‘Kokuho: O Preço da Perfeição’ transforma o kabuki em drama sobre identidade e exclusão
Indicado ao Oscar 2026, filme de Lee Sang-il reflete sobre tradição japonesa, mérito e o custo existencial da busca pela excelência
Por Hyader Epaminondas
Distribuído pela Sato Company, “Kokuho: O Preço da Perfeição” me surpreendeu menos pelo espetáculo visual e mais pela intensidade contida com que aborda tradição e pertencimento. O filme parte do universo rigoroso do kabuki para falar, sobretudo, de identidade e exclusão, sob a direção de Lee Sang-il. Não se trata apenas da formação de um ator, mas de observar o que acontece quando alguém tenta ocupar um espaço que culturalmente não foi pensado para ele.
Kikuo, de Ryo Yoshizawa, entra no teatro carregando um passado que nunca desaparece por completo. Pelo acolhimento familiar, marcado pela violência, e com a habilidade natural de absorver a tradição, tem o corpo deslocado como território simbólico, lugar onde marcas não podem ser apagadas, apenas ressignificadas.
É nesse embate entre marca, legado e máscara que a narrativa ganha força por meio do mecanismo da maquiagem, elemento central inclusive na indicação ao Oscar, que passa a funcionar como gesto de transformação, como um ornamento de pura estética latente. Cada camada reorganiza a história do personagem, como se tentasse oferecer uma nova possibilidade de existência, enquanto o rosto tingido não oculta, recria.
Há uma tensão permanente entre hereditariedade e mérito, e o kabuki, estruturado pela lógica familiar, valoriza a linhagem como fundamento. Após a proibição de mulheres no século XVII, o teatro passou a ser feito apenas por homens, com os papéis femininos interpretados por onnagata. O talento isolado não garante pertencimento, e é aí que o filme, carregado de ambivalência, sugere que tradição também é mecanismo de exclusão e que o reconhecimento artístico pode coexistir com a rejeição social.
O que mais me chamou atenção foi a forma como a disciplina se aproxima de um destino trágico. A busca pela perfeição não é romantizada, ela exige isolamento, renúncia e uma obstinação que beira a autodestruição. Não há glamour na entrega absoluta à arte, há custo. O título não soa irônico: o preço da perfeição é físico, mas, sobretudo, existencial, é uma arte que surge a partir da desintegração da identidade própria.
Também me marcou o modo como o filme trabalha o olhar, é uma projeção integralmente simétrica, onde tudo parece planejado e organizado para mostrar o cerne humano. Existe a busca por uma imagem ideal, quase uma visão a ser alcançada, uma miragem, e isso desloca a narrativa do campo competitivo para uma dimensão mais espiritual. Não se trata de vencer o outro, mas de atingir uma forma pura. O palco aparece como o único espaço onde identidade e desejo conseguem, ainda que por instantes, se alinhar.
“Kokuho” transforma o kabuki em campo de reflexão sobre o peso de se tornar símbolo e sobre os sentidos que essa condição projeta sobre a arte. Quanto é preciso apagar de si para ser aceito como representação de algo maior? A tradição aparece como herança cultural, mas também como estrutura que molda e limita, em uma obra que compreende que a perfeição estética pode ser alcançada, mas jamais sem consequências.
A tradição como palco e prisão: Entre a máscara e a carne
É um filme frio na superfície, mas atravessado por uma pulsação intensa. A tradição organiza tudo com rigor, enquadra corpos, disciplina gestos, controla silêncios. Ainda assim, por baixo dessa forma contida, os sentimentos se acumulam como calor retido, prontos para escapar. A vingança surge dura, quase mecânica, mas, aos poucos, se contamina de afeto, até que amor e tragédia passem a ocupar o mesmo espaço.
Mesmo com uma abertura avassaladora, o filme consegue se superar a cada sequência, dançando livremente por diversos tons e aderindo a ritmos diferentes conforme os arcos vão se desenrolando em números teatrais. Ao sermos introduzidos ao universo do kabuki, acompanhamos também o amadurecimento da dupla protagonista, não apenas como artistas, mas como homens atravessados por expectativas, frustrações e desejos que não cabem na rigidez do legado que herdaram.
Nada parece casual, os movimentos de câmera e o enquadramento permeiam cada composição de quadro para reforçar essa ideia de ordem, como se o mundo fosse sustentado por uma lógica antiga e inquestionável. Porém, dentro dessa estrutura rígida, há corpos que tremem, olhares que vacilam, emoções que não se deixam domesticar, e a tradição tenta conter, mas o sentimento insiste em atravessar.
O filme observa o espetáculo com reverência, quase com devoção, mas não se limita aos atores em cena. Se contém na delicadeza dos gestos, nos micromovimentos, na precisão coreográfica que transforma cada ação em linguagem. É como se cada pétala de cerejeira fosse filmada com paciência contemplativa, valorizada em sua singularidade. Essa captura da arte se estende aos olhares hipnotizados pela técnica rigorosa do espetáculo. A imersão é tão intensa que nos sentimos dentro do teatro, absorvidos pela densidade ritualística da apresentação.
No centro da narrativa, a tradição herdada converte-se em dilema. Dois irmãos dividem o peso de destinos distintos: de um lado, Ryûsei Yokohama compartilhando o protagonismo como Shunsuke, o herdeiro biológico, e, do outro lado, está Yoshizawa como o talento acolhido pela família após a fratura que marca o início da história. Enquanto o reconhecimento parece fluir naturalmente para o irmão adotivo, o mais velho se fragmenta internamente, tentando encontrar sua própria verdade. Seu percurso é atravessado por um gesto paradoxal de amor e renúncia, sustentado por um apoio incondicional que revela, simultaneamente, grandeza e dor.
Se no palco a arte projeta os sentimentos dos atores, no filme essa projeção se desloca para os bastidores, para a relação entre os irmãos. O que é encenado diante do público ecoa no que é vivido fora de cena. Quando a herança do pai é assumida na representação teatral, o gesto deixa de ser apenas artístico e se torna simbólico. É nesse ponto que tradição, rivalidade e amor se entrelaçam de maneira definitiva.
São quase três horas que passam como três minutos, que, apesar da ficção, se aproximam do documentário pela crueza e pela visceralidade com que retratam essas vidas. O realismo está na insistência em observar o desgaste, o esforço e a solidão por trás do brilho do palco, que demonstra toda a admiração possível e impossível pela arte, através dos olhos completamente emocionados e marejados de desejo, aspiração e tradição.
A consagração em “Kokuho: O Preço da Perfeição” não acontece apenas na execução perfeita do ato, mas no olhar de quem observa a poesia fluindo em tempo real. É o reconhecimento fragmentado entre emoções conflitantes, o impacto no íntimo de quem observa, que transforma a arte em permanência.






