Por Ana Paula de Deus

A Paraíso do Tuiuti faz história ao trazer para a avenida um enredo que transcende o espetáculo e se torna um ato de resistência. A escola de samba mergulha na trajetória das pessoas trans ao longo das gerações, escancarando as dificuldades impostas por uma sociedade que ainda luta para reconhecer e respeitar suas existências.

Com o tema “Quem tem medo de Xica Manicongo?”, a Tuiuti presta uma homenagem àquela que é considerada a primeira travesti não indígena do Brasil. Mas essa homenagem não se limita ao passado: ela ecoa no presente através da história e da luta de Jovanna Baby, uma das grandes personalidades desse desfile.

Jovanna Baby é uma das figuras mais importantes do movimento trans no Brasil. Fundadora do Movimento Trans Político e Organizado do país, criou, em 1990, a ASTRAL (Associação de Travestis e Liberados), a primeira e única rede exclusivamente voltada para pessoas trans nas Américas.

Sua trajetória de militância sempre esteve marcada por enfrentamentos diretos contra o sistema opressor. Em 1992, foi a primeira mulher trans a ser autuada por vadiagem, pelo artigo 59 do Código Penal, e, em um ato de coragem, invadiu o gabinete do então secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, exigindo o fim da perseguição, das prisões arbitrárias e da violência policial contra a população trans. Sempre à frente das lutas, lançou, em 1995, a primeira carteira de nome social do Brasil e, no mesmo ano, fundou a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Na foto, em 1993, Celia Szterenfeld, Beatriz Senegal, Jane Di Castro, Jovanna Baby e Elza Lobão

Em 2014, criou o FONATRANS (Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros), reforçando a interseccionalidade entre raça e identidade de gênero nas discussões políticas. Sua atuação foi além das fronteiras do movimento trans: foi a primeira mulher trans a integrar o Comitê Nacional Gestor de AIDS do Ministério da Saúde e organizou encontros anuais para travestis atuantes na prevenção do HIV. Em 2005, reuniu 250 travestis de todos os estados do Brasil no Hotel Guanabara, no Rio de Janeiro, e idealizou a primeira marcha trans do país, um marco histórico que percorreu o trajeto da Candelária à Cinelândia, ecoando um grito coletivo pelo direito à vida e contra a violência.

Agora, ao ser convidada pela Paraíso do Tuiuti para desfilar no enredo sobre Xica Manicongo, Jovanna Baby simboliza a continuidade dessa resistência histórica. Ela reconhece a importância desse momento como um passo essencial para tirar a população trans da marginalização imposta pela sociedade. Em suas palavras:

“Desfilar na Tuiuti é um arrebatamento. É a reparação começando. Ainda que essa exposição não mude tudo, ela coloca em evidência a nossa luta, nossa história e nosso povo. A sociedade precisa conhecer essa temática, entender que fazemos o Carnaval, que trabalhamos nos bastidores, construímos fantasias deslumbrantes, mas seguimos invisíveis e ignorados.

Foto: Acervo Jovanna Baby

Esse convite da Tuiuti é um ato de coragem, uma afirmação de que podemos, sabemos e só nos falta oportunidade. Agradeço ao presidente Tor, ao carnavalesco Jack Vasconcelos e a toda a comunidade da Tuiuti por desafiar o sistema racista e transfóbico e levar para os lares brasileiros, ainda que pela televisão, a nossa resistência.”

O desfile da Tuiuti, ao dar protagonismo a Jovanna Baby, reforça um marco para o movimento trans brasileiro. A história de Xica Manicongo se entrelaça à de Jovanna e de tantas outras que vieram depois dela. Mais do que uma homenagem, esse enredo é um chamado para que a sociedade enxergue, respeite e ofereça oportunidades reais à população trans. É a reafirmação de que, apesar de todas as barreiras, a resistência continua: forte, vibrante e inegociável.