Zeca, Caetano, Moreno e Tom Veloso. Foto: Bruna Guerra

Fui ao show do Caetano Veloso acompanhado de seus filhos duas vezes. Da primeira, chorei do início ao fim. Da segunda, acho que entendi o que me tocava. E o que eles tocavam.

Mesmo em meio à catarse da primeira experiência, a canção de Zeca Lavigne Veloso “Todo homem precisa de uma mãe” me chamou a atenção. Num primeiro momento, um desconforto me veio. Um desalento.

Lindíssima. Letra comovente, refrão surpreendente. Mas lá estava o desconforto. Um desconsolo.

Minha experiência de feminista branca privilegiada – daquelas que está em silêncio sobre Anitta e afins porque acha que seu lugar é de escuta nessa hora – é a de que relações horizontais com homens brancos são um desafio tremendo. Desaganstates, beiram o impossível.

Em geral, o afeto e a confiança se manifestam das seguintes maneiras: somos imediatamente colocadas no lugar de affair, de mãe ou de filha.

Sempre rejeitei todos esses encaixes automáticos. Sempre os combati de bate-pronto. Sou uma mulher que escolhe seus affairs a dedo. E pratica o esporte do flerte com despudor e altivez. Se esforçando para estar no controle desse processo.

Sou uma mulher que dispensa o tratamento de filha. Tenho um pai pleno em seus defeitos e qualidades. Honesto comigo em seus equívocos e triunfos. Crescemos juntos e a vida, na sua aleatoriedade, nos deixou sós. Não preciso de pai, tenho um que me enche de preocupação e orgulho na mesma medida.

Sou uma mulher que detesta a tarefa materna associada à obrigatoriedade, ao inventável. Serei mãe quando quiser. Se quiser. Resultado da parceria que me apetecer e que em nada tem a ver como amor romântico, essa praga que nos assola.

Não gastarei cuidado desmedido e incondicional em troca da atenção dos homens. É um erro adolescente que aprendi a não mais cometer.

Contudo, da segunda vez que escutei ao vivo Zeca e os Velosos e Furiosos, me deparei com um sentido novo da canção. Todo homem precisa de uma mãe. Não para guiá-los. Não para dar-lhes segurança nas decisões já tomadas, mas para dizer-lhes o que eles precisam ouvir: doa a quem doer.

Todo homem precisa de uma mãe porque homem não brota do chão.

Não dispensam o útero. Os cuidado na primeira infância, desigualmente distribuídos dada a substantiva desigualdade de gênero que nos assola. Não sobrevivem sem a infinita disposição de assistir Aventuras de Mateus 2 na sessão das 14h e às tentativas vãs de explicar porque o Papai Noel do shopping não é o de verdade.

Não somos supérfluas. Nem na concepção. Nem no cuidado primário. Nem nos laços que se estendem vida afora, cordões umbilicais invisíveis que alguns resolvem nos divãs e outros no abraço apertado.

Todo homem precisa de uma mãe. E o feminismo não veio para eliminar essa necessidade. Mas para torná-la mais deliciosa para ambas as partes.

Todo homem será, se conquistarmos os direitos que nos são de direito, fruto do desejo. Da escolha. E da dedicação por tantas vezes exaustiva, mas sublime. Resultado de uma opção.

Me lembrei agora de Lorde. Audre Lorde diria, numa tradução livre:

“a lição mais poderosa que posso ensinar ao meu filho é a mesma que ensino à minha filha: seja quem você desejar ser. E a melhor melhor maneira de fazê-lo é ser quem eu sou e torcer para que ele aprenda não a ser como eu, mas a ser ele. Isso significa ouvir aquela voz que vem de dentro dele ao invés da voz persuasiva e ameaçadora que vem do mundo – obrigando-o a ser o que o mundo demanda dele.”

Todos precisamos de Audre. E sim, todo homem precisa de uma mãe.

Segue a canção. Que eu cantarei 18 afora. E segue aquilo que me pareceu incômodo, agora transmutado em homenagem. Ressignifiquei em homenagem aquele belíssimo refrão. E o incômodo erodiu. Que neste ano saibamos fazer com mais frequência esse exercício: baixar a guarda e acolher os raros gestos de respeito e deferência que nós mulheres recebêmos lá e cá..

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