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O Tenente-Coronel Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, comandante da temida Rota, a tropa de elite da PM de São Paulo, disse recentemente ao UOL que a abordagem de indivíduos em territórios privilegiado da cidade são – e devem ser – distintas daquelas executadas nas periferias paulistanas.

“(…) se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali andando”.

Ontem, ainda chocada com a sinceridade do Tenete-Coronel, fui ler Angela Davis. Ela fala disso tanto. Ela me acalma. Mas, num acaso feliz, descobri em dado momento não estar lendo a Angela Davis ativista, feminista, expoente do movimento negro, bastião da luta por direitos civis e das mulheres nos Estados Unidos. Descobri uma nova Angela Davis.

Angela J. Davis, professora da Washington College of Law, é expert em justiça criminal e dedica-se especificamente em como o racismo se manifesta no sistema de justiça norte-americano. Também ativista, negra. Igualmente potente nas explicações do que nos prende e liberta. Davis revela a desigualdade da abordagem, das sentenças e do encarceramento de homens e mulheres negras a América. Enfrenta sem meias palavras o racismo da polícia, do ministério público e das prisões do país.

No livro editado por Davis “Policing Black Man: Arrest, Prosecution, and Imprisonment” (Pantheon Books), 11 ensaios escritos por operadores da justiça e acadêmicos nos mostram como os negros nunca estiveram seguros na América. A escravidão transmutou-se em racismo institucional. Neste contexto, a obra nos mostra como, desde as cortes locais até a Suprema Corte, interpretações da constituição falham reiteradas vezes em estender aos afro-americanos direitos assegurados aos brancos. Disparidades flagrantes e muitas vezes letais nas abordagens, abuso e brutalidade policial são mais que tolerados: são justificados, encontram respaldo na justiça que deveria proteger a todas e todos.

Um dos ensaios, assinado pelo advogado Bryan Stevenson, nos lembra que sociedades fragmentadas e cuja discriminação ganhou historicamente contornos violentos inéditos se dedicam até o presente à superação deste passado. À construção da reconciliação. E mais: de uma reconciliação em que as comunidades vítimas têm acesso reparação – material e imaterial. A África do Sul após o absurdo do Apartheid e a Alemanha que segue tentando superar o horror do Holocausto são citados como exemplos de tentativas em curso de oferecer condições materiais às vítimas para reparar violações de direitos, bem como ressignificar a história dessas sociedades para que não reste dúvida de que atrocidades fora cometidas e jamais devem ser repetidas.

Os Estados Unidos estão distantes de tais realidades. Confrontar a desigualdade e combatê-la ainda parece distante. Imagens que inequivocamente comprovem a discriminação são objeto de malabarismos leigos, teóricos e legais para que justificativas sejam disseminadas. Para que o senso comum siga aquele dos tempos da escravidão: a vida negra valha menos. A morte negra não vale nada. Basta ler o que nos diz o Tenente-Coronel Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo.

Duas conclusões, uma boa e outra trágica, encerram esta reflexão. Comecemos pela trágica. No que Baltimore difere da Maré ou de Jacarezinho, no Rio de Janeiro? Do que Ferguson difere de Bom Jardim, em Fortaleza? Muitíssimo, muitíssimo pouco. Quase nada.
Chico Buarque, em seu novo disco, é certeiro: “Com negros torsos nus deixam em polvorosa/A gente ordeira e virtuosa que apela/Pra polícia despachar de volta/O populacho pra favela/Ou pra Benguela, ou pra Guiné”

Protejam-nos dessa gentalha que não mais nos serve, pensa a elite. Posta a elite. Não nos serve pois é inútil e não os serve pois não nos serve mais o almoço, o chá. Reprimam a todas e todas antes que agora invadem nossos espaços, que decidem nossas eleições, que levam nossa paz. Devolva-os para os territórios que deliberadamente ignoramos, caso seja necessário. Ou voltaremos no Trump. Ou voltaremos no Bolsonaro. Esses sim cuidarão de nós.

Agora, a conclusão positiva: toda Angela Davis tem o que nos ensinar. Toda Angela Davis rompe sem dó os véus que nos impedem de ver como a desigualdade estrutural mantém negros cativos séculos ou décadas depois da liberdade forma/ E nos mantém senhores e sinhás. Receosos, andando mais rápido quando um homem negro caminha atrás de nós. E desejando que a polícia intervenha a nosso favor. Independente do que isso possa significar.

Angela Davis. As duas. Como diria a poeta maiúscula Ana Cristina Cesar: movidas contraditoriamente por desejo e ironia. Que eu descubra ainda muitas outras Angelas Davis. E que elas nos ajudem, como tem sido, a superar o choque e reagir. A agir. A lutar.

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