Arte: Luiza Guedes

Uma pessoa me escreveu dizendo que devemos parar de fazer uso político da morte de Marielle Franco para que ela possa descansar. Fiquei me perguntando sobre como lidar com essa situação.

Apesar de não ser religiosa, penso que é preciso considerar essa necessidade de paz, mas não existe paz sem justiça. Como poderíamos deixar de evocar esse grito e essa necessidade de justiça por Marielle e por Anderson? Como poderíamos deixar de perguntar quem mandou matar Marielle? E por quê? Mataram nossa irmã, mulher, mãe, nascida e criada na Favela da Maré. Mataram nossa irmã de origem pobre que rompeu fronteiras, chegou à universidade e escreveu uma dissertação sobre a Unidade de Polícia Pacificadora, as UPPs.

Mataram nossa irmã negra que teve a ousadia de ocupar uma vaga na universidade, já que esse não é o lugar que está reservado socialmente às mulheres negras no Brasil. Mataram nossa irmã, mesmo em uma sociedade lgbtfóbica, ousou amar outra mulher e contar pra todo mundo sobre seu amor.

Marielle ousou ser de esquerda, ser do Psol e exigiu não ser interrompida, mas foi. Todas nós fomos e continuamos sendo interrompidas. A política que prevalece no Brasil é a dos homens velhos, ricos e brancos que não suportam Marielles. Condenam todas as que levantam a voz para lutar por direitos. E hoje, 8 de dezembro, são 1000 dias sem ela. São 1000 dias sem repostas às perguntas: quem mandou matar Marielle? E por quê?

O momento que vivemos é muito difícil. Se Marielle nos vê, ela também chora conosco. Choramos por Talíria, que mesmo sendo deputada federal do Rio de Janeiro, não tem segurança para permanecer no seu território. Choramos pelas mulheres eleitas em 2020 que também estão ameaçadas: Carol Dartora, Ana Lúcia Martins, Duda Salabert e Suéllen Rosim. Choramos por Miguel e sua mãe Mirtes, por Beto e sua família. Choramos pelo assassinato das primas Emily e Rebeca, mortas na porta de casa por tiros de fuzil e por tantas outras.

Por mais que Marielle tenha tido uma vida potente, não temos como desconsiderar  o fato de que estamos marcando os 1000 dias do seu assassinato e de Anderson. Não é que tudo estava bom, havia muito a transformar, mas agora não há nenhum limite. O golpe contra Dilma e o assassinato político de Marielle Franco são marcos de um outro momento da História do Brasil.

Mas, nós somos sementes de Marielle e seguimos semeando um projeto de bem viver para as maiorias. Precisamos reconhecer esse terreno com condições para o plantio não muito favoráveis: racismo, machismo, misoginia, capacitismo, pandemia e bolsonarismo. Nas emergências em que nos encontramos, lembro de uns costumes em comum na região em que moro, no Triângulo Mineiro, a prática do mutirão. Os/as mais velhos/as contam que, quando passavam por alguma situação difícil na roça, eles/as faziam uma “traição”, ou seja, chegavam de surpresa para dar uma força no trabalho da roça e da casa. Colocavam tudo em dia, juntos/as e em mutirão.  A vida das maiorias está muito difícil e não temos promessa de solução rápida. Sabemos que vai depender muito do nosso trabalho coletivo, da nossa força, da nossa coragem, da nossa aliança e da nossa persistência, talvez até  para fazer muitas “traições”.

Todos/as que lutam por justiça têm que reconhecer a gravidade do momento em que vivemos e entrar nessa confluência necessária para a transformação. Vamos precisar da ajuda coletiva. Mataram a nossa irmã Marielle, choramos por ela e por tudo que está acontecendo no Brasil e ainda seguimos em luto por tantas perdas. Mas, a partir dos costumes em comum, da generosidade, dos ideais de coletividade e de transformação social nos esperançamos, juntando ideias e ações para fazer mutirão.

Amanhecemos e anoiteceremos por Marielle!

Marielle, semente.

Marielle, presente!

Hoje e sempre.

 

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