Cartilha ensina as crianças sobre a importância do uso do fogo e também sobre o perigo

Celiana é brigadista em tempo integral, embora o contrato seja só de seis meses (Arquivo pessoal)

Os brigadistas são tão comprometidos com sua missão, que suas ações não se restringem ao combate direto do fogo, durante um período. Eles desempenham uma função social que vai muito além dos seis meses para os quais são contratados. Além de promover o reflorestamento de áreas degradadas por incêndios, também desenvolvem trabalho de conscientização da comunidade onde estão inseridos.

É o que acontece na brigada Krikati, que protege a porção da TI que fica em Montes Altos (MA). A brigadista e chefe de esquadrão da Aldeia São José, Celiana Krikati, de 23 anos, sabe bem da importância do trabalho contínuo.

“A gente teve a ideia de elaborar uma cartilha na nossa língua”, se orgulha.

Com o material em mãos, segue para palestrar nas escolas, mas está a postos em qualquer tempo. Se vê um grupo de crianças reunidas, já chama logo para uma roda de conversa, que vira parte da brincadeira. Melhor maneira de aprender.

Objetivo da atividade é fazer com que as crianças multipliquem o aprendizado para suas famílias (Arquivo Brigada Krikati)

“Mas a gente também vai às escolas. No conteúdo, falamos sobre a importância e perigos do manuseio incorreto do fogo. A gente acaba ensinando um pouco das nossas tradições, porque o uso do fogo é uma atividade ancestral. Que ele é bom e necessário, mas se utilizado de maneira errada, pode destruir vidas. Humanas, dos animais e ainda, destruir as florestas que são tão importantes para as nossas vidas”.

É aí que práticas de prevenção, como os aceiros, são introduzidas no repertório das crianças. “Assim, se tornam multiplicadoras, levam esses conhecimentos para suas famílias”. Celiana reforça que a maior parte do fogo que destrói vem de fora das aldeias.

“Infelizmente, até de dentro. Mas porque dentro da TI há uma área tomada por invasores que ateiam fogo para fazer pastagem e criar gado. A gente costuma nem ir para esse lado. E eles seguem lá, sem que nada aconteça. Por isso, nos mobilizamos”.

Ela relembra que no primeiro ano, atuou voluntariamente. Mas logo, o contrato veio. Ela, que ao longo dos últimos anos atuou como chefe da brigada majoritariamente masculina – é a única mulher – este ano tornou-se chefe de esquadrão. “O chefe de esquadrão é quem faz a comunicação entre a base e o local de combate. Nessa função, também fico responsável pela proteção dos brigadistas”.

Com perfil de liderança, ela também está à frente da Associação de Mulheres da Aldeia São Jose, fundada há três anos.

“Estamos nos articulando para garantir sustentabilidade. Em nossas articulações já consideramos também formar uma brigada feminina, mas nos faltam recursos para os equipamentos e roupas. Mesmo na brigada mista, os equipamentos são levados depois que finda o tempo do contrato”, explica.

“Então, voluntárias já temos. Até chegamos a combinar com a brigada de mulheres Xerente, do Tocantins, mas daí veio a pandemia e ainda não conseguimos concretizar. Mas com as conquistas na associação, com a venda de produtos, por exemplo, esperamos realizar o sonho de ter nossa brigada feminina”.

Ela avalia que é importante que as mulheres se organizem, pois são elas as mais prejudicadas pelos incêndios. “Perdemos matéria-prima que poderia ser utilizada tanto para a alimentação, quanto como fonte de renda”.