Certos temas a respeito da comunidade trans parecem ser cíclicos: uso de banheiros, hormonização em crianças, estereótipos e ideologia de gênero. Nunca conseguimos avançar de fato nas discussões, complexificá-las e expandi-las, isso porque precisamos retornar ao básico sempre e explicar às pessoas cis o porquê determinada questão é de um jeito e não de outro. A nossa política atual, sob o pretexto de uma suposta ideologia de gênero, não colabora – nem colaborará.

O tema da vez (mais uma vez) é a presença de pessoas trans nos esportes. Recentemente, o projeto de lei 346/19 foi retomado e será votado pela Assembleia Legislativa de São Paulo. O projeto propõe que o sexo biológico seja o único critério para definição do gênero dos atletas em competições. Isso não só é discriminatório, como também será desastroso.

O projeto propõe que o sexo biológico seja o único critério para definição do gênero dos atletas em competições. Isso não só é discriminatório, como também será desastroso.

Quando falamos em trans nos esportes, há dois pontos que sempre são citados: a questão hormonal e a questão da estrutura física.

No que diz respeito à questão hormonal, é importante que se saiba que o Comitê Olímpico Internacional já estabeleceu critérios para avaliação. Em caso de mulheres trans, é determinado um nível de testosterona baixo e ele precisa estar assim por no mínimo 12 meses. Todas as atletas trans atualmente que competem estão dentro da lei. Seus hormônios estão na mesma faixa que uma mulher cis (por vezes até mais baixa). A testosterona, que seria uma vantagem, não é mais. Por outro lado, e se pensamos em casos de homens trans? Eles, que de acordo com o critério do sexo biológico teriam que competir com mulheres cis, teriam vantagem sobre elas, uma vez que muitos fazem uso de testosterona. Parece justo? Ou apenas homens trans que não se hormonizam poderiam competir? Isso seria um absurdo, não só fundado uma política discriminatória e excludente como também controladora.

“E se pensarmos em casos de homens trans? Eles, que de acordo com o critério do sexo biológico teriam que competir com mulheres cis, teriam vantagem sobre elas, uma vez que muitos fazem uso de testosterona. Parece justo?” 

O segundo ponto é a estrutura física. Há quem argumente que mulheres trans são naturalmente mais fortes, a estrutura óssea seria diferente ou a composição corporal como um todo as colocariam em vantagem. Esse é um argumento interessante. Ele tem um problema, e tem um acerto.

O problema aqui é que se parte do pressuposto de que todos os corpos cisgêneros são idênticos. De que todos partem de um mesmo lugar e estão competindo de igual para igual. Não existe um corpo cis padrão e idêntico. As diferenças corporais, as possíveis vantagens entre um corpo e outro, fazem parte do esporte, fazem parte da competição.

Ekaterina Gamova. Foto: Divulgação

Pensemos no vôlei. Ekaterina Gamova é uma jogadora de vôlei da Rússia. Ela é considerada uma das melhores jogadoras de todos os tempos. Ekaterina tem 2 metros de altura. No vôlei, a altura é uma das características físicas mais importantes. Eles tentam encaixar as jogadoras em determinadas posições de acordo com a altura delas, mas ainda assim isso não garante que a meio de rede de um time tenha exatamente a mesma altura que a meio de rede do outro tipo para que esteja todo mundo competindo de igual para igual.

Paralelamente, temos Yoshie Takeshita. Ela é uma das jogadoras de vôlei mais baixas do mundo, com 1,59 de altura. Ambas mulheres cisgêneras. Elas não estão partindo do mesmo ponto. É evidente que a Ekaterina tem mais força, tem uma estrutura corporal diferente da Yoshie.

Yoshie Takeshita. Foto: Divulgação.

Tiffany Abreu. Tiffany talvez seja uma das poucas atletas trans que as pessoas conheçam, ela possui 1,95 de altura. Há pouco tempo estavam discutindo se Tiffany deveria ou não competir no time feminino de vôlei (cíclico rs).

Pensemos: todas as atletas mencionadas estão partindo do mesmo ponto? Não. Todas têm a mesma força? Não. “Ah, mas é diferente, a força entre mulheres cis é diferente entre uma mulher trans”. Não. Não existe uma força feminina. Isso faz do discurso que constrói o homem sempre como mais forte e superior. Força é relativo. Somos fortes em relação a alguém. “Ah, mas a Tiffany ainda assim é diferente”. Isso já começa a soar meio transfóbico. Mas ok, ela é diferente, mas seja qual for as características que fazem ela diferente, ela não faz diferença no vôlei. Se tem uma característica física que no vôlei conta como vantagem, essa característica é a altura, e a altura varia entre as próprias mulheres cisgêneras. A força entre as mulheres cis também varia.

“O problema aqui é que se parte do pressuposto de que todos os corpos cisgêneros são idênticos. De que todos partem de um mesmo lugar e estão competindo de igual para igual. Não existe um corpo cis padrão e idêntico. As diferenças corporais, as possíveis vantagens entre um corpo e outro, fazem parte do esporte, fazem parte da competição.“

Mas é inegável que toda essa discussão possui seu ponto de coerência.

Se no vôlei ser trans não parece fazer diferença, em outros esportes pode ser que faça. MMA é um exemplo. Essa é uma luta que envolve diretamente o corpo. Embora haja categorias, é possível que haja mulheres trans muito maiores e mais fortes que mulheres cis. A discrepância dentro de uma mesma categoria pode ser muito grande. E aqui é possível que haja uma vantagem.

No MMA, podemos citar Anne Veriato. Anne é uma lutadora trans que se recusou a competir na categoria feminina, pois ela considerou que seria covardia, uma vez que se entende muito mais forte do que as mulheres cis. Nesse esporte, isso faz sentido.

Mas ainda assim, não é óbvio. Nem toda pessoa trans começou a se hormonizar depois dos 30, com o corpo totalmente desenvolvido. Há pessoas que começaram jovem e não se beneficiaram disso.

Nem toda pessoa que nasceu com pênis necessariamente é forte. Há homens cis pequenos, fracos. Mais uma vez: não existe o corpo masculino cisgênero padrão onde todos são sempre mais fortes e vantajosos em todos os esportes. Essa é uma ideia sexista onde a fêmea é sempre posta como inferior em todas as situações.

Por fim, é importante que a gente tenha em mente que ser trans, em específico uma mulher trans, não necessariamente sempre a colocará em vantagem. Pensem na ginástica artística: esse é um esporte em que ser baixo é o desejado. Mulheres trans altas estarão em desvantagem nesse caso. Cada esporte tem sua especificidade. Esporte não é só sobre biologia, mas sobre treino, técnicas, estratégias. Não existe só vantagem física, mas também econômica. Há vários fatores envolvidos. O próprio uso de hormônios sintéticos pode comprometer a saúde e performance de atletas.

“Esporte não é só sobre biologia, mas sobre treino, técnicas, estratégias. Não existe só vantagem física, mas também econômica.”

Mas então, o que pode ser feito? Vamos ter que pensar cada caso como um caso? Sim. O que não pode é simplesmente proibir toda pessoa trans de competir em esportes. A exclusão contribui com o estigma que já é carregado por pessoas transgêneras e endossa a necropolítica que dita nossas vidas e nossos direitos.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

História Oral

Censura e perseguição contra Educadores

Ivana Bentes

Karol Conká não é Odete Roitman

transpoetas

Caminhadas marginais: 20 de fevereiro e a luta de corpos transmasculinos

Cleidiana Ramos

Torço para descobrirmos a força da gargalhada

Márcio Santilli

Viva o Museu Vivo dos povos tradicionais de Minas Gerais

Bruno Ramos

Salvador da Rima, a truculência da PM e os desafios do Funk

Álamo Facó

A fundação do Rio e o início do fim

Renata Souza

Epidemia de feminicídios: as mulheres querem viver, não sobreviver!

Juca Ferreira

Até quando a morte e seus adeptos darão as cartas no Brasil?

História Oral

Por que o sistema financeiro quer a autonomia do Banco Central?

Márcio Santilli

Titulação de quilombos repara injustiças e reconstrói relações

Daniele Apone

Que tal a gente desaglomerar de vez?

Márcio Santilli

Com as próprias mãos: reflorestando a Asa Norte

Bancada Feminista do PSOL

Por que a renda emergencial é tarefa do feminismo popular?