Marina Monteiro fala sobre literatura queer, mercado editorial e escrita
A autora comenta sua trajetória, a literatura queer e as dificuldades de circulação de livros no Brasil
Por Kaio Phelipe
Marina Monteiro nasceu em Porto Alegre, em 1982, e atualmente transita entre Florianópolis e Rio de Janeiro. Autora de Comendo borboletas azuis (2010), Em nossa cidade amarelinha era sapata (2019), Contos de vista, pontos de queda (2021) e Açougueira (2024), recebeu diversos prêmios literários ao longo de sua carreira.
Com Em nossa cidade amarelinha era sapata, foi contemplada com o Prêmio AGES. Contos de vista, pontos de queda foi indicado ao Troféu Açorianos e venceu o Prêmio Minuano de Literatura. Já Açougueira recebeu o Prêmio Loba e o Troféu Alcides Maya, além de conquistar o segundo lugar no Prêmio Cruz e Sousa.
Na entrevista, Marina revisita esse percurso e reflete sobre os desafios de fazer literatura no Brasil, sobretudo no circuito independente, destacando a dificuldade de circulação das obras, a centralização do mercado editorial e a carência de políticas públicas consistentes.
A autora também apresenta seu próximo livro, Rebu, vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu, no qual reúne narrativas curtas que investigam linguagem e metalinguagem, com foco no protagonismo de mulheres queer.
É possível encontrar todos os seus livros aqui.

Quando começou a escrever?
É sempre difícil precisar quando comecei a escrever. Comecei a me expressar através da escrita ainda na infância. Mesmo antes de saber escrever, minhas brincadeiras já eram muito narradas. Eu era uma criança estranha, estranhíssima. Só me interessavam brincadeiras narradas.
Logo depois comecei a aprender a escrever. Estudei no Rio Grande do Sul até o terceiro ano, nos anos 1980, e havia algo que hoje consigo enxergar melhor: o ensino da escrita, da expressão através da escrita, era muito criativo. Na época, obviamente, eu não percebia isso, mas sentia um prazer imenso em fazer aquelas tarefas: recortar personagens de revistas, imaginar a vida daquelas figuras, criar histórias coletivas, continuar frases e narrativas iniciadas por um colega. Eu ficava muito fascinada. Foi também nesse momento que comecei a me interessar pela leitura.
Pensando de forma mais profissional, imaginando que poderia me tornar escritora, isso aconteceu por conta das leituras de Clarice Lispector e Fernando Pessoa. Foi quando percebi que escrever não é apenas contar uma história e entendi que havia um mistério em como eles narravam. Isso me instigou a querer exercitar a escrita.
Quando entrei para a faculdade de teatro, tive uma professora de dramaturgia chamada Eliane Lisboa. Foi com ela que aprendi que eu poderia realmente organizar a minha escrita e fazer disso um ofício. A partir daí fui tornando esse exercício mais constante e comecei a mirar nisso como uma produção.
Como foi seu primeiro contato com o mercado editorial?
Por muitos anos, deixei livros na gaveta — e alguns morreram na gaveta.
A primeira vez que publiquei algo foi em 2010, com um livro chamado Comendo borboletas azuis, lançado pela editora Multifoco, do Rio de Janeiro. Mas foi uma publicação acidental.
Eu tinha um blog desde muito nova, onde publicava textos sobre diversas coisas. Depois comecei a escrever de forma mais poética, já como exercício de ficção. Eu achava que publicar seria algo dificílimo. Na verdade, em 2009 e 2010, era mesmo muito difícil. A gente não sabia como chegar às editoras, eu não fazia a menor ideia. Não existiam as redes sociais como conhecemos hoje. A principal rede social era o Orkut.
Então a publicação aconteceu por acaso. Um colega do grupo de teatro, que era autor da Multifoco, comentou que a editora abriria um selo novo chamado Download, com a proposta de publicar blogs. Eu sempre fui meio cara de pau, então compilei quarenta e cinco textos e enviei para avaliação. Escolhi os mais ficcionais e poéticos, eles aceitaram e assim publiquei o livro.
Só que não fiz praticamente nada com ele. Dei de presente para alguns amigos, fiz dois lançamentos — um no Rio de Janeiro e outro em Florianópolis — e só leu o livro quem me conhecia. Eu não sabia como fazer com que ele circulasse.
Naquele momento, a minha ideia de literatura era que só escreviam intelectuais, pessoas do meio e herdeiros. Eu também não queria misturar as coisas: tinha acabado de chegar ao Rio para ser atriz e, na época, não era tão bem-visto ser multifuncional.
Passei nove anos me negando a publicar qualquer outra coisa. Os amigos cobravam que eu publicasse, e os livros foram se acumulando na gaveta. Livros impublicáveis, inclusive. Ainda bem que não mandei para nenhuma editora.
Quando voltei a lançar, com Em nossa cidade amarelinha era sapata, em 2019, pela editora Patuá, isso foi muito inspirado por alguns entendimentos pessoais. Foi o único livro que escrevi com uma rotina voltada especificamente para a publicação.
Lembro que fiz uma pesquisa de editoras e ficava de olho na Patuá, mas acreditava que dificilmente o livro seria aprovado. Por fim, o Eduardo Lacerda, editor da Patuá, respondeu depois de apenas onze dias dizendo que tinha gostado do livro. Porém, eu havia inscrito o manuscrito no Prêmio Sesc no mesmo período e não havia mais tempo de cancelar a inscrição. Quando o livro não foi selecionado, retomei o contato com o Eduardo e o livro foi lançado em outubro de 2019.

Quando foi seu primeiro contato com a literatura queer?
Meu primeiro contato com a literatura queer aconteceu quando eu estava escrevendo Em nossa cidade amarelinha era sapata. Eu precisava ler o que estava sendo escrito. De certa forma, foi um contato tardio.
Era uma literatura que não chegava até nós com facilidade. Eu também não me entendia como queer desde cedo. Tudo foi mais tardio para mim. Quer dizer, foi no meu tempo, mas talvez seja tardio para um padrão mais atual. Eu não tinha referências de literatura queer; consumia mais essas narrativas através do cinema, da televisão e da música.
Durante a escrita do livro, conheci o trabalho da Natália Borges Polesso e li Amora. Eu queria entender quem estava escrevendo algo parecido com o que eu estava me propondo.
Isso foi em 2017 ou 2018. Tive que ir atrás dessas histórias. Não era como hoje, em que as narrativas queer chegam com mais facilidade. Já faz quase dez anos e muita coisa mudou. Talvez seja apenas na minha bolha, mas tenho a impressão de que essas histórias hoje conseguem alcançar mais leitores.
Qual é a importância de receber um prêmio literário?
Sou muito crítica em relação ao meu trabalho. Me cobro muito, sou bastante obsessiva. Sempre acho que poderia ter ficado melhor, mas, depois que o livro está pronto, eu o aceito como ele é.
Tenho uma relação bastante ambígua com os prêmios. Às vezes é até uma luta interna. Não acho que os prêmios sejam um problema em si, mas acredito que o protagonismo que eles têm na nossa cena contemporânea nem sempre é saudável.
Se tivéssemos mais políticas públicas para o setor, que dessem oportunidade para novas vozes e também espaço para vozes já consagradas se expressarem com mais liberdade, talvez longe da pressão do mercado, os prêmios funcionariam apenas como ferramentas possíveis. Hoje eles acabam ocupando o papel de grandes vitrines.
Principalmente para novas vozes que desejam ser mais lidas — que é o que a gente mais busca.
Então fico nessa relação meio contraditória: desgosto de alguns aspectos, mas reconheço as oportunidades que surgem. Com certos prêmios não concordo com o valor da inscrição; tento fazer com que o próprio livro pague esse investimento e, daqui para frente, talvez nem participe de alguns. Também jamais fico esperando ganhar qualquer prêmio. Inscrevo os livros para tentar movimentá-los e ampliar seu alcance.
Já tive a experiência de um livro ser lido em um prêmio grande, não aparecer como finalista, mas receber uma indicação pública ou uma resenha de alguém do júri. Isso já aproximou novas pessoas leitoras.
Açougueira, por exemplo, perdeu a editora cinco meses depois de lançado. Cheguei a pensar em deixá-lo na gaveta, porque não tinha intenção de gerenciar o livro sozinha. Depois resolvi dar mais um ano de chance a ele, segui divulgando, tentando fazê-lo circular e o inscrevi em todos os prêmios possíveis, na tentativa de chamar atenção para o livro.
Os prêmios, de fato, movimentam e fazem diferença quando você consegue uma indicação ou vitória. O livro ganha fôlego, e foi o que aconteceu com Açougueira.
Qual é a maior dificuldade para fazer literatura no Brasil?
Acho que o cenário é um pouco mais facilitado no Sudeste — ainda mais em São Paulo —, mas no Brasil, de modo geral, existe algo em comum que gera um sentimento de frustração para quem faz literatura independente.
Talvez seja a dificuldade de chegar às pessoas leitoras e também de nos articularmos enquanto classe trabalhadora. Temos dificuldade de nos unir, de organizar ações coletivas, de furar bolhas.
Ao mesmo tempo, às vezes me pergunto se precisamos mesmo furar essas bolhas ou se o caminho não seria encontrar outras possibilidades. Tento sempre chamar amigas e amigos para pensar ações conjuntas, para experimentar outras formas de circulação.
A vida vai nos engolindo, e isso parece algo recorrente no campo cultural brasileiro. Dependendo da posição social que você ocupa, acaba ficando mais nas margens, participando menos das ações culturais — seja por questões econômicas, sociais ou geográficas.
A falta de políticas públicas também faz com que muitas pessoas escritoras tenham vários empregos ou precisem se dedicar a outra carreira para sobreviver. A literatura acaba ficando no tempo que sobra.
Às vezes também penso que essa crítica pode ser um pouco anacrônica, porque, de algum modo, estamos atravessando essas barreiras. Pessoas de outras regiões estão se destacando, reinventando o que é centro, e a literatura queer também tem encontrado novos caminhos.
Então às vezes me pego pensando se não estou apenas reclamando de algo que já está mudando.
Mesmo assim, acredito que nos organizarmos mais enquanto classe profissional e lutar por políticas públicas para o setor é um caminho importante.

O que você diria para alguém que quer começar a escrever?
É preciso de tempo. Sempre volto a essa camada do tempo.
Mas não é o tempo idealizado de se fechar em um quarto para escrever. É o tempo possível: o tempo do ônibus, escrever no celular, fazer anotações em um guardanapo e depois lapidar.
É preciso se permitir o tempo da escrita dentro das condições da própria vida. Não adianta esperar um tempo ideal — aquele tempo novelesco do escritor.
A literatura também exige um tempo próprio, que não é o tempo do capital, da produção desenfreada e instantânea.
Também não dá para fugir da leitura. É preciso ler os clássicos e os contemporâneos, entender o que foi feito e o que está sendo feito. Isso ajuda a compreender o que se quer — ou não — fazer.
Mas não basta ler livros. É preciso ler a vida: ouvir conversas na rua, prestar atenção nas pessoas, estar presente de corpo inteiro. A literatura não está apenas no papel.
A única preocupação inicial deve ser escrever. Depois, quando algo estiver mais estruturado, a pessoa decide se quer publicar ou não. Escritor não é apenas quem publica.
Se decidir publicar, aí sim vale pesquisar editoras e entender o mercado editorial. Vejo muita ansiedade em publicar, e isso às vezes atropela o texto.
Respeitar o processo de escrita é fundamental. É o momento mais precioso do fazer literário.
A inteligência artificial é uma ameaça para a literatura?
Para o mercado literário, acho que já começa a ser um pouco. Temos visto concursos sendo cancelados porque textos ou capas foram produzidos com inteligência artificial sem que os jurados percebessem.
Mas, para a literatura em si, sinceramente, não acredito.
Não acho que um robô vá fazer literatura. No máximo, ele pode recombinar textos já existentes, sem originalidade, sem trabalho de linguagem, sem estrutura emocional. Um robô não tem corpo.
O que escrevo está profundamente implicado no corpo.
Talvez a inteligência artificial produza um arremedo de literatura que convença algumas pessoas, mas acredito que isso não terá muita duração.
Assim como o e-book não acabou com o livro físico, não vejo a inteligência artificial como uma ameaça à literatura.
Qual é o seu próximo projeto?
Publicar Rebu, vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu.
É um livro com quatorze narrativas curtas. Tenho preferido chamar minhas histórias de narrativas curtas em vez de contos, porque a palavra conto às vezes me dá a sensação de clausura, como se existisse um conjunto fechado de regras.
Comecei a escrever Rebu de forma despretensiosa, depois de um colapso mental — ou, para evitar o termo inglês, uma estafa mental.
Queria voltar a sentir prazer com a escrita. Achei que esse prazer estava em retomar algo que experimentei em Em nossa cidade amarelinha era sapata. Mas a literatura é indomesticável: os textos acabam indo para onde querem.
Rebu é um livro muito centrado nas personagens. A força das narrativas está nelas.
Há também um diálogo entre infância e velhice — essas duas pontas do tempo.
É um livro LBT, com forte protagonismo feminino queer, e também um livro de investigação de linguagem, algo que sempre me interessa. Em vários momentos ele reflete sobre a própria linguagem e sobre o lugar do corpo na linguagem.
Há um texto chamado “Línguas”, por exemplo, que mostra uma conversa anárquica entre estudantes de pós-graduação que planejam uma intervenção em um simpósio.
Não é um livro sobre o sofrimento de ser queer, mas também não trata a felicidade como destino obrigatório. As personagens estão livres para agir como quiserem.
Rebu carrega essa ideia de rebuliço, de desordem. Em algum momento também percebi que o título poderia dialogar com o termo “rebuceteio”, muito específico da cultura sapatão. Essa camada acabou entrando no livro, criando conexões entre as forças que atravessam as narrativas.



