbara Bruno/GE

Em 2014, Leal começou a treinar pelo Centro Olímpico, time feminino da Zona Sul da cidade de São Paulo. Seu pai, Erymar Alexandre, fazia o caminho de Votorantim à capital paulista de moto, levando Lauren para os treinos, todos os dias. Assim foi até a garota ingressar nas categorias de base do São Paulo, clube no qual chegou ao profissional e ficou até 2021.

Após a promissora passagem pelos times paulistas, a zagueira seguiu para o Madrid CFF, da Espanha, onde passou três temporadas. Hoje, aos 20 anos, além de defender a seleção brasileira, Lauren foi anunciada pelo Kansas City Current, equipe dos Estados Unidos.

Na cidade de Campinas, Kerolin Nicoli também iniciou sua trajetória no futebol nos campinhos de várzea. A garota jogava bola com os meninos nas ruas do bairro onde morava e foi descoberta pelo Lamparina, técnico time feminino do projeto social do bairro São José. Aos 14 anos, Kerolin jogava com meninas mais velhas que ela e já se destacava em campo.

Em vídeo gravado para as meninas do São José, que chegaram a final da Taça das Favelas 2023, Kerolin declarou a torcida pelo time e frisou a importância do projeto amador para sua carreira “Vocês estão representando muito bem esse time que está no meu coração e que me apresentou para o futebol e ajudou no meu sonho de vestir a amarelinha.”, declarou a atacante da seleção.

Kerolin, atacante da seleção brasileira, iniciou sua carreira no futebol amador. Foto: Sam Robles/The Player’s Tribune

Ao sair da várzea, em 2016, a atacante começou a jogar no Guarani, iniciando sua carreira profissional. No ano seguinte, aos 18 anos, assinou contrato com o Corinthians, onde foi campeã da Libertadores. Em 2018, Kerolin voltou a Campinas para jogar no time rival do seu primeiro clube, a Ponte Preta, onde foi artilheira do time e revelação do Campeonato Brasileiro daquele ano.

Após cumprir uma suspensão de dois anos longe dos gramados, por ter sido identificada uma substância para a melhoria do rendimento em seu exame antidoping, em 2021, Kerolin foi convocada para defender a seleção brasileira e passou a jogar pelo Madrid CFF. Em 2022, depois de uma brilhante passagem pela Espanha, onde foi eleita a melhor jogadora da La Liga, a promessa brasileira fechou contrato com seu atual clube, o North Carolina, dos Estados Unidos.

Incentivo

Os campeonatos amadores com categorias femininas incentivam a presença das mulheres nos gramados. O maior Festival Feminino de Várzea do Mundo, que foi assunto recente aqui no Ninja Esporte Clube, e a Taça das Favelas, campeonato promovido pela Central Única das Favelas, são algumas dessas competições.

Assim como Kerolin e Lauren, no futebol amador, diversas meninas dão o primeiro passo para construir uma carreira. As equipes de várzea conquistam espaços, fazem história e possibilitam a expansão da presença das mulheres em um esporte que, por muito tempo, foi dominado por homens.

As meninas do E.C. União São José, primeiro time de Kerolin, são exemplos e referências da presença feminina na várzea campineira. A equipe, que surgiu em 1988, já conquistou sete vezes a Liga Campineira, foi campeã da Taça das Favelas 2019, levou o Campeonato Municipal de 2022, é a atual campeã da Copa Campinas e chegou à final da Taça das Favelas 2023, onde foi vice-campeã.

E.C. União São José na final da Taça das Favelas 2023. Foto: Claiton Maier/ GE Campinas

Saber que um dos principais nomes da seleção brasileira jogou no time amador, chegou ao profissional e, hoje, conquistou seu espaço nas ligas internacionais, inspira as garotas da periferia de Campinas. Em entrevista ao GE Campinas, antes da final da Taça das Favelas, Biriu, atual capitã do São José, comentou o apoio da atacante ao seu time de origem. “É um motivo de orgulho, nos trouxe mais motivação ainda.”, declarou.

Na grama ou no terrão, os sonhos são cultivados e as novas gerações de meninas aprendem a amar o futebol. Praticado por mulheres que dividem a vida entre o trabalho, estudos, família e esporte, o futebol amador resiste e revela novos talentos. É necessário olhar para a várzea, reconhecer a força daquelas que um dia sonharam com o futebol profissional e valorizar as jovens que ainda sonham. O futuro do futebol feminino brasileiro está nas bases, mas também nos campinhos.

Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube