Nos últimos tempos, desde o início do novo governo, temos acompanhando os diversos movimentos de incitação do Capital: o presidente Lula defende investimento no social, a bolsa cai e o dólar sobe; o presidente critica a taxa de juros, o mercado reclama e o Comitê de Política Monetária – Copom – mantém a taxa de juros em 13,75%, a mais alta do mundo, com desculpa que é para conter a inflação. E a partir disso começam debates sem fim, por meio dos veículos de comunicação, com especialistas e economistas de todas as vertentes tratando do mesmo tema, a taxa básica de juros.

Acompanho tudo, mesmo não sendo economista ou especuladora do mercado, que afinal é quem ganha com as taxas de juros nas alturas, e com isso vou formulando ideias, projetos e passos futuros. No meio disso tudo, é indiscutível que não é mais possível debater sobre juros no Brasil nem nenhuma possibilidade de futuro sem o fazer com recorte de gênero, raça e classe, colocando as mulheres negras no centro do debate. Vivemos em um país em que a população é formada por 51,1% de mulheres e em que 48,7%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), dos lares são chefiados por mulheres, a grande maioria delas negras e mães solo.

As profundas desigualdades estruturadas no nosso país tornam imprescindível que, dentro desse recorte de gênero, o recorte de raça, uma vez que mulheres negras recebem salários 42% menores que as brancas, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, e ocupam os postos de trabalhos mais precarizados, logo são as mais impactadas em todas as crises assim como com as altas taxas de juros.

A política de juros altos adotada pelo Banco Central, comandado por Roberto Campos, impactam no endividamento das mulheres chefes de família, pois os empréstimos e financiamentos ficam mais caros e há famílias que recorrem ao sistema financeiro para comprar comida, que justifica que estudos apontarem que 73% das famílias se endividaram para comprar alimentos.

A alta da taxa de juros pode levar a uma desaceleração econômica e, consequentemente, ao aumento do desemprego. Como as mulheres negras já enfrentam altas taxas de desemprego, podem ser ainda mais afetadas por essa medida. As dificuldades se estendem àquelas que abriram seus próprios negócios, as empreendedoras, pois há maior seletividade dos bancos na hora de conceder empréstimos e isso pode dificultar ainda mais o acesso ao crédito de micro e pequenas empresas, que em sua maioria são geridas por mulheres negras.

No período em que estive deputada estadual, com a equipe da #MandataQuilombo Mônica Francisco, promovemos seminários com mulheres, em sua maioria negras, oriundas de diversas camadas sociais para que todas nós compreendêssemos e nos apropriássemos do Orçamento Público, para incluir políticas públicas para nossas vidas na peça orçamentária, que até então era incompreensível para a maioria. A partir dos debates, compreendemos que o projeto era nos manter distantes para que não cobrássemos. Não conseguiram e não nos deixarão mais de fora de nada.

No processo de construção de respostas viáveis para o Rio de Janeiro dentro do parlamento fluminense, num contexto de recordes de desemprego em todo o Brasil, o economista e professor da UFRJ Mauro Osório pontuou que desde 2015, início da crise política e social, o Rio de Janeiro perdeu 414.417 postos de trabalho de carteira assinada, as mais atingidas, como sempre, as mulheres negras e as juventudes periféricas e negras, obviamente.

Sofremos os mais diversos reveses, e nos erguemos, estudamos, especializamo-nos, somos capazes e assumimos com competência os mais diversos espaços. Somos nós que construímos e mantemos esse país, e não há como discutir nenhuma possibilidade de futuro em que não estejamos no centro das questões, principalmente a econômica.

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