Por Isaac Urano

Na cena alternativa nordestina, entre os frissons da pista de dança, alguns nomes surgem no horizonte como parte de uma rede cultural que atravessa música, bons rolês e experimentação artística. É nesse campo que a gente conhece Janvita, que fomenta horrores por Natal e é presença confirmadíssima em pistas e “gags” culturais da região. Ela é DJ, produtora cultural, performer, inspo, it girl também!

Janvita constrói essa trajetória da vida noturna bem “Babado Forte”, mas com tudo da Cidade do Sol. Nos últimos tempos, passou por line-ups e gigs, e já fez show internacional junto com o grupo Taj Ma House. Saindo da pista de dança e chegando aos palcos, nesse caminho ela também deixa seu dedinho em colaborações com artistas da cena, como em “084”, de LEOA com Potyguara Bardo.

Nesta entrevista, Janvita fala sobre os caminhos que atravessam seu trabalho — e que ajudam a moldar quem ela é — e sobre as múltiplas formas de existir dentro da música, da cultura e da política também. Entre sets, produções e colaborações, Janvita atravessa essa grande pista — a própria vida — como espaço de encontro, experimentação e construção coletiva.

Divulgação / Isadora Aragão

U: Como tu transita entre toda a tua artisticidade? Tem o Taj Ma House, que é aquela performance linda, e tem também a Janvita produtora cultural, que está sempre articulando coisas. São Janvitas diferentes? Como são esses exercícios distintos? E tu acha que um acaba alimentando o outro, seja na subjetividade ou mesmo nas relações práticas de trabalho?

J: O meu trabalho, o meu empenho com a cultura, ele sempre vai ser multidisciplinar. Primeiro porque eu ingresso na noite como DJ, e aos poucos vou me entendendo como realizadora, sempre dentro dessa cena, desse espaço da música eletrônica — principalmente da música eletrônica underground, alternativa — que é feita, realizada, ouvida e apreciada por pessoas LGBTQIA+.

Então, meu vínculo com a cena em si é o que me dá esse aspecto multidisciplinar. Atualmente, de maneira mais recente, eu me coloco como cantora e performer dentro do Taj Ma House, mas eu já vinha há mais de dez anos trabalhando na cena, tanto como DJ quanto, um pouco depois, como produtora cultural. Desenvolvendo eventos, também com o Clube Frisson, sendo uma das sócias de um caso importante de festas aqui de Natal, onde a gente tem como premissa promover bastante a nossa cena — a cena musical alternativa, que não se restringe apenas à música eletrônica, que é o nosso carro-chefe, mas à música no geral.

Nós somos grandes apreciadores de música, e isso nos alimenta bastante.

U: De onde vem essa poiesis hoje? 2026 é ano de eleição, e há um atravessamento. Afeta desde a Janvita cantora e artista até aquela que a gente não vê tanto, a do corre e do cotidiano. Esse lado que geralmente fica fora do palco também se traduz de muitas formas na arte. Queria te ouvir sobre como tu imagina que tudo isso pode se manifestar nas tuas criações e produções. E esse também é um espaço pra tu falar um pouco das tuas perspectivas para um 2026 decisivo para a política.

J: Não tem como escapar da máxima de que, quando nós somos dissidentes — temos corpos dissidentes, somos LGBTQIA+ —, nossa arte é política. Nosso viver é político. Um corpo político, quando se move, desloca tudo, e até o que não seria político passa a ser. Porque muitas vezes a gente não está acostumada a ver corpos como os nossos no cotidiano: seja na lógica do afeto, do romance, do trabalho, dos lugares que a gente ocupa.

E a gente está vivendo um ano de eleição. Eu acho que a gente sempre vai ter grandes desafios, em diferentes escalas. Aqui, quando falo da minha cidade, eu me prendo muito à discussão municipal e estadual, porque a minha luta é de uma cena pequena, uma cena muito local. Politicamente, a gente sempre se atém à forma como os governos e as autoridades enxergam a cultura, como promovem a cultura, quem são os agentes culturais valorizados a partir dessa perspectiva.

E o que a gente encontra é um desafio enorme: agentes culturais locais, artistas locais, são muito subjugados, desvalorizados. Quando contratados, têm seus pagamentos super atrasados; muitas vezes nem são pagos. Em contraponto, a gente vê grandes eventos promovidos pela mesma prefeitura, onde se paga, sei lá, quinhentos mil para o Alok, ou muito mais para artistas como Anitta.

O meu ponto, o meu viés político, sempre vai ser defender a cultura, porque a cultura me salva, sabe? Constantemente. Ela me expande, me mostra novas possibilidades de viver, de conhecer outras pessoas, outras realidades. É um elemento fundamental para o desenvolvimento social de todos nós, dos mais ricos aos mais pobres.

A gente precisa dessa expansão em todos os sentidos — para além do social e do econômico —, porque cultura também é trabalho. Eu também sou uma trabalhadora, e muita gente enxerga isso de outra forma. O meu trabalho, infelizmente, muitas vezes não me paga financeiramente. Ele me dá um retorno simbólico muito gratificante, porque eu vejo um legado sendo criado — não só por mim, mas em coletivo —, mas tem horas que dá vontade de largar. Quando a gente percebe que o esforço não é recompensado, dói, sabe?

A minha luta é essa: fazer com que sejamos recompensados, que a nossa arte seja valorizada. Que toda arte seja valorizada — do grande ao pequeno —, mas principalmente o pequeno, porque são essas pessoas que movem o mercado local, que movem a cultura local, que mobilizam outros agentes da cidade, as pessoas que estão perto.

É muito importante que a gente olhe para os agentes locais de cultura como grandes mobilizadores da sociedade.

Divulgação / Bruno Davim

U: O que a gente encontra no moodboard da Janvita hoje? O que está atravessando tua cabeça de refs e que talvez ainda nem tenha virado obra?

J: Eu encontro no meu moodboard tudo. Acho que vai do contemporâneo ao tradicional. A arte tá aí pra ser sempre estudada, referenciada e reverenciada também. Eu confesso que sou uma pessoa muito apegada a grandes divas, grandes nomes. Tipo Grace Jones, Lady Gaga — são artistas que me mobilizam muito pelo teor artístico. Aí também tem Gal Costa, Maria Bethânia.

E eu tento explorar muito o Taj também, porque é o que a gente tem trazido e investigado artisticamente. Essa coisa mais caricata, ao mesmo tempo homérica, quase gospel, que é esse conjunto de quatro pessoas, esses quatro vocais sobre uma música eletrônica que fala de estar bem. Então a gente traz muito dessa essência de Boney M., Frenéticas, Woodlites também.

É essa energia mais descontraída da música, da música que traz literalmente essa sensação de estar bem, de dançar pra ficar bem, de se divertir numa pista. Eu acho que a dança sempre buscou isso. Acho que a intenção primária da dança sempre foi essa descontração. Com o tempo, com o estudo e com o aprofundamento técnico, ela foi pra muitos outros lugares, com um requinte muito maior. Mas a gente retoma essa intenção primária como a intenção real, a que a gente busca.

Porque eu acho que a gente tá vivendo num mundo tão complicado, com tantas coisas que dificultam a gente relaxar, se descontrair. Tá cada vez mais difícil encontrar esse ponto de leveza. Então a música vem aí, e a dança principalmente, essa vontade de dançar, essa pista de dança como lugar de extravasar.

U: E quando tu pensa na Janvita do futuro, o que aparece? Quais desejos ou transformações tu imagina pra ti e pros planos que vêm aí?

J: A Janvita do futuro tem muita coisa. A princípio, eu tô muito focada no Taj. A gente vai lançar nosso próximo disco no início do segundo semestre e, nesse material, a gente quer fazer uma grande ode à dance music, uma grande ode à pista de dança — que é o lugar onde eu me encontrei, onde eu me fiz artista, onde meus amigos e meus companheiros de banda também se encontraram.

Esse trabalho traz justamente essas pesquisas, essas referências do que é dance music, de como a gente vai dançar. É muita coisa. E, pessoalmente falando, como projeto individual, eu também tenho muitas ideias e desejos, mas isso é um futuro não tão distante — só que, por enquanto, não é a prioridade.

Closing the dancefloor agora… Fica evidente aqui uma trajetória construída numa interseção muito bonita. É um prisma: é tudo isso e mais um pouco. Está nos fios de uma cena que insiste em existir, mesmo diante do perrengue que é fazer cultura, mas sempre com identidade e uma avant-garde que atravessa forte a produção natalense.

Janvita segue ampliando os contornos da própria prática artística — e prometeu, viu? Porque quem não está ansioso para esse álbum do Taj Ma House?

No fim das contas, são caminhadas como essa que continuam ligadas a um gesto simples e fundamental, que precisa permanecer: manter a pista viva, todo mundo seguro, curtindo muito o som. Esse lugar de utopia eufórica, onde se dança, se encontra outras pessoas e se experimenta novas formas de existir.

Que todo dia a gente tenha uma Janvita na cultura, sendo e fazendo cultura brasileira.



Pela jornalista Erika Palomino