Kaya Conky: a realeza ‘drag pop’ cria novas narrativas
Em uma década, Kaya expandiu a drag pop LGBTQIA+, criando novas estéticas, discursos e experimentações
Por Isaac Urano
É a partir de beats pulsantes, provocações sinceras e uma trajetória construída na força de uma ideia que Kaya Conky se consolidou como um dos nomes centrais da cena drag pop brasileira contemporânea. Vinda do Rio Grande do Norte, a artista ajudou a expandir os limites do que se entendia como performance drag nos circuitos do Nordeste, trazendo para o centro uma energia marcada pelo funk, pela irreverência e por uma presença imagética que nunca se dissocia da música — uma supernova criativa, sem se comedir.
Ao longo de mais de uma década, Kaya Conky foi moldando sons e performances, enquanto alicerçava novos caminhos para a existência de estéticas dentro da cultura pop LGBTQIA+, deslocando a drag para um campo mais amplo de criação, discurso e experimentação. Agora, em um novo momento de carreira, Kaya apronta e costura outras camadas de si — mais reflexivas, mais narrativas — sem abandonar a intensidade das pistas. Sua coroa como realeza do drag pop continua em movimento, mas agora criando novas formas de existir e contar histórias.
U: Tu vens do Rio Grande do Norte, princesa do Nordeste, e o Planeta Foda já teve outras artistas que estão movimentando a cena de lá — mas Kaya é alicerce de uma cena drag pop que vem sendo construída há muito tempo. O que mais tu sentes que mudou nesses anos?
K: Tem uma sensação meio engraçada quando eu penso nisso, porque parece que tudo começou com uma ideia muito específica, lá atrás. E aí essa ideia foi meio que um efeito dominó, sabe? Foi derrubando outras coisas e abrindo caminho. Eu sempre fui muito fã de drag. Acompanhava muito a cena de Natal, desde as drags mais antigas — gente que já fazia acontecer ali. Mas, ao mesmo tempo, eu não me via exatamente naquele lugar. Eu admirava muito, mas não me imaginava fazendo parte daquilo. Quando comecei a consumir mais referências, tipo assistir Drag Race, isso virou uma chave pra mim. Eu comecei a entender aquilo como uma possibilidade, como um formato também, uma linguagem que dava pra adaptar.

E aí, em Natal, naquele momento, não tinha muito essa drag dentro das festas pop — principalmente nessa perspectiva que eu queria trazer, que era mais bagaceira, mais funk, mais “suja”, menos aquela drag mais polida, mais clássica. Então eu meio que pensei: “ok, talvez a maioria das pessoas não vá gostar disso”, mas mesmo assim fui. Confiei muito nessa ideia. E foi muito fluido. Das festas, veio a música. Da música, vieram os shows. E isso foi construindo um caminho que eu sigo até hoje. E Natal foi muito importante nisso tudo. Foi onde eu descobri a arte como possibilidade, onde eu me tornei artista, onde fiz minhas conexões. Tenho muitas amigas de lá — artistas, produtoras, gente que movimenta cultura. Tem alguma coisa ali que é muito especial. E também tem esse lado coletivo, né? Tipo, só quem viveu sabe o que era estar em grupo falando sobre drag, acompanhando tudo, criando junto. Isso forma a gente.
U: A gente vive, mesmo com tantas notícias trash, um momento em que artistas LGBTQIA+ têm ocupado cada vez mais espaço — e isso não quer dizer que não haja disputas, inclusive políticas. Como tu enxerga a importância dessas identidades hoje dentro da música e da cultura? Onde tu sentes que teu trabalho também tensiona ou afirma essas existências?
K: Eu me vejo muito nesse lugar, sim. Porque, no fim, tudo volta pra isso que eu falei: uma ideia e acreditar nela. Eu tive essa ideia há uns dez anos e apostei tudo nela. E até hoje eu vivo disso. Eu trabalhava com telemarketing, saí do emprego, peguei o dinheiro que tinha — vale-refeição, crédito — e investi em equipamento, em estrutura. Tipo assim, eu realmente coloquei tudo nisso. Porque eu sabia que podia dar certo. E hoje eu vivo dessa ideia, e isso é muito gostoso. Mas também é importante falar que sucesso não é só o que as pessoas imaginam, né? Não é necessariamente ter carro, casa, essas coisas que normalmente associam com “dar certo”. Tem um outro tipo de sucesso, que é você conseguir viver do que você faz, ter uma vida que faz sentido pra você, ir construindo isso aos poucos. Então eu acho que tem uma potência aí também — de mostrar que é possível. Que dá pra investir numa coisa sua, numa ideia sua, e construir um caminho. E isso, pra mim, já é um posicionamento. Já é uma forma de tensionar, sabe?

U: Teu som tem a performance, tem o imagético e a presença. Quando tu pensas na tua música, ela começa mais pelo som, pelo corpo, pela visualidade ou por uma ideia? Como essas camadas vão se encontrando no teu processo?
K: Eu acho que começa muito pela atmosfera. Sempre tem um tema, uma história. Eu sou muito apegada a essa ideia de contar uma história com a música. Mesmo quando eu fazia coisas mais soltas, mais fragmentadas, já existia ali uma tentativa de criar uma narrativa, nem que fosse mínima. Com o tempo, isso foi ficando mais claro. Quando eu comecei a trabalhar projetos mais fechados, eu pensei muito nisso: cada música é um ambiente, cada música é um universo. E aí vem o visual, vem a performance, vem tudo junto. Então, quando eu penso na música pronta, o que mais grita pra mim é o cenário, sabe? A sensação que ela cria. É como se ela já viesse com um espaço próprio. E aí eu vou construindo em cima disso: figurino, visualizer, performance — tudo meio que orbitando essa atmosfera inicial.
U: Tu estás num momento de lançamento de um novo álbum, e isso sempre marca uma virada na trajetória de um artista. Que universo tu sentes que estás criando agora?
K: Desde o começo, a Kaya foi muito construída nessa energia da festa — do funk, da bebedeira, da excitação, desse lugar mais noturno. E eu amo isso, de verdade. Mas é algo que eu venho fazendo há muito tempo. E agora eu senti vontade de expandir. Esse álbum ainda tem essa Kaya que as pessoas conhecem — provocativa, intensa — mas tem também outras camadas. Eu comecei a trazer outras formas de olhar pras coisas. Outras formas de falar sobre desejo, sobre vida, sobre experiências. Não é que eu esteja abandonando o que eu fazia antes, mas eu quis abrir espaço pra outras percepções também. Trazer uma Kaya um pouco mais reflexiva, que observa outras coisas além da festa.
U: Queria entrar um pouco no teu processo criativo: o que costuma estar no teu “moodboard” quando tu estás criando? Referências musicais, visuais, afetivas… o que tem te atravessado ultimamente?
K: Tem muito de experiência pessoal, assim. Tudo que eu vivi nesses anos — minhas experiências com festa, com sexo, com desejo, com vaidade, com ego — sempre atravessou muito o que eu fazia. E isso continua, só que agora de um jeito mais amplo. Eu comecei a perceber outras coisas em mim também. Outras formas de viver, de sentir, de pensar. Então o que está me atravessando agora é isso: observar esses outros lados e trazer isso pra música. Às vezes é uma sensação, às vezes é uma reflexão que fica na cabeça. Tipo: “nossa, eu penso muito sobre isso”. E aí isso vira música. Esse álbum está muito nesse lugar: de pegar essas percepções e transformar em algo que talvez outras pessoas também reconheçam nelas mesmas.

U: E olhando para o que vem pela frente, o que aparece no horizonte da Kaya? Que caminhos tu sentes vontade de explorar depois desse álbum?
K: Eu quero muito que a Kaya vá para outros lugares. Para além da noite, da festa. Eu amo ser música de balada, de academia, de rolê — mas eu também quero estar presente em outros momentos do dia das pessoas. Outras atmosferas, outros contextos. Quero alcançar novas pessoas também. Porque eu amo o que eu faço — amo música, amo drag, amo comunicação. E sinto que ainda tenho muita coisa pra trocar. Esse álbum já é um passo nesse sentido. É uma Kaya mais desenvolvida, mais expandida. E eu estou bem animada com o que pode vir a partir disso.
No fim, o que Kaya propõe é uma expansão, uma ampliação de repertório, uma mudança de eixo: tirar a experiência drag de um território previsível e afirmar sua potência como linguagem viva, em constante reinvenção. Ao incorporar novas camadas sem romper com aquilo que a constituiu, Kaya entende que continuidade é transformação — a permanência e a honra da ideia que a move, seu impulso.
Seu trabalho, que operava como um convite à explosão coletiva nas baladas, nos “esquentas” e nos “afters”, agora abre espaço para atravessar outros momentos do dia. Kaya quer nos acompanhar — e, talvez, retribuir por termos acompanhado suas reinvenções. É nesse instante que ela tensiona não só a si mesma, mas o próprio campo em que está inserida — o campo que ajudou a construir. É hora de sugerir outros ritmos, outras presenças e outras formas de circulação.
O que se desenha a partir daqui não é uma ruptura, mas um desdobramento — e, como toda boa narrativa em expansão, ainda está longe de se encerrar.



