‘Magnum’, o herói que transforma a atuação em superpoder
Yahya Abdul-Mateen II vive Simon Williams em uma série que cruza fama, identidade e superpoderes nos bastidores do entretenimento
Por Hyader Epaminondas
Mas, afinal, quem é esse “Homem-Maravilha”?
Criado em 1964 por Stan Lee, Jack Kirby e Don Heck, Simon Williams estreou em “The Avengers #9” como um empresário armamentista que se transformou em vilão ao se unir ao grupo Mestres do Mal para se vingar de Tony Stark. Ele foi lançado ao mundo condenado a um destino trágico já na mesma edição que o apresentou, após um rápido arco de redenção, e só retornou à vida após cem edições da revista.
Foi ao lado dos Vingadores que ele começou a se consolidar como herói titular entre os Heróis Mais Poderosos da Terra, enquanto sua carreira como ator em Hollywood decolava e passava a alternar entre a vida heroica e os tapetes vermelhos. Originalmente nos quadrinhos, foi Simon quem serviu como base para os padrões cerebrais que deram origem ao androide Visão. Sempre envolvido em histórias discutindo identidade e individualidade, como se cada conflito seu refletisse não apenas a construção de um herói, mas a exploração de quem ele era de verdade por trás dos superpoderes.
Essa vida dupla encontrou terreno fértil por meio do selo Marvel Spotlight no Disney+, pelas mãos do diretor de “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, Destin Daniel Cretton, que retorna ao universo Marvel trazendo consigo Yahya Abdul-Mateen II para dar vida a um ator que não quer ser herói, introspectivo, quase etéreo e lúcido demais sobre o espetáculo que o envolve. Com oito episódios de meia hora cada, a direção é compartilhada entre Cretton, James Ponsoldt, Tiffany Johnson e Stella Meghie, alternando estilos sem perder a coesão da produção.
Totalmente fora da caixinha e repleta de metalinguagem, a adaptação consegue condensar de forma livre 62 anos de história em um universo onde salvar o dia é tão importante quanto dominar a narrativa de quem recebe os créditos. A série serve como aperitivo perfeito para o próximo filme do diretor, que chega ainda este ano com a sequência do Amigão da Vizinhança, “Homem-Aranha: Um Novo Dia”.
Um remake improvisado nos bastidores da Marvel
O protagonista é um ator talentoso, mas desesperadamente tentando encontrar seu lugar no vasto palco de Hollywood. Ele se preocupa demais com a arte da atuação e a criação de contexto narrativo para os seus personagens, algo que muitas vezes atrapalha sua entrega em seus papéis, e esse traço funciona como um comentário ácido sobre os erros de narrativa nos filmes recentes de heróis. Talvez uma pessoa como Simon Williams para revisar os roteiros do último “Capitão América” tivesse tornado o filme uma história mais coerente, como ele deveria ter sido pelos planos iniciais.
Ele possui superpoderes extraordinários, mas nem sequer compreende a extensão de suas habilidades e, sinceramente, pouco se importa. O que realmente deseja é ser reconhecido pelo seu talento, ao mesmo tempo em que tenta ao máximo reprimir seus poderes, que se desestabilizam devido ao seu estado mental enquanto enfrenta desafios tanto pessoais quanto profissionais.
Seu comportamento só pode ser uma paródia ao controle obsessivo que Edward Norton costuma projetar em seus trabalhos, sempre tentando dominar a produção para reescrever seus roteiros, como aconteceu em “O Incrível Hulk” (2008), episódio que acabou selando sua substituição posteriormente no primeiro filme dos Vingadores.
Em seu mundo, talento e sorte se confundem a cada audição, transformando cada tentativa em uma batalha quase tão intensa quanto qualquer superataque que seus poderes de energia iônica poderiam desferir num travesseiro dramático recheado de sonhos e fracassos. É nesse cenário que surge Trevor Slattery, o ator que interpretou o falso Mandarim em “Homem de Ferro 3”, cujos dias de glória parecem ter ficado para trás e que acaba levando Simon a descobrir que o diretor Von Kovak está preparando um remake do filme de ação de sua infância, “Magnum”.
Cretton transforma a mania de Simon de contextualizar tudo para encontrar a voz de seus personagens em um dispositivo narrativo em paralelo, no qual somos apresentados ao próprio protagonista em um estudo de personagem duplo, dentro e fora desse universo ficcional da série.
Ao mesmo tempo, a série exalta a cultura negra, dedicando um episódio para explorar a origem haitiana da família do protagonista, adicionando consistência à reimaginação do personagem, surpreendendo especialmente após seu trabalho anêmico em “Shang-Chi”.

Um bromance de energia iônica
O bromance entre os protagonistas se desenrola de forma orgânica, mesclando piadas e rivalidades competitivas a momentos de cumplicidade. Essa união intensifica o drama, pois os atores precisam esconder nervosismos e segredos enquanto constroem uma química quase fraternal, sempre sob um ritmo frenético, enquanto tentam conseguir os papéis que podem redefinir suas carreiras.
Trevor é um ator shakespeariano que contrasta com Simon em sua abordagem meticulosa, e o humor afiado, alinhado à metalinguagem, funciona como comentário interno, zombando do próprio gênero e refletindo o clima de fracasso que permeia o mundo atual dos super-heróis na cultura pop. A dupla protagonista encarna tanto a vaidade quanto a vulnerabilidade de atores que precisam se provar, enquanto a narrativa brinca com a própria ideia de heroísmo, sucesso e espetáculo.
Com momentos pontuados por surpresas, alinhados a uma estética propositalmente intrusiva em harmonia com a trilha sonora, somada ao timing cômico e à precisão do roteiro, como o episódio em preto e branco que introduz o mutante DeMarr Davis, o Porteiro, que explica como surgiu a lei contra intérpretes com superpoderes, e participações especiais como Joe Pantoliano e Josh Gad, adiciona-se um tempero extra à trama, reforçando a sensação de um projeto, acima de tudo, humano.
A Disney e a problematização de “Magnum”
O descaso que já se tornou característico da Disney na divulgação porca e quase invisível de produções com protagonistas não brancos, como “Coração de Ferro” ou mesmo “Capitão América: Admirável Mundo Novo”, faz com que, antes mesmo da estreia, o personagem já chegue “marcado” como problema, transformado em bode expiatório conveniente para os erros estratégicos do próprio estúdio, que vem acumulando mais fracassos do que sucessos em seu catálogo.
E o mesmo aconteceu com essa nova série, mas a direção de Cretton e o talento indiscutível de Abdul-Mateen II transformaram Simon Williams em algo fascinante, ao lado do arquétipo de mentor projetado por Kingsley, a ponto de o lado fantasioso e heroico de “Magnum”, com seus poderes cintilantes em tons roxos, se tornar quase irrelevante para a trama. Mesmo quem não se interessava pelo personagem se vê cativado já nos créditos do primeiro episódio.
“Magnum” se sustenta como uma história independente das tramas interligadas do universo compartilhado, entregando uma narrativa dinâmica, humana e com começo, meio e fim. Ao mergulhar na profundidade do ofício da atuação por meio de um bromance de energia iônica genuinamente divertido, a série aproveita os bastidores do entretenimento para expandir o universo Marvel, apostando na renovação mais do que necessária de um super-herói completamente esquecido pela editora.



