No sábado, scrollando meu feed no Instagram, me deparei com uma foto do Chico Buarque participando do ato do 19J nas ruas do Rio de Janeiro, em seu aniversário de 77 anos. A minha primeira reação foi sentir orgulho de ser fã e muita admiração, depois eu me senti envergonhada pela minha geração não estar nas ruas no lugar dele, no lugar de uma pessoa que já fez muito para dar voz a uma nação em um momento sombrio, em uma ditadura militar, um artista que teve todas as músicas censuradas ao lado de Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre tantos outros artistas, e que em pleno 2021 fazem live pedindo Fora Bolsonaro. 

Desde sempre tive contato com músicas antigas da MPB por influência dos meus pais, a realidade que me cercava talvez tivesse contribuído para esse gosto musical, sendo filha e neta de nordestinos, sempre gostei de uma boa “música-cabeça”, mesmo que eu não entendesse o que aquilo significasse quando criança. Depois de estudar, na aula de História (lecionada por um professor preto) analisei muitas músicas que foram mantras contra repressão causada pela Ditadura Militar. Passei a entender que os resquícios sociopolíticos do regime militar que permeia nossa sociedade atualmente é o genocídio do jovem negro, é a falsa democracia na periferia onde eu nasci, a falta de oportunidades para os meus colegas que vieram do mesmo lugar que eu, mas que por serem pretos, lgbts, trans tiveram bem mais dificuldades que eu.

Lembro claramente de me fascinar por aquelas letras durante a aula, não só as músicas mas o movimento Tropicália em si me chamou muita atenção, pois foi um fenômeno cultural (ou contracultural) aqui no Brasil que durou muito pouco tempo, mas que influenciou uma parcela de artistas brasileiros a terem como pauta o antielitismo, e críticas a desigualdade social. Principalmente durante o Regime Militar onde muitos artistas escreviam letras que criticavam o autoritarismo e que foram censurados, torturados e exilados por isso. Logo, me considerei Tropicalista, primeiramente porque eu era (sou) apaixonada pela Rita Lee e os Mutantes, segundamente porque eu queria muito ser hipster nos anos 60 (hehe). Só que eu não imaginava que eu viveria em um governo tão semelhante ao governo autoritário de 64-85. Tão pouco tempo depois, aqui estou eu vivendo os absurdos desumanos diários desse desgoverno fascista e corrupto que está censurando muitos brasileiros.

Voltando ao ano de 2021, estamos cercados pelo termo ‘cringe’ na internet, termo esse usado por pessoas da g Z, os adolescentes que vão ser a “voz do futuro”, só que estão presos ainda na bolha digital e não sabem o que a vida adulta lhe aguarda. Pois aparentemente, falar sobre pagar boleto é cafona, tomar café da manhã é cafona, litrão é cafona. Mas veja bem, não falar de boleto só pessoas adultas que estão com a vida garantida, ou nesse caso, adolescentes que nunca trabalharam para pagar uma conta na vida, não tomar café da manhã só quem não acorda cedo pra trabalhar e nunca deve ter ficado sem grana no final do mês e conseguir desbancar apenas 10 conto num litrão pra descontrair. Em paralelo, essa mesma geração contém jovens que não podem ficar em casa navegando na internet e precisam trabalhar e respectivamente largarem seus estudos para sustentar a casa, essa parcela de jovens não está na internet fazendo memes. Negros são 71,7% dos jovens que abandonam a escola no Brasil, isso quando essa parcela de jovens não tiveram suas vidas interrompidas pelo Estado (Enfrentamento ao genocídio da juventude negra / Plataforma Política). Sendo assim, quem são esses jovens que usam esse termo “cringe” para desvalidar os adultos? Não é de hoje que a juventude (predominantemente branca) despreza a geração anterior. “Mas é esta a juventude que quer tomar o poder?” discursou Caetano em uma apresentação em 1968 da música “É Proibido Proibir” ao lado de Mutantes após ser vaiado pelo público, o mesmo público que hoje está desvalidando a vivência do grupo anterior. É com essa alusão que penso no que deu errado para, nesta data, a geração Z está tentando apagar a história dos Millennials ao invés de estarem estudando e fazendo algo de útil contra um governo fascista nas redes? Por que os artistas aposentados estão fazendo mais pelo Brasil usando sua voz do que os artistas Millennials? 

“É dever do artista refletir o seu tempo”, disse Nina Simone.

Romantizar os artistas da década de 60, 70 e 80 estarem protestando em 2021 enquanto a prometida “Geracão Coca-Cola” que seguiu o Movimento Brasileiro Livre apoiando o golpe em 2013 é um erro da nossa parte, esse mesmo público que apoiou o golpe é o que hoje está criticando Samantha Schmütz e Anitta nas redes por se revoltarem contra o governo e respectivamente contra sua sociedade hipócrita e cega em um momento de genocídio. Quais são as vozes que nos representam no dia de hoje? Artistas que não se revoltam com a nossa realidade, que não fazem nada por nós, não nos representam. 

O legado que a Tropicália nos deixou é uma aula de resistência, de paixão pela democracia e pela liberdade. Algo que claramente alguns artistas brasileiros atuais não devem ter, pois vivem presos em suas bolhas elitistas enquanto milhares de pessoas estão sendo assassinadas brutalmente pelo governo durante uma pandemia. É triste não se sentir representado por alguns desses artistas que têm voz e escolhem se calar. Pois mesmo tendo acabado o movimento tropicalista, eu consigo enxergar nos dias de hoje, em um país que voltou ao mapa da fome, uma necessidade, um grito de desespero pela liberdade e democracia voltar à moda novamente. Eu quero fazer parte da geração que tem o tropicalismo como mantra, que vai ouvir MPB quando derrubarmos esse desgoverno. 

“Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar” 

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