Por Isaac Urano

A produção cultural da Ladeira Fuzz, no ponto mais oriental das Américas, não nasce de um manifesto de gaveta; nasce do corre nosso de cada dia, descendo pela ladeira mesmo. Em 2022, numa ladeira entre os bairros de Santa Clara e Castelo Branco, em João Pessoa, um grupo de amigos firmou um degrau para fazer a cultura marginal chegar à galera — e o que era necessidade se transmutou e virou método.

O coletivo Ladeira Fuzz, composto por produtoras culturais, designers, artistas visuais e DJs, opera desde então num território carregado das intersecções da periferia: aquela que a gente não vê na pracinha da cidade do dia a dia, aquela que é produzida por corpos LGBTQIA+, racializados e periféricos e que, enquanto a vida acontece, precisa ao mesmo tempo se sustentar e resistir à lógica que tenta consumi-la sem absorvê-la. Lama, Trexy, Natabacate, Vultra e Yohan formam esse núcleo de um coletivo que perpassa toda a cadeia da produção cultural, desde a curadoria nas artes visuais, passando por design e música e chegando à gestão financeira — tudo operado por pessoas trans que constroem, desde dentro, as condições necessárias para uma cultura paraibana mais diversa.

João Pessoa tem agenda, mas para quem ela é feita? As programações atoladas de investimento da cidade seguem o mesmo roteiro de sempre das festas “sazonais”. O investimento continua chegando endereçado. Enquanto, dentro do espectro da Fuzz, a ballroom e o hip hop são as comunidades que habitam e fomentam, fazer cultura aqui é saber como hackear tais estruturas burocráticas para construir rede, numa cidade onde o incentivo privado quase não chega às margens descentralizadas.

U: Então, a primeira pergunta, para iniciar, é entender como surgiu a Fuzz, como veio o desejo de construir esse coletivo, de criar esse coletivo. E também já pensar um pouco na trajetória da Fuzz até agora.

L: A Fuzz surge em 2022, a partir da nossa vontade. Na verdade, ela ainda nem era Fuzz nesse momento. Surge muito de uma necessidade de gerar renda entre a gente, porque estávamos num momento em que ainda não tínhamos bolsa da universidade. Eu estava morando com Yohan e Nath, e a Naya já estava por lá também; a Trexy também sempre colava. Mas, inicialmente, ela surge a partir de mim, de Yohan e de Nath, que moravam ali naquela casa. E também tem a Dizanaju, que está lá no início, discotecando, e outras pessoas que vão compondo também, como a Dorothy. Então vem muito desse lugar de captar recurso mesmo, dessa necessidade de reconhecer que a gente precisava pagar conta, pagar aluguel, pagar o gás. E aí pensar: o que a gente podia fazer? A gente podia fazer um rolê estilo open house, abrir a casa, chamar algumas pessoas que também vendiam coisas e fazer essa circulação de economia criativa mesmo.

E, consequentemente, a gente pensou em colocar discotecagem, DJ set, oficinas, algumas vezes, e performances nos rolês. E isso realmente gerou uma renda; a gente conseguiu pagar as contas inicialmente. E fomos percebendo que isso levava a gente para um lugar interessante, de produzir com a comunidade que já compúnhamos, da qual já fazíamos parte. E, a partir disso, começamos a entender que fazíamos parte de duas comunidades que já existiam antes desse processo de aquilombamento com a Fuzz: o hip hop e a ballroom. E essas pessoas eram quem frequentava os rolês da Fuzz. E aí saímos da casa, que ficava entre Santa Clara e Castelo Branco, numa ladeira — literalmente numa ladeira — e, por isso, inicialmente surgimos como Ladeira Fuzz.

Esse nome surge numa reunião, investigando mesmo que nome poderíamos dar para esse rolê. E, ao nos conectarmos com o hip hop e com a ballroom, tivemos a potência de tentar também captar recurso através de edital para produzir um festival, que foi o primeiro festival de cultura marginal Paraíba Transversal. O projeto é aprovado, a gente o produz, e eu acredito que a Fuzz surge nesse ímpeto de captar recursos e gerar renda, mas vai se transformando numa forma de produzir cultura marginal no seu processo e fomentar essas culturas que já são produzidas no nosso território, que são o hip hop e a ballroom.

T: Eu vejo assim como um marco para a Fuzz, para pensar como ela surgiu e como foi se tornando o que é hoje: justamente o festival Paraíba Transversal, que a gente escreveu num momento em que estava descobrindo como desenvolver público, como entrar nesse rolê, toda essa complicação mesmo. E foi justamente o festival que juntou tudo isso que a Lama falou da Fuzz: hip hop, ballroom, DJ, cantora; teve feirinha. Acho que foi bem uma coisa que marcou realmente a Fuzz para o que, dali em diante, a gente iria produzir mais.

L: E eu acho que tem também isso dos instrumentos de gestão e de produção de cultura que a gente desenvolve a partir desse festival, porque, até então, não tínhamos ideia de como produzir; aprendemos literalmente na prática. A partir desse processo de necessidade, fomos construindo instrumentos para que pudéssemos profissionalizar esse processo de gestão e produção de cultura marginal. E aí, depois do festival — que foi essa mistura de tudo —, começamos a pensar em fazer rolês mais fracionados, de partes do que estávamos produzindo. E daí surgiu a Besta Fera, que era um rolê mais voltado para discotecagem, VJ e performance. Surgiu o Voz de Risco, que era um rolê voltado para elementos do hip hop, batalha de tag, slam. E surgiu o Circuito Ballroom, inclusive, que produzimos este ano, que é um rolê mais voltado para formação e produção da cultura ballroom.

T: E, fora isso, também teve a exposição Linhas Tortas, que a Fuzz teve como apoio, sempre junto produzindo, composta inteiramente por artistas trans, com boa parte da equipe também de pessoas trans — o que é uma coisa bem rara, quase inexistente aqui na cidade de João Pessoa. E, ao longo de tudo isso, desses eventos que foram surgindo, a gente também sempre foi construindo parcerias com outros grupos, com outros coletivos, com outras ações. E acho que isso é muito importante também para a Fuzz: estar sempre em diálogo com outros meios, sempre criando rede.

L: E também tem a ideia da alocação dos equipamentos, que hoje é a nossa principal linha de apoio. Isso surge a partir da captação de recurso para o festival Paraíba Transversal, quando conseguimos adquirir alguns equipamentos com o dinheiro. E aí passamos a pensar que, quando formos produzir edital, devemos destinar uma porcentagem para coisas fixas que possamos reutilizar em outros projetos, porque isso constrói uma continuidade também. E, a partir disso, começamos a alocar esses equipamentos, com preço normal, com preço social para pessoas negras, trans e periféricas e também de forma gratuita para eventos de ballroom e hip hop, pensando nesse objetivo de fomentar essas comunidades.

U: Pensando nessa trajetória, muita coisa deve ter mudado, tanto pela profissionalização quanto por esse processo de aprendizado na prática. E também, pensando no contexto atual, pós-pandemia, como tem sido fazer cultura em João Pessoa sendo um coletivo com tantos atravessamentos?

L: Eu tenho três pontos para falar sobre isso e vou dividir para organizar melhor. O primeiro é sobre a nossa inserção no mercado, no empreendedorismo. O segundo é sobre o lado mais político, de políticas públicas e culturais. E o terceiro é sobre o público e como produzimos cultura marginal dialogando com o público aqui em João Pessoa.

Então, o primeiro ponto é esse mais institucional, voltado para o mercado, porque desenvolvemos cultura primeiro a partir da captação de recurso público. E esse movimento parte de um fator social muito forte, que é impulsionar culturas produzidas por pessoas majoritariamente LGBTQIA+, racializadas e periféricas. Mas começamos a nos inserir também no mercado do empreendedorismo, visando encontrar mais meios de nos sustentar, de nos inserir nesse mercado cultural nacional e pensar essa profissionalização para além da dependência do Estado. Até porque sabemos que as políticas culturais do Estado têm limites, apesar de estarem avançando muito. E aí nos inserimos na Expo Favela. Participamos, ficamos no top 10 da Paraíba e fomos competir no Expo Favela Brasil. Isso foi um grande marco para nós, porque foi a partir daí que começamos a olhar para o coletivo com um olhar mais estratégico, nessa ideia de hackear esses espaços que não são feitos para nós.

Mas, ao mesmo tempo, o mercado tem dinâmicas muito violentas para os nossos corpos e para a forma como produzimos cultura em comunidade. Ele exige uma lógica mais individualista, mais identitária, mais focada em indivíduos. E dialogar com isso foi muito complexo, mas também importante para entendermos melhor os instrumentos de produção cultural dentro da sociedade e conseguirmos fortalecer a nossa própria forma de produzir. E também pensar em captar recurso de empresas privadas, o que ainda é um processo que estamos investigando.

Depois disso, participamos do Coquetel Negócios, que foi uma feira mais voltada para o mercado musical digital aqui em João Pessoa. Tivemos uma nota muito alta no pitch, 4,75 de 5, o que foi muito bom. Mas não recebemos nenhuma proposta depois. E isso também é uma resposta de como o mercado ainda não está totalmente aberto para esse tipo de produção.

T: E acho que uma coisa que demonstra bem esse caminho que estamos tentando trilhar é a marca de roupa da Fuzz. Ela surge a partir do investimento da Expo Favela, com a premiação que recebemos, com a arte de Nath Abacate. E ela está ali como uma tentativa de criar outras formas de sustentar o coletivo, de fazer circular esse trabalho.

L: E aí, pensando no segundo ponto, que é sobre políticas públicas e políticas culturais, é impossível dissociar cultura de política. Se estamos produzindo cultura, precisamos falar de política cultural e, a partir disso, falar de política de Estado, política partidária também.

Principalmente se pensarmos que, no Brasil, o modelo de políticas culturais públicas se desenvolve a partir de gestões como as do Partido dos Trabalhadores, que estruturaram essa ideia de cultura como direito e não só como produto. E, durante a pandemia, isso ficou muito evidente, porque houve um esfriamento muito grande da cultura territorial, com a desocupação dos espaços públicos. E uma resposta do governo foi a criação dos editais emergenciais, como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo, que foram fundamentais. Inclusive, o festival Paraíba Transversal surge dentro desse contexto. Então, pensar política cultural é pensar na diferença entre política de governo e política de Estado, porque precisamos que essas políticas sejam contínuas; senão, o nosso trabalho fica comprometido.

E existem vários instrumentos hoje: Sistema Nacional de Cultura, Cultura Viva, pontos de cultura, Lei Rouanet, entre outros. E isso tudo mostra um movimento de democratização do acesso à cultura. Então não tem como não reconhecer a importância do governo federal nesse processo de fomento cultural.

T: E aqui em João Pessoa isso fica ainda mais evidente, porque dependemos muito dessas políticas públicas. O incentivo privado aqui é muito difícil de acessar. Conseguir patrocínio, apoio, é muito complicado.

L: E isso também se reflete na ausência de festivais consolidados na cidade. Quando comparamos com Recife ou Natal, por exemplo, vemos que aqui ainda falta esse tipo de investimento contínuo. E, quando existe investimento, ele costuma ir para culturas mais tradicionais ou mais consolidadas. Quando falamos de culturas marginais, LGBTQIA+, periféricas, esse apoio é bem menor.

T: E nem só apoio, mas também adesão do público.

L: Sim, e aí entra o terceiro ponto, que é o público. Temos dificuldade de captação de público, principalmente de pessoas que paguem pelos eventos. E isso tem vários fatores sociais, desde prioridades financeiras até uma dificuldade de valorização da produção local. Muitas vezes, o público prefere consumir artistas de fora do que artistas daqui. Existe uma lógica meio “vira-lata” que desvaloriza o que é produzido localmente.

U: Para fechar, queria que vocês falassem um pouco sobre o futuro da Fuzz. O que vocês imaginam, o que querem construir?

L: Pretendemos continuar nesse processo de profissionalização. Temos movimentado uma ideia de expansão, de conseguir consolidar essa forma de produzir cultura. Estamos buscando nos institucionalizar enquanto empresa, criar um CNPJ, continuar nos inscrevendo em editais e fortalecer esse processo.

T: E continuar fortalecendo as parcerias, as redes. Isso sempre foi muito importante para a Fuzz e vai continuar sendo.

O que a Fuzz deixa claro para todos é que a produção cultural marginal no Nordeste sobrevive de instrumento; vocação é consequência. Equipamentos na base do edital e entender para quais eventos destiná-los não são detalhe logístico, especialmente quando fomentados a partir de linguagens mais recentes ou até marginalizadas dos grandes circuitos de cultura, como a ballroom e o hip hop. Política cultural a preço social ou gratuito, praticada de baixo para cima, antes que o Estado decida se vai chegar, exige muito jogo de cintura — ou, nesse caso, muito cunt e axé. Cada um dos movimentos tocados pela Fuzz é uma tentativa de não depender da fonte máxima burocrática estatal, cheia de um poder infraestrutural mirado em desmobilizar quaisquer corpos fora do plano normativo de cultura. Mesmo assim, a Fuzz segue, no diagnóstico de quanto trabalho ainda custa e resta para existir.