Produções apresentam narrativas românticas afrocentradas e podem ser encontradas no streaming

“Malcolm & Marie”, de Sam Levinson, com John David Washington e Zendaya. Foto: Divulgação

Por Carolina Martins

Nesta segunda-feira (12) é Dia dos Namorados, e mesmo quem não está apaixonado pode encontrar um bom motivo para celebrar o amor com o cinema! Uma boa pedida afrocentrada é se deixar envolver por filmes que trazem casais negros como protagonistas.

Felizmente, histórias de amor e afeto estão cada vez mais comuns no enredo de personagens negros e negras no audiovisual. Para este 12 de junho, confira uma lista com cinco filmes contemporâneos que abordam as nuances do amor romântico entre pessoas negras.

“Afronte” (2017)

Um curta-metragem muito sensível sobre as relações entre homens negros gays. Misturando ficção e documentário, o filme traz a perspectiva afetiva da afrocentricidade a partir da experiência de integrantes do Afrobixas, um coletivo de Brasília criado como espaço de acolhimento e celebração das identidades.

“Afronte” nasceu de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Audiovisual da Universidade de Brasília (UFBA) e foi produzido com financiamento coletivo. São 15 minutos na rotina de VH (Victor Hugo Leite), um ator e estudante negro, gay e morador do Gama – uma das Regiões Administrativas do Distrito Federal, cidades geograficamente distantes do centro de Brasília.

O curta revela parte das vivências desses homens, destacando, inclusive, a questão do território como um importante marcador de experiências, além da raça, do gênero e da orientação sexual. Muitas vezes, somente no afeto é possível descansar.

“Afronte” é assinado por Bruno Victor e Marcus Azevedo e tem na bagagem o Prêmio Saruê do 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e o de Melhor Curta do 25° Festival Mix Brasil.

Disponível no Todes Play.

“Certas Pessoas” (2023)

Uma comédia irônica sobre as complexidades que atravessam o relacionamento interracial entre Amira (Lauren London), uma mulher negra de família mulçamana, e Ezra (Jonah Hill), um homem branco, judeu, imerso na cultura hip-hop estadunidense.

A direção e o roteiro são de Kenya Barris, que tem um estilo muito próprio e já conhecido pelas séries “Black-ish” e “BlackAF”, além de outras comédias famosas como “Viagem das Garotas”.

O tom ácido nas críticas sociais – que vira humor para quem entende e sente na pele o que ele está falando – está presente. Algumas cenas são (desnecessariamente) escrachadas demais, um traço do estilo de Jonah Hill, que assina o roteiro além de interpretar o protagonista. A típica viagem para Las Vegas, com todos os clichês que ela carrega, está lá para não me deixar mentir.

O elenco conta ainda com grandes nomes do humor norte-americano, como Eddie Murphy, no papel de Akbar – o pai que não admite a chegada de um branco na família negra; e Julia Louis-Dreyfus, como Shelley – a mãe judia que fica empolgada com um casamento interracial e sofre de verborragia racista disfarçada de “interesse pela cultura”.

“Certas Pessoas” garante alguns momentos de boas risadas, especialmente pela atuação de Eddie Murphy. Mas, as cenas realmente boas cabem no trailer.

O final do filme passa um ar de “pedido de desculpa” pela crítica social feita durante a trama, e a comédia romântica em si deixa a desejar. De toda maneira, é uma boa forma de relaxar prestigiando uma produção afrorreferenciada.

Disponível na Netflix.

“Malcom & Marie” (2021)

Um longa-metragem de 106 minutos, todo em preto e branco, com apenas dois personagens – o casal Malcom (John David Washington) e Marie (Zendaya). Pode parecer monótono, mas o enredo é bastante instigante.

O casal tem uma profunda e complexa discussão de relacionamento (a famosa DR) numa noite que, em tese, deveria ser de celebração: a estreia, em grande estilo, de Malcom como diretor de cinema. Sim, é uma metalinguagem. Aliás, a discussão sobre cinema fica mais evidente do que o drama que atravessa o relacionamento dos dois.

O roteiro é de Sam Levinson (“Euphoria”). Um homem branco escrevendo sobre e para um casal de negros. É possível perceber durante quase todo o tempo um grande ato de desagravo, os argumentos dele para legitimá-lo nesse lugar. Permeado também pelas críticas que ele certamente já ouviu por ocupar esse lugar.

No filme, o grande drama de Malcom é com a crítica “branca” que, na opinião dele, sempre encontra uma forma de politizar filmes assinados por pessoas negras. E a pergunta fica para reflexão da audiência: é possível desassociar a questão racial de filmes assinados por negros?

Minha opinião? Não, não dá. Seja sobre amor, arte, guerra ou comédia, um filme escrito por pessoas negras é um instrumento político. Até porque, esse “detalhe” racial está no cerne da construção da nossa subjetividade, não tem como desvincular.

Essa discussão é muito bem feita no filme, enquanto os personagens também debatem as próprias vivências e as situações que os levaram até aquele momento de crise como casal.

“Malcom & Marie” foi gravado no meio da pandemia. A filmagem e toda a produção do longa envolveram 22 profissionais, e os atores são também cofinanciadores do filme. Aliás, a interpretação da dupla merece um aparte – são vários monólogos intensos e momentos de silêncio simbólicos que não funcionariam se fossem mal desenvolvidos.

Disponível na Netflix.

“Really Love” (2020)

Uma produção estadunidense, filmada em Washington DC, em que a diretora Angel Kristi Williams nos leva a percorrer uma capital cheia de referências da cultura negra. Aliás, esse passeio é justamente o que prende a atenção nos primeiros minutos, especialmente para quem gosta de conhecer centros urbanos pela perspectiva artística.

Galerias de arte são o ambiente de uma história de amor preto entre Stevie (Yootha Wong-Loi-Sing), uma estudante rica de Direito, e Isaiah (Kofi Siriboe), um pintor que ainda mora com os pais e está às voltas pra ter o valor de sua arte reconhecido.

O enredo aborda uma questão comum no contexto estadunidense entre relações afrocentradas – a diferença social. A história é boa, mas não foi isso que me ganhou. Foi a estética.

Você percebe como cada cena foi minuciosamente cuidada. O enquadramento; a linguagem corporal dos personagens – que se sobressai, mas sem perder a conexão com os diálogos; a profundidade de frases simples; e a representatividade da negritude em cada detalhe.

Um filme muito bonito, com sequências de ambientação pela cidade, planos abertos por galerias de arte, cafés, parques… Uma trilha sonora de jazz e R&B que torna tudo mais envolvente… E personagens bem reais.

A química do casal protagonista ajuda a narrativa – que deixa um pouco a desejar. Para quem não se prende ou não se abala com os detalhes estéticos, o filme pode ser um pouco “plano”, no sentido de poucos pontos de tensão. Mas é curtinho – 90 minutos.

Disponível na Netflix.

“Rafiki” (2018)

O filme é sobre o relacionamento entre duas adolescentes que moram num bairro do subúrbio de Nairóbi (Quênia) e se apaixonam. A abordagem é feita de uma maneira muito cuidadosa e com foco nos sentimentos. O roteiro foi inspirado em um conto literário ugandês e narra a história de Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva).

Além de ser proibida por lei (a relação homoafetiva é considerada crime no Quênia) e perseguida pelas igrejas, a relação delas ainda enfrenta uma rivalidade familiar: são filhas de dois políticos adversários locais.

Têm mais informações e curiosidades muito legais sobre esse filme no Cine Indica “Dia da África”.

Disponível no Telecine ou para alugar no Youtube.

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