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Convivo diariamente, aqui em Brasília, com hipócritas que bradam contra a corrupção, mas tiveram as campanhas financiadas pelas empreiteiras da Lava-Jato; que atacam os direitos dos casais do mesmo sexo e suas famílias em nome “da família”, mas mantêm amantes; que dizem que “bandido bom é bandido morto”, mas respondem a vários processos na justiça; que pregam o ódio contra as minorias em nome de quem pediu “amar ao próximo como a ti mesmo”; que querem fazer uma “reforma política” para garantir a própria reeleição. Hipócritas, mil vezes hipócritas!

Pois bem, quando o tema é a Venezuela, a hipocrisia chega a níveis obscenos.

Como qualquer pessoa informada sobre as minhas opiniões sabe, eu sou contra a ditadura de Nicolás Maduro. E não agora, porque ficou feio; há muitos anos que denuncio publicamente esse regime antidemocrático (o que não significa apoiar os setores tão antidemocráticos quanto da oposição venezuelana que a direita brasileira adora). Essa posição contra o ditador Maduro me rendeu críticas de outros setores da esquerda e, inclusive, do meu próprio partido. Mas eu faço esse debate, justamente, porque não sou hipócrita.

Contudo, essa coerência que eu tento sempre manter na minha atuação política está muito em falta na direita brasileira. Eles têm muita cara de pau! Com que autoridade moral podem os defensores do golpe contra a nossa democracia e apoiadores do governo ilegítimo de Temer criticar os golpes de Maduro contra a democracia venezuelana? Como podem falar da fraude constituinte de lá enquanto tramam a fraude eleitoral aqui, mudando as regras das eleições no tapetão? Como podem falar dos “coletivos” chavistas enquanto recorrem às milícias da zona oeste do Rio de Janeiro em suas campanhas? Como podem falar da proscrição de opositores na Venezuela enquanto querem impedir um candidato presidencial que lidera as pesquisas de concorrer e pretendem instaurar uma cláusula de barreira feita à medida do PSOL, da REDE e outros partidos ideológicos ou de opinião? Como podem chamar Maduro de “ditador” (mesmo que realmente o seja!) os que ainda reivindicam a ditadura militar brasileira? Como podem falar em violações aos direitos humanos em Caracas e homenagear Ustra na tribuna do Congresso brasileiro? Como podem falar em presos políticos enquanto mantêm Rafael Braga e outros na cadeia?

Essa gentalha é hipócrita demais! Eu defendo os direitos humanos aqui, lá e em qualquer país do mundo, independentemente do partido que estiver no governo. Sou contra qualquer ditadura, qualquer perseguição, qualquer prisão política, qualquer proscrição (seja a de Lula ou a de Capriles), qualquer golpe (sejam o perpetrado por Temer ou por Maduro), qualquer ato de censura à imprensa. Já esses “homens de bem” que usam o microfone da tribuna para fazer discurso pra mídia falando sobre a Venezuela não têm moral, porque têm dois pesos, duas medidas. E se Maduro, em vez de gritar discursos antiimperialistas e “socialistas” (que são apenas isso: discursos, porque seu governo também é hipócrita), defendesse o livre mercado e fosse amiguinho de Trump, a direita brasileira diria algo sobre os mortos e os presos políticos de lá? Não! Eu sim, como o digo agora, como o disse sempre!

Eles se excitam, com vocação de puxa-sacos do imperialismo norte-americano, com as ameaças contra o governo venezuelano feitas por Donald Trump, o presidente mais ridiculamente parecido a Nicolás Maduro no continente! Trump, que recentemente relativizou a violência de nazistas e racistas em seu próprio país…

A ameaça do magnata americano, óbvio, não se restringe à Venezuela. Para Trump, não há diferença entre o México (cujos habitantes ele trata como “criminosos” e dos quais deseja se separar com um muro), a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Sua ameaça à Venezuela, que, neste momento, enfrenta uma ditadura, pode, em função das estratégias geopolíticas e econômicas americanas (em especial o interesse no petróleo e nas reservas de água doce), a qualquer momento se estender a toda América Latina, como em décadas passadas. Trump é hipócrita quando dirige essa ameaça à Venezuela, por conta da ditadura, mas mantém relações comerciais e de cooperação com outras ditaduras em outras regiões do mundo.

Por isso, nem Trump, nem Maduro. Nem a defesa de uma ditadura dita “de esquerda”, nem a hipocrisia de uma direita egoísta e de inclinações genocidas que não tem vergonha na cara!

 

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