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“I believe in good people”: essa frase vale centenas de milhares de reais, ou apenas R$ 39,90 na loja Riachuelo mais próxima de você. Vai no peito do Secretário de Desenvolvimento e Assistência Social de São Paulo, Filipe Sabará (NOVO) e encabeça a campanha “Nós”, da ONG Arcah (Associação de Resgate à Cidadania por Amor a Humanidade), criada por ele.

Alinne Moraes, Bruno Gagliasso e mais abraçam moradores de rua em campanha” [a manchete foi alterada para “Alinne Moraes, Bruno Gagliasso e mais abraçam pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social”]. A manchete da Vogue chama click de quem adora a vida dos famosos. “Nossa meu, que incrível, como eles são engajados!”, vai gritar alguma socialite arrepiada com as fotos.

Nós sabemos que, na verdade, essa socialite sente nojo e que o arrepio dela é porque a Alinne Moraes e o Bruno Gagliasso encostaram nesses “moradores de rua”. Mas é hype. É filantropia. É pra “ajudar”.

Opa, tem mais gente engajadona. Copia e cola aqui ó: Ticiane Pinheiro, Popó, Vivi Orth, Gabriela Pugliesi, Fernanda Paes Leme, Henrique Fogaça, Carol Celico, Cris Arcangeli, Giovanna Lancellotti, Manu Gavassi, Mica Rocha, Paloma Bernardi, Giane Albertoni, Fran Fischer, Luciana Gimenez e Enzo Romani.

Se é loco, bixo, com tanta gente famosa ~colaborando~ a vida da população de rua de São Paulo tá fácil.

De acordo com a reportagem, “O objetivo da iniciativa é quebrar o preconceito em relação à causa, mostrando que, independentemente da identidade, da classe social, cor ou raça, somos todos são iguais”.

“Somos todos iguais é o Caraí”

Antes de tudo, a colunista aqui da NINJA, Preta Rara, deu esse recado bem dado aqui ó:

Reprodução Instagram @pretararaoficial

Arcah, FIlipe Sabará e gente boa porra nenhuma

Mas, sabe como é: a gente não cai mais nesse papo furado. Vamos aos fatos: a ONG Arcah, criada há seis anos por “herdeiros de famílias tradicionais”, como diz a Veja SP, na verdade nunca saiu do papel. Reportagem da rádio CBN provou que a unidade prometida pelo grupo, na cidade de Botucatu, interior de São Paulo, na verdade é um grande matagal sem nada.

A resposta de Sabará foi: “Filipe Sabará ainda é voluntário na ONG, mas disse à reportagem que não responde mais pela entidade porque agora está na secretaria”.

OU SEJA, a única pessoa beneficiada pela Arcah nesses dois anos foi o próprio Sabará, que conseguiu entrar em cargo ao qual ele não tem a menor competência e experiência para gerir. E olha, se fosse só eu falando isso de bobeira, tava suave pra ele. Mas ninguém mais nessa cidade aguenta o cara.

Ele sabe tanto da população de rua que, a primeira ação dele, junto com o Doriana (PSDB), foi mandar centenas policiais civis para massacrar as pessoas que vivem na Cracolândia.

Família Doriana. Foto: Prefeitura de São Paulo

E, para ele: “Falando de garantia de direitos, ali era o local onde tínhamos a maior quantidade de falta de garantia de direito, justamente a fragilidade humana e o estupro coletivo da espécie humana e animal acontecendo ali a céu aberto com anuência do Estado durante 23 anos. Isso é inaceitável. Se um ET descesse na terra em frente a Cracolândia ia falar: “o que é que esses caras estão fazendo?“. Para mim, aquilo é uma aberração, uma situação a se entender.

Trabalhei muito tempo com dependentes químicos, e uma coisa é você trabalhar com o dependente e outra com o dependente que o tráfico sequestrou. Para mim, aquilo e inaceitável. Sou totalmente favorável e, para mim, a ação foi super sucesso. Agora, as pessoas não ia desaparecer. A gente já esperava que elas fossem migrar. Mas eu prefiro muito mais uma pessoa migrando, mas que tenha algum tipo de luz no fim do túnel”. [comentário de passagem: QUE FASEEEEE]

Não bastasse isso, durante os 4 meses e meio que está no comando da pasta, protagoniza as maiores barbáries da sua história, com GCMs espancando, retirando pertences e botando fogo em comunidades de pessoas de rua, com o desmonte políticas de assistência social para pessoas em situação de rua, quebra contratos com instituições que, ao contrário da Arcah, fazem trabalhos fundamentais para jovens da periferia, entre muitas outras coisas.

Vocês não podem dizer que não teve aviso. O cara gosta do apelido carinhoso “mini-doria” [é sério]. 

Puxa a capivara aqui ó. Em dezembro do ano passado, quando ainda dirigia a Arcah, foi à Praça 14 Bis, na Av. Nove de Julho, se dizendo da ONG, que ia ajudar todo mundo, a vida ia ser linda, tudo ia dar certo, pegou o nome do povo todo, sorriu pras criancinhas. Fez o político depois sumiu.

Eles não esperavam o que estava por vir. No dia 3 de janeiro, Sabará, então secretário adjunto, voltou pra Praça, mas dessa vez estava acompanhado. O sonho da casa própria? Um empregador? Um assistente social? Piada. Estava com uma multidão de GCMs que retiraram toda a população de rua da região e socaram embaixo de um viaduto. Então botaram uma cerca verde para tampar a visão e escondê-los. Assim narraram a história os próprios.

Definitivamente, eu não believe que esse Sabará é good people.

A filantropia que rende 750 mil em uma noite

Crise? Desemprego? Salário atrasado? Reformas? Ah, isso é bobeira, cara. Imagine nesse cenário você conseguir 750 mil reais DOADOS. Não, mas não é do governo. Também não é o Criança Esperança e nem o Teleton. É a Arcah.

“O bom trânsito com figuras influentes da cidade, claro, é sempre uma ferramenta crucial — especialmente para conseguir dinheiro. Na quinta (12), estava marcado um jantar na Casa Fasano, no Itaim, com 550 convidados. Os convites custaram entre 500 e 2 000 reais. Haveria um leilão de trinta obras de arte doadas por Raquel Arnaud e Marilia Razuk, donas de importantes galerias na capital. Apesar das facilidades dos bons contatos, o empenho individual é fundamental. “Só vou ter vida pessoal quando a sede em Botucatu estiver funcionando”, comenta Sabará”, trecho da reportagem da Veja São Paulo sobre a ONG.

Será que ele vai ter “vida social” algum dia?

Sobre o “ensaio”

A reflexão da escritora Susan Sontag, que está no livro Fotografia, é bastante revelador sobre essa faceta de “somos todos iguais” no mínimo desonesta que a campanha tenta criar no público.

“O limite do conhecimento fotográfico do mundo é que, conquanto possa incitar a consciência, jamais conseguirá ser um conhecimento ético ou político. O conhecimento adquirido por meio de fotos será sempre um tipo de sentimentalismo, seja ele cínico ou humanista. Há de ser um conhecimento barateado – uma aparência de conhecimento, uma aparência de sabedoria; assim como o ato de tirar fotos é uma aparência de apropriação, uma aparência de estupro. A própria mudez do que seria, hipoteticamente, compreensível nas fotos é o que constitui seu caráter atraente e provocador. A onipresença de fotos produz um efeito incalculável em nossa sensibilidade ética. Ao munir este mundo, já abarrotado, de uma duplicata do mundo feito de imagens, a fotografia nos faz sentir que o mundo é mais acessível do que é na realidade”.

Dessa forma, alguns elementos deste ensaio, realizado pelo fotógrafo Gabriel Wickbold, ficam nus. Quantas dessas celebridades vem se posicionando sobre as constantes violações dos direitos da população de rua em São Paulo, ou em qualquer outra cidade do Brasil e do mundo? Quantas delas se posicionaram sobre a violência da Prefeitura de São Paulo, sob comando de João Doria (PSDB) e seu pupilo Filipe Sabará, no dia 21 de maio, em que centenas de Policiais Civis atacaram e prenderam a população de rua que vive na Cracolândia?

O discurso de “somos todos iguais”, nesse contexto, é apenas retórica publicitária. Todos os dias a população pobre é massacrada, tem seus direitos violados, sob ordens do cara que criou a ONG que agora tenta introduzir esse discurso.

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