O mundo não mudou tanto. Infelizmente ainda temos mulheres que evitam, ao desenhar suas trajetórias públicas, o lugar de fala feminino.

Arte: Mídia NINJA

Maria Quitéria. Arte: Mídia NINJA

Maria Quitéria de Medeiros nasceu em Feira de Santana em 1792. Neste ano, no mundo, La Marseillaise era composta. A guilhotina era testada pela primeira vez em Paris.  D. João VI era coroado em Portugal. E Feira de Santana exercia seu papel de locus da história sendo um dos cenários da emergente Guerra da Independência – o conjunto de processos que se estenderam de 1822 a 1825, quando Portugal reconheceu formalmente a independência do Brasil.

A menina, noiva e com a vida desenhada diante de si, começou, em 1722, a se envolver com a agitação contra o jugo português e desejava tomar parte ativa na vida pública nacional. Maria Quitéria pediu, então, ao pai, para se alistar no Exército Libertador. Pedido evidentemente rechaçado de imediato. Maria Quitéria não se deteve. Com a ajuda da irmã Tereza e do cunhado, cortou os cabelos, vestiu-se de homem e se alistou no Regimento de Artilharia.

Durante algumas semanas, até ser descoberta, Maria Quitéria foi o Soldado Medeiros.

Desmascarada, Maria Quitéria trouxe um dilema para o Exército Libertador. Ela sabia montar, tinha excelente mira. Conhecia o regimento militar. Mas era mulher. O que fazer com aquele ser estranho à vida pública, mas hábil? Competente para as tarefas que lhes eram atribuídas?

Defendida por alguns poucos colegas, foi acolhida pelo Batalhão dos Voluntários do Príncipe. Ao seu uniforme, foi adicionado um saiote. Um saiote. Maria Quitéria, contam os poucos livros que a mencionam, lutou com bravura o Combate de Pituba e outras batalhas pela independência que se desenrolaram em solo baiano. Em 1823, quando o Exército Libertador adentrou Salvador vitorioso, Maria Quitéria estava em meio à tropa. De espada em punho, uniforme de Cadete e saiote, foi saudada ao lado dos companheiros. Em agosto do mesmo ano, foi recebida pelo Imperador no Rio de Janeiro e condecorada Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro.

O Soldado Medeiros, depois Cadete Maria Quitéria, teve seguidoras, foram algumas as chamadas amazonas baianas. Mas Maria Quitéria cansou. Cansou e casou com o noivo que a esperou voltar do front. Morreu anônima, sepultada sem honras na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento e Sant’Ana, no bairro de Nazaré em Salvador. Um dia eu gostaria de visitá-la.

Mas por que lembrar do Soldado Medeiros hoje? Porque Clausewitz dizia que a guerra é a continuação da política por outros meios. E Maria Quitéria era uma mulher que desejava fazer política.

Contudo, imersa num ambiente machista em que o debate público, bem como seus desdobramentos trágicos, era coisa de homem. Daí o disfarce, os cabelos curtos, a tentativa de despercebidamente se misturar aos combatentes. Daí o ímpeto de fazer política desconectada de sua condição feminina. Daí a disposição feroz de esconder tal condição, seu desespero diante da descoberta da sua farsa. Daí a vergonha profunda que sentia do saiote. Aquilo que a distinguia e, logo, obrigava-a a trabalhar dobrado para, mulher, provar sua aptidão para as funções que desejava desempenhar.

O mundo não mudou tanto. Infelizmente E temos, ainda em 2017, muitos Soldados Medeiros.

Mulheres que evitam, ao desenhar suas trajetórias públicas o lugar de fala feminino. E rechaçam o feminismo. Frauke Petry e Beatrix von Storch, lideranças alemãs ascendentes são exemplos de Soldados Medeiros contemporâneos. E, claro, temos Marine Le Pen na França.

Le Pen, em 10 anos servindo o Parlamento Europeu, ausentou-se sistematicamente de votações cujos temas eram violência contra a mulher, equiparação salarial e incentivos para o empreendedorismo feminino. A candidata à presidência da França também votou contra a garantia de direitos para trabalhadoras domésticas e a obrigatoriedade da adaptação dos ambientes de trabalho para receber adequadamente mães de recém nascidos no retorno de suas licenças. As únicas menções feitas por Le Pen a casos de assédio se restringem a episódios nos quais o agressor é imigrante. Suas únicas falas em defesa dos direitos da mulher fazem menção aos direitos das mulheres francesas sob suposta ameaça em decorrência da tolerância da esquerda francesa com relação ao Islamismo. Um discurso que nada tem de feminista. E tudo tem de xenófobo.

Esses são exemplos evidentes de mulheres que reproduzem as disputas machistas, racistas e classistas que seus predecessores e pares homens construíram e reiteram diariamente. E eu não precisaria ir tão longe para encontrar Soldados Medeiros: Brasília, nossos estados e municípios estão cheio delas. Dentre os três candidatos mais bem votados nas eleições presidenciais de 14, duas eram mulheres. Contudo, as principais pautas do movimento de mulheres foram negligenciadas durante a corrida eleitora.

Não, não estou dizendo que Dilma ou Marina são Le Pen. Não são.

Há exemplos mais trágicos. Mas servem de alerta: o machismo exerce um magnetismo extraordinário. Escapar dele é um grande feito. “Avante, filhos da pátria”, diz La Marseillaise, composta quando Mara Quitéria nasceu. Petry, von Storch, Le Pen e tantas outras na arena pública entendem esse chamado ainda no sentido literal. O mesmo chamado que levou Maria Quitéria para a guerra: apenas os filhos da pátria têm lugar nas fileiras que lutam por ela. As filhas da pátria aguardam o retorno dos guerreiros comparando preços no mercado. E o saiote é um sinal de vulnerabilidade e, portanto, motivo de vergonha. Jamais de celebração.

Temos de saber quando nos deparamos com mulheres travando batalhas no mundo sexista da política que não rompem com a lógica machista. Não experimentam unir representação e representatividade num registro novo, num registro nosso.

Essas merecem toda nossa sororidade. Mas não merecem nosso voto.

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