Pague o salário e o 13º dos trabalhadores e trabalhadoras da Educação de Minas Gerais!

Educação é a forma como preparamos as novas gerações para viver em sociedade, em todas as dimensões da vida. Infelizmente, o governo de Minas Gerais, mais voltado para os negócios Zema do que para a educação, não tem essa compreensão. Em meio à pandemia, com a Organização Mundial de Saúde recomendando o isolamento social como única medida eficaz para evitar milhares de mortes, o governador resolveu reabrir as escolas no dia 14 de abril com o propósito de planejar as atividades remotas para estudantes da Rede Pública Estadual. O que ele e sua equipe querem, a todo custo, é “garantir a continuidade dos estudos”, nas palavras da secretária de Estado da Educação Júlia Sant`Anna. Que ensino será garantido? E quais aprendizagens? Em quais condições?

O grande mestre Paulo Freire dizia: “… ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção…”. Como seguir com o currículo normal de cada ano de ensino como se não estivéssemos em meio a uma pandemia, com decreto de calamidade pública e nossas vidas ameaçadas? Que condições serão propiciadas no sentido de garantir o processo de construção de conhecimentos e não uma simples transferência de informações meramente conteudista, independente da pessoa que apreende, bem típico de uma educação bancária?

Está em voga aproveitar a pandemia para impor projetos já desejados anteriormente. Retirar direitos da classe trabalhadora. Precarizar o ensino público ainda mais para privatizar logo e descredenciar o trabalho profissional docente. Ao final da pandemia, se a farsa prevalecer, vai parecer que docentes podem ser perfeitamente substituídos por um notebook. Não querem ensino de qualidade para a maioria da população. Essa vai continuar sendo reservada à elite.

O governador de Minas mobiliza a comunidade escolar para desenvolver atividades remotas em período de pandemia. Segundo ele, a prioridade é o teletrabalho. A medida anunciada retira do ensino-aprendizagem sujeitos fundamentais: estudantes e docentes. As comunidades escolares não foram convidadas a pensarem as saídas para esse momento e nem o que consideram importante ser ensinado e aprendido. Um grupo que se acha iluminado pensou o que deve ser ensinado, como será ensinado, por qual plataforma. A Secretária de Educação disse que docentes poderão incrementar, como se isso fosse uma liberalidade. Estudantes não foram considerados. Minas Gerais ainda não resolveu o problema do acesso ao ensino. Mas prevalece, como em todo o Brasil, o problema da qualidade do ensino, o que gera uma exclusão por dentro do sistema educacional.

É preciso fazer um levante contra a volta às aulas nessas condições. Nas escolas por onde ando, em virtude dos estágios supervisionados, constitui exceção as que conseguem oferecer equipamentos em funcionamento para a simples exibição de um filme, com áudio e vídeo. Precarizadas como estão as condições de trabalho na rede estadual de ensino, terão os/as docentes as condições materiais para o desenvolvimento do trabalho: notebooks, plano de internet, microfones? Como se sentirão tendo que se expor mediados/as pela tecnologia, tentando ensinar à distância, um conteúdo que não produziram? O que é mais provável é que essa medida vai produzir mais adoecimento docente, que já é bem grande.

Se do lado dos/as professores/as a situação não é fácil, o que pensar das condições de vida de estudantes da rede básica de ensino. As condições de sua casa permitem a educação à distância? Moram com quantas pessoas? Em quantos cômodos? O Estado de Minas Gerais vai oferecer um computador e um plano de internet para cada estudante? Muita gente tem acesso a internet pelo celular, com dados muito limitados. Mas milhares não têm acesso a nada. O governo propõe a quem não tiver acesso a um ambiente virtual de aprendizagem que passe semanalmente na escola para pegar tarefas impressas. Isso demonstra que essa volta às aulas não é séria. Além de perigosa, porque as escolas abertas requerem um contingente grande de pessoas circulando.

Mas para além das faltas materiais, de formação e de equipamentos o que me parece mais importante pensar é sobre o significado do momento em que vivemos. Que aprendizagens levaremos deste período? Será que o repasse de conteúdos descontextualizados, preparados fora do contexto de cada escola é a solução? Como falaremos com essas crianças, jovens e adultos sobre o que está acontecendo? Como falaremos sobre os riscos reais, sobre a vida e a morte? Como falaremos sobre as perdas que teremos, de todas as naturezas? Com toda a certeza, os impactos da pandemia serão intensos na formação de nossos estudantes e o melhor a fazer é reconhecer esta realidade. Precisamos ter sinceridade ao falar com as crianças e adolescentes. Esse comportamento é mais importante do que desperdiçar nosso tempo falseando a realidade utilizando o mundo virtual. Nossas crianças e adolescentes estão sendo impactadas também pela perda de entes queridos, pela desestruturação econômica de suas famílias, por meio do desemprego de suas mães e pais. Tudo isso já não será suficiente?

E para as famílias, não está suficientemente difícil ter que reorganizar toda a vida, pensar nos riscos que corremos, nas pessoas queridas, refazer toda a organização do trabalho doméstico, preparar mais refeições em casa, aumentar a vigília com a limpeza? Certamente teremos mães ainda mais sobrecarregadas. Isso para falar dos problemas de quem tem casa, de quem tem comida. E as famílias que perderam seu ganha pão, que perderam o lanche da escola, que estão passando fome, que estão passando frio, que não tem água para beber ou lavar as mãos?  Como poderão se ocupar com conteúdos escolares neste momento? Nós vamos desconsiderar essa realidade e vamos seguir com nossos conteúdos? Para quê? Para quem? Por quê? Como? Quem ganha com isso?

A nota da Associação de Docentes do Colégio Pedro II nos inspira a pensar sobre os desafios dos tempos atuais:

Não somos contra o ensino à distância, muito menos defendemos a ausência de conteúdo escolar. Porém, vivemos um momento delicado, que nos obriga a olhar tudo de outro modo, inclusive nossa forma de educar. Pessoas adoecem a todo momento. Precisamos cuidar de nós e dos que amamos. Isso também é aprendizagem.

Obrigar professores a produzirem conteúdo, pressionar alunos a estudarem agora os fará adoecer. Dedique-se ao que lhe faz bem. Se lhe faz bem estudar as matérias da escola, estude, mas por prazer, não é tempo de cobrança. Não se permita contaminar com o vírus conteudista, com o falso heroísmo da EAD, seja humano, seja crítico.

Como muito bem nos alerta essa nota, libertemos do vírus do conteudismo e do mito da EAD. Não há saídas fáceis para conjunturas complexas, graves e difíceis como a que vivemos. Ao governador do Estado de Minas Gerais só nos resta exigir que cumpra suas responsabilidades. A rede estadual de ensino está em greve por direitos. Não recebeu o 13º salário do ano de 2019. Não recebeu ainda o salário de abril até o momento. A categoria se encontra em tão má situação que o Sindicato Único dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Educação na regional Uberlândia está fazendo uma campanha pública para doação de cestas básicas para ajudar professoras e professores que estão necessitando. A falta de pagamentos gera muitos prejuízos econômicos e psicológicos a esses e essas profissionais da educação de Minas Gerais. O governo do Partido Novo, que de novo não tem nada, implementa a velha política das elites contra os/as trabalhadores/as.  As aulas devem retornar quando for seguro, com garantia do mínimo de qualidade e sem precarizar e adoecer a comunidade escolar.

Afinal, queremos uma escola como sonhou o nosso querido professor Tiago Adão Lara:

Onde a ideia não amarre, mas liberte;
A palavra não apodreça, mas aconteça;
A imaginação não desmaie, mas exploda;
O pensamento não repita, mas invente um saber novo que é do povo.
Escola, oficina da vida que se faz saber do bem querer.

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