Bandeira do Estados Unidos do Brasil, utilizada oficialmente em 1889 por quatro dias.

Nos anos 1940, fugindo do nazismo, o escritor austríaco Stefan Zweig mudou-se para o Brasil, onde teve contato com uma terra que, em suas palavras, “o encantou e comoveu”. Em seu livro ‘Brasil, País do Futuro’ foi além do lugar comum de exaltação de belezas naturais, e versou sobre as potencialidades de uma sociedade que afastava a segregação racial e subjugação do outro, tinha aversão a guerras e desconhecia perseguições religiosas. Sua visão idílica o impediu de se aprofundar nas marcas da escravidão, nas atrocidades do Estado Novo e tantos outros problemas que poderiam ser destacados. Contribuiu, porém, para a construção de uma visão sobre nós mesmos enquanto uma nação com capacidade de superar mazelas históricas e desenvolver-se.

Diante da instalação de uma cleptocracia no Palácio do Planalto, da retomada de projetos de privatização de setores estratégicos e da entrega da Amazônia, não há como deixar de questionar sobre onde foi parar o Brasil dos olhos de Zweig. Combinado a esses fatores, o corte de investimentos em educação e pesquisa são a receita para levar o Brasil a se transformar não no país do futuro, mas da subserviência.

Enquanto o Ministério de Ciência e Tecnologia de Temer cobra das Universidades e Institutos Federais uma adaptação a tempos de escassez, bilhões escoam com pagamentos de juros da dívida, desonerações e sonegação fiscal, sem mencionar nas malas encontradas no apartamento de um ex-ministro, e das que compram votos no Congresso Nacional, que servem tanto para aprovar reformas que espoliam o povo quanto para assegurar a impunidade de quem institucionaliza a corrupção.

A situação é alarmante.

No primeiro semestre de 2017, 70% das Universidades Federais sofreram cortes, e os investimentos em ciência, tecnologia e educação superior já representam 50% do que lhes havia sido destinado em 2015.

De acordo com os cálculos de Carlos Rocha, professor do Instituto de Economia da UFRJ, o contingenciamento deste ano já representa uma perda de quase R$ 12 milhões por dia.

Com os Institutos Federais não é diferente. Depois de experimentarem a maior expansão de sua história, interiorizando a educação profissional e tecnológica, pública e de qualidade, estão com um contingenciamento de 20% de custeio e de 55% em investimento nos seus orçamentos de 2017, para uma previsão que já era menor em comparação a 2016. Alunos estão abandonando seus cursos em função da redução do auxílio que recebem, pagos com o decrescente recurso da assistência estudantil, fundamental para garantir a permanência e êxito dos estudantes de baixa renda.

No momento em que o Brasil deveria aproveitar seu bônus demográfico, o CNPq está autorizado a gastar apenas 56% do total previsto do orçamento aprovado para este ano, grande parte já executado, o que coloca em risco a continuidade das bolsas de mestrado e doutorado, bem como de pesquisas em andamento, inclusive com perda de resultados.

Um entrave real ao nosso desenvolvimento, que impede a possibilidade de agregação de valor direto à ciência e à economia nacionais por meio do avanço tecnológico.

Sem pesquisa não há inovação, sem a qual não há desenvolvimento.

Abrimos mão de setores estratégicos ao mesmo tempo em que fechamos as portas da educação profissional e superior e para a construção de um futuro soberano.

Em contraste absoluto com o que vislumbrava Zweig, ‘Caravana’ — canção lançada por Chico Buarque recentemente —, retrata esse Brasil de hoje, bem como o que poderemos nos tornar caso o presente estado de coisas seja mantido. Coloca luz sobre. “A gente ordeira e virtuosa que apela pra polícia despachar de volta o populacho pra favela, ou pra Benguela, ou pra Guiné”, diz uma estrofe. Vai além em “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”.

Nada mais correto, afinal, há outra maneira de nominar o que está sendo feito que não covardia?

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