.

Me senti tão bem, me senti tão segura, não porque tinha alguém do meu lado naquele momento e sim porque tinha me dado conta que eu havia superado alguém que não me deixava sentir outros prazeres. Mas olha, eu estava sentada a beira da cama, cinco da manhã, olhando pra janela aberta, vestindo uma camisa de goleiro de um cara que me encheu durante quase 2 meses. Cheio de carinho, me paparicando de uma forma tão respeitosa, eu não tinha sido tratada como fetiche dele, um carinha que se dispôs a ser meu amigo, que se dispôs a me ouvir como uma mulher de 23 anos que estava prestes a dar um grande passo em sua vida.

Mesmo que a realidade que eu enfrentaria não fosse a dele, ele falava para uma Leandrinha que ele mesmo não teve acesso, a que chora, a que se irrita, a que sente ciúmes, a que se desmonta ao falar da família, sem saber ele estava ali, sem querer nada em troca, ele quase virou meu melhor amigo rs. Eu cheguei a arremessar um peso de papel na parede do quarto dele, por causa de uma garota que nada tinha a ver com ele e que hoje é uma das minhas amigas. Ufa! Quanta informação né?! Mas já deu pra entender que ele tava se tornando minha best friends forever.

Eu estava ali, sentindo o vento gelado daquela janela balançando meu cabelo bem devagarinho e pensando em meio a lágrimas tímidas, nos meus próximos desafios, nos próximos passos do qual ele não faria parte, planos meus dos quais ele não estaria dentro. Eu ia entrar em campanha, a primeira jovem cadeirante trans a se candidatar a deputada de um estado, um desafio. Ele não fazia ideia da etapa que eu enfrentaria, do estresse, dos percalços no meio do caminho, das fortes emoções. Já eu, eu tinha noção, e mais noção eu tinha que não teria durante aquela caminhada alguém que eu pudesse surtar, pois se eu surtasse, como em um baralho de cartas, tudo caía.

Mais uma vez era só eu, e por mais que soe solitário e triste, eu estava sozinha lidando com um turbilhão de informação, vou escrever novamente, SOZINHA. Eu não estava dependendo de alguém para “processar a vida”, lá atrás, em um passado quase remoto eu necessitava do “aval” de uma pessoa me falando que tudo ficaria bem ou que era uma péssima ideia, nesse remoto passado eu fui essa pessoa pra alguém “frágil” também. Eu estava liberta e preparada para saber lidar com minha cabeça.

Eu estava ali, sentindo o vento gelado, até sentir a mão imensa daquele carinha mais velho nas minhas costas. Como era de praxe dele. “Minha luz extraordinária, deita aqui comigo.”

Sempre achei nomes fofos de namoradinhos uma tolice, tipo “baby, amore, anjo, flor e etc” e eu achava no começo um nome tão grande e nada fofo, um não, dois! Luz Extraordinária. “Luz extraordinária, é só fechar a tampa que o liquidificador liga”, “luz extraordinária, você leu a notícia que saiu hoje?”, eu ouvi isso várias vezes, não repentinamente porque ele sabia que eu não curtia essa melação, mas em diálogos que não necessariamente eram ricos em afeto.

Alguns dos significados do adjetivo “Extraordinário”:

Que não se adequa ao costume geral ou ordinário; algo excepcional. Característica do que é raro, singular ou esquisito. Extremo, excessivo; em elevado grau. Que é merecedor de admiração; algo fantástico ou incrível. Que possui a responsabilidade para a realização de alguma tarefa específica.

Agora alguns significados de “Luz”:

No figurado, diz-se de tudo que esclarece o espírito, conhecimento das coisas, inteligência, vir à luz, ser publicado, revelado. Homem/Mulher de mérito, de elevado saber, guia, orientação, verdade, evidência, certeza, brilho, fulgor, cintilação, coisa de grande apreço.

No fundo eu sabia que me enquadrava para tal “título”, mas nunca tinha me permitido me apropriar dessas duas palavras fortes. Eu deitei, deitei com a certeza que não precisaria daquele homem abraçado de “conchinha” comigo, assim como não precisei de nenhum depois daquele do “passado remoto” para lidar com o que a vida tinha a me oferecer. Afinal sou luz extraordinária pra mim mesma.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Bruno Ramos

Um ano do massacre de Paraisópolis

NINJA

Para Ver a Luz do Sol. 40 anos de reexistência cosmopolítica no Bixiga

Jorgetânia Ferreira

São Paulo merece Erundina

Bancada Feminista do PSOL

Do #EleNão ao Boulos e Erundina sim!

Fabio Py

Dez motivos para não votar no Crivella: às urnas de luvas!

História Oral

O Mitomaníaco e os efeitos eleitorais da Pós-Falsidade

Márcio Santilli

Bolsonaro-Frankenstein: cara de pau, coração de pedra e cabeça-de-bagre

Cleidiana Ramos

O furacão de tristezas que chegou neste 20 de novembro insiste em ficar

Tatiana Barros

Como nasce um hub de inovação que empodera pessoas negras

História Oral

Quando tudo for privatizado, o povo será privado de tudo e o Amapá é prova disso

Colunista NINJA

LGBTI+ de direita: precisamos de representatividade acrítica?

Juan Manuel P. Domínguez

São Paulo poderia ser uma Stalingrado eleitoral

Colunista NINJA

A histórica eleição de uma bancada negra em Porto Alegre

Bancada Feminista do PSOL

Três motivos para votar na Bancada Feminista do PSOL

Carina Vitral da Bancada Feminista

Trump derrotado nos Estados Unidos, agora é derrotar o bolsonarismo na eleição de domingo no Brasil