Uma reunião da diretoria-executiva revisou as normas de avaliação após a denúncia da cientista social Maria Carlotto, que recebeu um parecer preconceituoso e teve a bolsa negada pelo fato de ser mãe

Foto: Herivelto Batista / ASCOM-MCTIC via Flickr

Por Miranda Perozini

A diretoria-executiva do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) publicou uma nota neste sábado (6) com mudanças nas normas de avaliação de projetos submetidos a bolsas em editais de pesquisa. Agora, as pesquisadoras que são mães têm extensão de dois anos no prazo para a avaliação de sua produtividade científica.

De acordo com a nota, está “obrigatória a inclusão do critério de que o período de avaliação da produtividade científica da(o)s proponentes seja estendido por dois, para cada parto ou adoção que ocorrer dentro do prazo estipulado na chamada”.

Ainda segundo o CNPq, um grupo de trabalho para elaboração de um código de ética deve ser criado em até dois meses para membros dos Comitês Assessores (CAs) e pareceristas ad hoc (responsáveis por analisar as propostas submetidas).

A decisão é resultado de um debate sobre a igualdade de gênero na ciência, desencadeado após uma denúncia feita pela cientista social Maria Carlotto. A docente da Universidade Federal do ABC (UFABC) divulgou em sua conta pessoal no X (antigo Twitter), que um parecer emitido pelo CNPq usava suas gestações como justificativa para negar uma bolsa de pesquisa.

Relembre o caso

Maria Carlotto, docente da Universidade Federal do ABC (UFABC), denunciou o caso de preconceito nas redes sociais. Segundo a cientista, no resultado preliminar do pedido de bolsa de produtividade em pesquisa, o parecer reconhece a sua carreira, mas diz que ela não fez pós-doutorado no exterior, apontando que “provavelmente suas gestações atrapalharam essas iniciativas”.

Após a repercussão, o CNPq divulgou uma nota em que declara o juízo feito no parecer “inadequado, tanto porque um estágio no exterior não é requisito para a concorrência em tal edital, quanto por expressar juízo preconceituoso com as circunstâncias associadas à gestação”, destacando ainda que a atitude do parecerista “não é compatível com os princípios que regem as políticas desta agência de fomento”.

Na mesma nota, o conselho também informou que vai instruir seus pareceristas “para maior atenção na emissão de seus pareceres” e que vai levar o caso concreto para “exame das providências cabíveis”.

Em trecho de entrevista publicada pelo Jornal Metrópoles, a cientista destacou que a violência sofrida por ela se estende a todas as mulheres: “mesmo que eu use o meu direito ao recurso, isso não apaga a violência cometida. E, de novo, não é sobre mim e sobre este caso, que não deve ser isolado, mas sobre como vamos construir editais realmente abertos a mulheres, especialmente aberto a mulheres mães”, disse.

Com informações do Jornal Metrópoles