Foto: sergiorojoes/Freepick

Por Nicole Grell Macias Dalmiglio*

Em um cenário marcado pela crescente urgência em lidar com as mudanças climáticas, a Conferência das Partes (COP 28) em curso nos Emirados Árabes Unidos revela um embate crucial entre os esforços para preservar o meio ambiente e os interesses de setores notórios por sua intensiva emissão de carbono. Enquanto a atenção global frequentemente se volta para as empresas de petróleo e gás, um contingente significativo da indústria agropecuária também está presente, determinado a resistir à pressão para transformar suas práticas.

Em reportagem publicada no dia 1 de dezembro de 2023, o The Guardian ressalta que empresas emblemáticas do agronegócio, como a JBS, considerada a maior empresa de carne do mundo, estão entre as protagonistas que, juntamente com aliados como a Plataforma Global de Laticínios, chegam à COP 28 com a intenção clara de defender a pecuária com “força total”. Desse modo, enquanto as empresas de combustíveis fósseis têm sido alvo de questionamentos sobre a sinceridade de seus compromissos com a transição verde, a COP 28 destaca que as indústrias com alta intensidade de carbono não se limitam ao setor petrolífero. A presença destacada de empresas agrícolas no evento indica uma oportunidade percebida por esses setores para promover suas atividades em vez de encará-las como uma ameaça.

No entanto, um novo capítulo é acrescentado à narrativa com o anúncio de cinquenta das maiores empresas petrolíferas do mundo, incluindo a Petrobras, ExxonMobil e Aramco, aderindo a um pacto ambicioso para a redução de emissões. Essas gigantes representam 40% da produção mundial, com mais da metade sendo estatais. A Carta de Descarbonização do Petróleo e do Gás, celebrada como “um grande primeiro passo” pelo presidente da COP 28, Sultan Al Jaber, prevê operações neutras em carbono até 2050, eliminando a queima de gás até 2030 e reduzindo as emissões de metano para quase zero.

Este pacto, porém, não escapou às críticas de organizações ambientalistas, que lamentaram a ausência de um compromisso claro com a eliminação do uso de combustíveis fósseis em algum momento. Essa lacuna na carta ressalta as tensões entre as promessas ambientais e a ação efetiva, trazendo à tona a necessidade urgente de medidas mais concretas para enfrentar a crise climática.

No Dia do Agro, agendado para 10 de dezembro, a CNA terá um papel crucial no cenário, apresentando suas propostas para a sustentabilidade agrícola. Enquanto o agronegócio busca solidificar seu papel como peça-chave na segurança alimentar e energética global, as petrolíferas procuram transformar suas operações em direção a práticas mais ecológicas. A COP 28, assim, torna-se um palco crítico para avaliar se as intenções declaradas se traduzirão em ações concretas, ou se a retórica ambiental continuará a enfrentar críticas fundamentadas.

Matéria do The Guardian disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2023/dec/01/the-guardian-view-on-cop28-energy-companies-are-not-the-only-ones-with-a-carbon-addiction

*Nicole Grell Macias Dalmiglio é pesquisadora do Center for Artificial Intelligence (C4AI-USP). Mestre em Gestão de Políticas Públicas pela USP (2023). Bacharel em Relações Internacionais pela UNISANTOS (2020).