Hoje em dia, a demanda por diversos aplicativos móveis cresceu, como uma necessidade trivial do ser humano. Devido a muitas circunstâncias, precisamos que esses aplicativos sejam acessíveis para todos os tipos de usuários, inclusive aqueles que possuem algum tipo de deficiência ou neurodivergência. De acordo com a Cartilha de acessibilidade da W3C Brasil: “No Brasil, houve um avanço com relação aos direitos da pessoa com deficiência, que foi a Lei no 13.146, Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, sancionada em 6 de julho de 2015, destinada a “assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais para a pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania”.

O documento conta com um capítulo dedicado exclusivamente ao acesso à informação e à comunicação e um artigo que aborda a acessibilidade pelos sítios web no Brasil. O artigo 63 estabelece que: “É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo para uso da pessoa com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente”.

A acessibilidade ainda é um tema não introduzido nas conversas do cotidiano entre os brasileiros, por mais que a Agência informativa do IBGE estima que “A população com deficiência no Brasil foi estimada em 18,6 milhões de pessoas de 2 anos ou mais, o que corresponde a 8,9% da população dessa faixa etária. Os dados são do módulo Pessoas com deficiência, da Pnad Contínua 2022. O tema já foi investigado em outras pesquisas do IBGE, sendo as mais recentes o Censo Demográfico 2010 e a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2013 e 2019. Os dados, no entanto, não são comparáveis entre as pesquisas, pois há diferenças metodológicas“. Ainda temos muito que evoluir na sociedade para que ela seja inclusiva. Pessoas com Deficiência (PCDs) ainda possuem dificuldade em necessidades básicas, como subir um degrau. O IBGE ainda afirma que: “Dificuldade para andar ou subir degraus (3,4%) foi a mais frequente na população brasileira“.

É natural que, nas redes, não seja diferente. Ainda que ela seja tão expandida para a população do mundo inteiro e que o acesso para essas pessoas deva ser garantido por Lei, PCDs também possuem dificuldades nesse nicho. Como mostrado na matéria “Internet Brasileira atinge pior nível de acessibilidade digital” (2021, Maio 20 Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR). Os índices de acessibilidade digital da internet brasileira são os piores da história, segundo dois estudos divulgados neste mês. O primeiro levantamento da TIC Web Acessibilidade/Ceweb.br mostra que somente 0,7% dos portais e páginas sob o domínio gov.br (federais, estaduais e municipais) são plenamente acessíveis. E a quarta edição da pesquisa BigDataCorp / Movimento Web Para Todos constatou que apenas 0,46% dos 21 milhões de websites do País estão livres de barreiras para pessoas com deficiência, o nível mais baixo já registrado desde a estreia desse trabalho, em 2019.

É inegável os prejuízos que são essas pessoas fora desse mercado tecnológico onde as empresas precisam de mais números de usuários (clientes) possíveis. Conforme citado na matéria pela Rosi Bertaglia (2023, março) Acessibilidade Digital no Brasil. Hand Talk: Só no Brasil, cerca de 60 milhões de pessoas requerem um ou mais recursos de acessibilidade para navegar pela web, mas como pudemos ver menos de 1% dos sites está acessível para elas“. Ou seja, são cerca de 60 milhões de clientes fora dessa bolha.

Hoje em dia, como usuários, tendo mais acesso a informação, queremos também consumir produtos que sejam responsáveis com a sociedade e o meio ambiente. A pesquisa “Responsabilidade social corporativa da perspectiva do consumidor: um estudo transcultural”, desenvolvida pela mestre em Administração da UFMS, Claudia Macedo Pires, aponta ações de responsabilidade social que podem ser adotadas por empresas que desejam se posicionar de forma estratégica no mercado. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2014 e 2016. A parte da coleta de dados ocorreu entre novembro de 2015 e janeiro de 2016. Foram ouvidos 225 participantes (56,39%) de nacionalidade brasileira. No mesmo contexto, a matéria de Bertaglia também aponta que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Accenture, “62% das pessoas preferem consumir de marcas que estão envolvidas com causas sociais enquanto 47% delas estão dispostas a desistir de realizar uma compra caso se decepcionem com as condutas da empresa“.

Como solução a esse problema, muitas empresas e órgãos públicos se viram obrigados a construírem produtos de software que sejam acessíveis e contemplem uma gama de usuários. O próprio Instagram, uma das redes sociais mais acessadas, possui recursos acessíveis. De acordo com a matéria “Instagram: SEO nas Redes Sociais e Acessibilidade Digital” (MWPT, 2023), “Na prática, usar essa funcionalidade significa que você pode ampliar o seu público, tornando seu conteúdo acessível para cerca de sete milhões de brasileiras e brasileiros com cegueira ou baixa visão que dependem do leitor de telas para a navegação. Além disso, esse recurso de acessibilidade também funciona para as buscas, ajudando a plataforma a entender melhor sobre o que se trata o conteúdo, o que, pela lógica, aumenta as chances dele ser indicado nos resultados”.

Incluir acessibilidade digital nos softwares de diversos segmentos é, então, uma parte obrigatória da Engenharia de Software, e grandes empresas implementam a acessibilidade como recurso necessário. Assim como as features em si devem seguir um padrão de qualidade, essas features devem ser acessíveis, além de funcionais. E como muitas transformações e evoluções algorítmicas, como o Tesseract, ajudaram a facilitar a implementação de técnicas para tornar um aplicativo mais inclusivo, a forma como a gente desenvolve software também evoluiu.

A acessibilidade digital teve um impacto significativo na forma como o software é projetado e desenvolvido, promovendo uma abordagem mais inclusiva e centrada no usuário. Aqui estão alguns exemplos de como a acessibilidade digital alterou a maneira como o software é construído. Veja alguns exemplos que antes não eram comuns na engenharia de software e que hoje são requisitos imprescindíveis:

  • Design Universal: A acessibilidade digital promove o conceito de “Design Universal”, que se concentra na criação de produtos e serviços que podem ser usados por todas as pessoas, independentemente de suas habilidades ou deficiências. Isso significa que os desenvolvedores agora consideram desde o início como tornar seus aplicativos acessíveis para um público amplo, o que resulta em designs mais inclusivos.
  • Diretrizes e Padrões de Acessibilidade: Organizações como o World Wide Web Consortium (W3C) desenvolveram diretrizes e padrões específicos de acessibilidade, como o WCAG (Web Content Accessibility Guidelines), que fornece orientações detalhadas para tornar a web e aplicativos mais acessíveis. Os desenvolvedores agora adotam essas diretrizes em seus projetos desde o início.
  • Testes de Usuário com Deficiências: Desenvolvedores estão cada vez mais realizando testes de usabilidade com pessoas com deficiências para obter feedback sobre a acessibilidade de seus produtos. Isso resulta em melhorias direcionadas e ajustes em tempo real para atender às necessidades de um público diversificado, gerando também mais empregos para pessoas com deficiência.
  • Recursos de Acessibilidade Incorporados: Sistemas operacionais, navegadores e plataformas de desenvolvimento incorporam cada vez mais recursos de acessibilidade, como leitores de tela, ampliadores de tela e reconhecimento de voz. Os desenvolvedores podem aproveitar esses recursos para tornar seus aplicativos mais acessíveis sem reinventar a roda.
  • Desenvolvimento Centrado em Teclado: A acessibilidade digital também incentivou o desenvolvimento de aplicativos que podem ser completamente operados por meio de teclado, sem a necessidade de um mouse. Isso é vital para pessoas com mobilidade reduzida ou outras deficiências.
  • Legendas e Áudio-Descrição em Mídias: Em aplicativos de vídeo e mídia, a acessibilidade digital levou à inclusão de legendas e áudio-descrição para pessoas com deficiência auditiva ou com deficiência visual. Isso significa que mais pessoas podem desfrutar do conteúdo multimídia.
  • Conscientização sobre Acessibilidade: A acessibilidade digital também trouxe maior conscientização sobre a importância da inclusão e acessibilidade em geral. Os desenvolvedores estão mais cientes das necessidades das pessoas com deficiências e estão mais dispostos a trabalhar ativamente para atender a essas necessidades.

Esse tema ainda é discutido e é pauta em vários fóruns e comitês de empresas públicas e privadas. Entretanto, é visível o quanto a acessibilidade digital mudou a forma como o software é construído, promovendo a inclusão e a conscientização sobre as necessidades das pessoas com deficiências. Isso levou a uma abordagem mais centrada no usuário e ao desenvolvimento de produtos que podem ser usados por todos, independentemente de suas habilidades ou limitações.

A Tecnologia OCR e sua Importância na Acessibilidade de Aplicativos Móveis

A tecnologia OCR, ou Reconhecimento Óptico de Caracteres, é uma ferramenta poderosa que tem desempenhado um papel fundamental na melhoria da acessibilidade de aplicativos em dispositivos móveis. Ela consiste em converter texto presente em imagens ou documentos digitalizados em texto legível por máquina. Esse avanço tecnológico tem se mostrado particularmente valioso para tornar a experiência digital mais inclusiva para pessoas com deficiências visuais e dificuldades de leitura.

No mercado, existem uma gama de aplicativos gratuitos e pagos que usam essa tecnologia para leitura de textos, como listado na matéria: Melhores Softwares OCR. São as funcionalidades do OCR:

  • Leitura de Texto em Imagens: Um dos usos mais comuns da tecnologia OCR em aplicativos móveis é a capacidade de ler e reconhecer texto em imagens, como fotografias ou capturas de tela. Isso é especialmente útil para pessoas com deficiência visual, pois permite que elas acessem informações que, de outra forma, seriam inacessíveis.
  • Tradução de Texto em Áudio: A tecnologia OCR também é frequentemente usada em aplicativos que transformam texto em áudio. Isso é essencial para permitir que pessoas com deficiência visual ou dificuldades de leitura possam ouvir o conteúdo de um aplicativo em vez de lê-lo.
  • Acessibilidade em Aplicativos de Leitura: Aplicativos de leitura, como e-books e documentos PDF, muitas vezes incorporam a tecnologia OCR para oferecer suporte a recursos de acessibilidade. Isso permite que os usuários ajustem o tamanho da fonte, ouçam o texto lido em voz alta ou utilizem outras ferramentas que tornam a leitura mais fácil.
  • Reconhecimento de Escrita à Mão: Alguns aplicativos móveis também utilizam OCR para reconhecer a escrita à mão. Isso é benéfico para pessoas que têm dificuldades em digitar no teclado e preferem escrever à mão.
  • Acessibilidade em Aplicativos de Navegação: Aplicativos de navegação, como mapas e guias de viagem, podem usar OCR para ler em voz alta informações em placas de rua ou sinalizações, tornando a experiência de navegação mais fácil para todos.
  • Melhoria na Usabilidade Geral: A inclusão da tecnologia OCR não apenas beneficia pessoas com deficiências visuais, mas também pode melhorar a usabilidade geral de aplicativos móveis. Por exemplo, a capacidade de escanear rapidamente documentos com a câmera do celular para extrair informações economiza tempo e esforço para todos os usuários.

Em resumo, a tecnologia OCR desempenha um papel essencial na promoção da acessibilidade em aplicativos móveis. Ela ajuda a quebrar barreiras para pessoas com deficiências visuais e torna a tecnologia mais inclusiva e acessível para todos os usuários. À medida que essa tecnologia continua a evoluir, podemos esperar uma experiência digital ainda mais inclusiva e acessível para todos.

Aqui vou listar tecnologias que usam OCR que podemos utilizar em nossos produtos digitais:

Reconhecer texto em imagens com o Kit de ML no Android | ML Kit for Firebase

Recognize text in images with ML Kit on Android | Google for Developers

Text Recognition for Android using Google Mobile Vision | by Prakash Pun | Medium

Free OCR API

Detectar texto em imagens | API Cloud Vision

As 3 principais APIs para OCR que você deve conhecer

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

FODA

Qual a relação entre a expressão de gênero e a violência no Carnaval?

Márcio Santilli

Guerras e polarização política bloqueiam avanços na conferência do clima

Colunista NINJA

Vitória de Milei: é preciso compor uma nova canção

Márcio Santilli

Ponto de não retorno

Márcio Santilli

‘Caminho do meio’ para a demarcação de Terras Indígenas

Dríade Aguiar

Não existe 'Duna B'

SOM.VC

Gatunas: o poder da resistência e da representatividade na cena musical Paraibana

Jade Beatriz

CONAE: Um Marco na Revogação do Novo Ensino Médio

Ediane Maria

O racismo também te dá gatilho?

Bancada Feminista do PSOL

Transição energética justa ou colapso socioambiental: o momento de decidir qual rumo seguir é agora

Jandira Feghali

O Rio que ri

Márcio Santilli

Bolsonaro lança campanha pela própria anistia

Estudantes NINJA

A luta pela educação em São Paulo: contra os cortes e os inimigos da educação!

William Filho

Legalização da maconha na Alemanha: o início de uma nova onda?

André Menezes

Os sons dos vinis: um papo com Dj Nyack, diretamente da Discopédia