Médici ao lado de jogadores e da taça Jules Rimet (Reprodução)

Por Patrick Simão, do Além da Arena

No dia 31 de março de 1964 foi instaurada a Ditadura Militar no Brasil. Este horrível momento da nossa história, que causou mortes, torturas e prisão de seus opositores, também provocou alterações no futebol brasileiro, com o governo se apropriando das conquistas do país, ampliando uma falsa narrativa nacionalista.

Quando o golpe ocorreu o Brasil era considerado o país do futebol. Portanto, o futebol era o principal elemento popular para os militares se apropriarem, em busca de forjar uma imagem falsa de alinhamento com a cultura nacional e sua população. As intervenções dos ditadores aconteceram em dois sentidos: a propaganda nacionalista utilizando-se do futebol e as mudanças nas estruturas políticas, que tem consequências em nossa democracia até hoje.

O tricampeonato da Seleção em 1970 foi um instrumento essencial para o crescimento desse discurso nacionalista, algo que se pode observar com músicas como “Pra Frente, Brasil, Salve a Seleção!” Junto à conquista houve a falsa narrativa do “milagre econômico”, que ganhou força com a expressiva conquista esportiva que o país conseguiu.

Além disso, os militares interviram na Seleção, demitindo meses antes do Mundial o técnico João Saldanha, que teve 100% de aproveitamento nas eliminatórias. A longo prazo, as interferência dos ditadores trouxeram prejuízo também ao futebol brasileiro.

Com o sucesso da Copa de 70 e a busca por controlar o futebol nacional, houve uma mudança na estrutura dos torneios nacionais. Não foi coincidência o Campeonato Brasileiro ser criado em 1971, sucedendo a Taça Roberto Gomes Pedrosa. A ideia foi abranger cada vez mais clubes, chegando a 94 em 1979. Constantemente haviam mudanças de regulamento, sem regularidades e com poucos critérios. Isso se devia à necessidade de um alinhamento político entre clubes, CBD (que futuramente se tornou CBF) e governo.

Com os maiores gastos públicos no futebol brasileiro, os clubes se tornaram dependentes financeiramente das instituições, um sintoma que se manteve por décadas e que tem suas consequências em muitos clubes até hoje. Dentro de campo, os problemas com gestão se alinharam à falta de modernização tática. O futebol brasileiro se apegou a áurea nacionalista de ser o “país do futebol”, não buscando importar conhecimentos e não tendo um bom desempenho nas duas Copas seguintes.

Apesar de uma das estratégias do regime militar ser a alienação e coerção de atletas para estes não se posicionarem politicamente contra os militares, houve importantes manifestações contra a Ditadura no futebol brasileiro. A Democracia Corinthiana, que tinha como grandes símbolos Sócrates, Casagrande e Wladimir, simbolizou o processo de redemocratização e as lutas por Diretas Já. Enquanto isso, Reinaldo, ídolo atleticano, sempre se posicionou contra a Ditadura, o que influenciou em seus cortes nas Copas de 1978 e 1982, mesmo sendo o grande centroavante do país naquele período. O atacante também afirmou que sofreu muitos ataques por seus posicionamentos.

Foto: Corinthians / Divulgação

Foto: Atlético / Divulgação

Contrastando com as resistências do nosso futebol, também tiveram os aliados dos militares. Para começar, Médici, que instituiu o AI-5, período de maior repressão do regime, tirou foto com a taça e jogadores do tricampeonato. Também houve contribuição de agentes importantes do futebol brasileiro, sendo o mais conhecido é João Havelange, presidente da CBD em 70 e da FIFA em 74.

Mas também tivemos graves, porém pouco divulgadas, relações entre referências do futebol brasileiro e os militares. Gylmar, goleiro titular dos bicampeonatos mundiais de 58 e 62, foi despachante do DOI-CODI (Destaques de Operações de Informação) e constantemente andava pelos corredores onde estavam os presos políticos e torturados. Paulo Roberto Falcão, que se destacou em campo nos anos 70 e 80, mantinha amizade com Pedro Seelig, um dos maiores torturadores da Ditadura, desde 1972.

Além disso, o fato de Médici posar com jogadores do tricampeonato e com a taça Jules Rimet (referente à Copa de 70) contribuíram para a busca de Médici por apelo popular e pela manutenção de seu discurso nacionalista.

Médici ao lado de jogadores e da taça Jules Rimet (Reprodução)

A Ditadura Militar no Brasil provocou milhares de mortes políticas, com torturas cruéis, além de prisões e exílios políticos de quem se opunha ao regime. No começo dos anos 80, as manifestações por Diretas Já contribuíram para a queda de popularidade do governo. Essa linha temporal mostra como o contexto político de um país influencia também nos acontecimentos esportivos, pois o esporte nunca se dissociou da realidade, e nunca se dissociará.

A Ditadura Militar no Brasil durou de 1964 a 1985. Para precaver a repetição deste ciclo é fundamental que este período seja sempre lembrado e analisado, assim como é importante resgatar os movimentos por democracia e contrários ao sistema político vigente. Esporte e política sempre estão e estiveram ligados. E nunca podemos esquecer, pois isso nunca pode se repetir: DITADURA NUNCA MAIS!