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Por Rebecca Lorenzetti para Mídia Ninja

Em Dubai, na COP 28, a discussão sobre agricultura e alimentação emerge como um pilar fundamental na busca por um futuro sustentável. Reconhecendo a interconexão entre mudanças climáticas, agricultura e segurança alimentar, é imperativo abordar os desafios que a produção de alimentos enfrenta em meio ao cenário climático em evolução.

Agricultores ao redor do mundo estão enfrentando impactos significativos de eventos climáticos extremos, alterações nos padrões de chuva e aumento da temperatura, ameaçando a estabilidade das safras e a segurança alimentar global. Nesse contexto, a COP 28 se torna um palco crucial para discutir e implementar estratégias que garantam uma agricultura resiliente e sustentável.

A necessidade de transição para práticas agrícolas mais sustentáveis, com foco na agroecologia e métodos de cultivo regenerativos, deve ser enfatizada. Essas abordagens não apenas contribuem para a resiliência climática, mas também preservam a biodiversidade e promovem solos saudáveis, essenciais para a produção de alimentos a longo prazo. Além disso, é vital abordar a pegada ambiental da produção de alimentos, promovendo sistemas alimentares mais eficientes e com baixas emissões de carbono. A redução do desperdício de alimentos, o estímulo à produção local e a promoção de dietas mais sustentáveis são medidas-chave para atingir metas ambientais e nutricionais.

A inclusão de agricultores familiares e comunidades locais nas decisões e políticas relacionadas à agricultura é crucial. Valorizar práticas tradicionais de cultivo e promover sistemas alimentares que respeitem as diversidades culturais e regionais são passos importantes para alcançar a equidade e a sustentabilidade.

Fabrício Muriana, representando o Instituto Regenera (Brasil) na COP 28 como observador da Aliança Global pelo Futuro da Comida, destaca a persistente discussão sobre a inclusão do termo “sistemas alimentares” nas negociações. A atenção histórica voltada para o uso da terra e a agricultura não aborda integralmente o processo de como os alimentos chegam às cidades e são acessados. Infelizmente, as tentativas de inserir esse termo em discussões cruciais, como o Global Stocktake, encontram resistência, e não se identifica claramente quem são os países que objetam essa inclusão. A falta de consenso evidencia um impasse, deixando dúvidas sobre a possibilidade de alcançar acordos significativos na COP 28.

Muriana destaca a importância de dar voz à sociedade civil, especialmente diante do contexto brasileiro, onde 75% das emissões estão ligadas à pecuária e ao desmatamento para a produção de gado. Ele aponta para a relutância do Brasil em abordar essa questão, destacando a presença marcante da indústria brasileira na COP, cuja produção de carne contribui significativamente para as emissões.

Ruth Davis, conselheira da Fundação Europeia do Clima e do Reino Unido, expressa as dificuldades em inserir a pauta da alimentação nas mesas de negociação da COP 28. Ela ressalta que os sistemas alimentares representam um terço das emissões globais, sublinhando dois desafios cruciais: encontrar soluções eficazes para os agricultores que simultaneamente reduzam as emissões, e garantir que os países ricos assumam a responsabilidade de reduzir as emissões em primeiro lugar.

Davis elogia o papel do Brasil na demonstração de como a agricultura familiar pode ser uma peça-chave para enfrentar a emergência climática, destacando a necessidade de um caminho conjunto em direção à mudança. As discussões continuam, mas a urgência e a complexidade da pauta alimentar na COP 28 permanecem evidentes.