Durante cinco dias do último mês, escolas no município de Uauá, na Bahia, suspenderam parte das aulas presenciais por conta da onda de calor; milhares de estudantes do Amazonas ficaram sem aulas durante os meses de seca, que drenaram todo o sistema fluvial utilizado para o deslocamento das populações; no Sul do país, o cenário de suspensão de aulas e impossibilidade de realizar o ENEM se repete, mas ali é o excesso de chuvas que abre crises sem precedentes em diversos municípios.

Uma projeção do Banco Mundial avalia que mais dias com ondas de calor irão afetar o desempenho em português e matemática no Brasil. Em todos os casos, existe uma relação direta entre os impactos na educação e os extremos climáticos, e sem dúvida afetando de formas diferentes os estudantes mais ricos e pobres. O conceito de racismo ambiental refere-se à maneira como as comunidades de pessoas negras e indígenas enfrentam impactos desproporcionais e injustos relacionados ao meio ambiente. Essa forma de discriminação ambiental está intrinsecamente ligada a fatores sociais e econômicos, criando disparidades na distribuição de benefícios e ônus ambientais.

Sem relativizar qualquer desafio enfrentado pelas condições climáticas, basta observar de perto quem são os mais prejudicados em tempestades, deslizamentos ou exposição às ondas de calor. O racismo ambiental é uma face ainda pouco explorada quando debatemos o meio ambiente, e como uma jovem estudante, tenho testemunhado de perto os efeitos prejudiciais desse fenômeno, especialmente em situações como aulas canceladas e salas de aula excessivamente quentes.

Enquanto as mudanças climáticas se tornam cada vez mais evidentes, nossas escolas, muitas vezes localizadas em comunidades mais vulneráveis, sofrem as consequências. Chuvas torrenciais, tempestades e inundações frequentes prejudicam o acesso à educação, pois a infraestrutura muitas vezes não está preparada para lidar com tais eventos. Isso impacta diretamente meu aprendizado, interrompendo o fluxo de informações e dificultando a manutenção de uma rotina de estudos consistente.

Além disso, o desconforto térmico nas salas de aula é uma realidade constante. Em muitas escolas, especialmente aquelas localizadas em áreas economicamente desfavorecidas, a falta de investimento em sistemas de climatização adequados resulta em ambientes de aprendizado extremamente quentes. Isso não apenas torna o processo de aprendizagem desconfortável, mas também pode afetar a concentração e o desempenho dos estudantes. A disparidade na qualidade das instalações escolares é uma manifestação clara do racismo ambiental, pois as comunidades mais pobres enfrentam desafios adicionais devido à negligência sistêmica.

Dessa forma, o racismo ambiental não apenas cria desigualdades imediatas, mas também contribui para um ciclo de desvantagens que impacta negativamente o futuro educacional e profissional das comunidades mais afetadas.

Para combater esse fenômeno, é crucial promover investimentos em infraestrutura escolar que garantam ambientes seguros e propícios à aprendizagem, independentemente da localização socioeconômica. Além disso, é imperativo que as políticas educacionais levem em consideração as disparidades ambientais, buscando formas de mitigar os impactos negativos sobre as comunidades mais vulneráveis.

Não haverá justiça ambiental, nem avanço educacional, sem debater o racismo que permeia e estrutura nossa sociedade.

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