Além dos impactos na saúde pública, a pavimentação da BR-319 pode abrir novas fronteiras para a exploração de recursos naturais, como petróleo e gás fóssil

Foto: Orlando K. Junior / Fundação Amazonas Sustentável

O projeto de asfaltamento do trecho central da BR-319, estrada que conecta Manaus (AM) a Porto Velho, desperta preocupações crescentes entre cientistas e ambientalistas devido aos riscos de desencadear pandemias e agravar a crise ambiental na Amazônia. Mesmo antes de receber qualquer camada de asfalto, a perspectiva da pavimentação já desencadeou um aumento preocupante no desmatamento e nas queimadas ao longo de suas proximidades, estendendo-se até mesmo por estradas estaduais conectadas a ela.

Uma análise recente publicada na revista científica Nature por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA), publicada pela Amazônia Real, destaca que o asfaltamento desse trecho crítico pode não apenas acelerar a perda de biodiversidade na região, mas também abrir caminho para o surgimento de doenças infecciosas transmitidas de animais para humanos, conhecidas como zoonoses, semelhante ao que ocorreu com a Covid-19.

“Este bloco da floresta é o maior reservatório de patógenos do nosso planeta, tais como vírus, fungos, bactérias e príons. O asfaltamento aumentará tanto o desmatamento como a mobilidade humana na região. Estes fatores tendem a propiciar saltos zoonóticos que podem resultar em uma sequência de pandemias e no fortalecimento da disparidade na saúde pública”, alerta Lucas Ferrante, pesquisador da UFAM.

A preocupação ganha contornos ainda mais críticos diante do crescente apoio político ao projeto de asfaltamento por parte de autoridades locais, congressistas e setores do governo federal.

Apesar do adiamento da inclusão da obra no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a realização de mais estudos sobre seus impactos socioambientais, o grupo de trabalho formado para essa finalidade inclui apenas representantes do Ministério dos Transportes (MT) e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), excluindo órgãos como o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), além do Ministério da Saúde.

Segundo Philip Martin Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), os riscos associados ao asfaltamento da BR-319 são alarmantes e podem ter consequências de longo prazo que vão além de qualquer mandato político. “O Estado brasileiro não tem e não terá capacidade de conter os impactos num horizonte de tempo que vai muito além de qualquer mandato político”, alerta Fearnside.

Além dos impactos na saúde pública, a pavimentação da BR-319 pode abrir novas fronteiras para a exploração de recursos naturais, como petróleo e gás fóssil, intensificando ainda mais a pressão sobre a Amazônia e suas comunidades tradicionais.

*Com informações da Amazônia Real e Clima Info