A nova safra de denúncias do dedo-durismo premiado expõe mais uma vez a assimetria da imprensa no tratamento dos acusados. E não se trata aqui de assumir a defesa de quem quer que seja, mas de apontar o desequilíbrio da cobertura, na tentativa de criminalizar alguns mais que outros, com evidentes terceiras intenções eleitorais.

Há uma tendência gritante da mídia corporativista de esconder os malfeitos de amiguinhos & aliados –aqueles que contratam a$$inatura$ de jornai$ e revista$ no atacado (para toda a rede de ensino, por exemplo) ou são mais genero$o$ na distribuição das campanha$ de governo e dos anúncio$ das estatai$.

Esta semana foi pródiga nisso. Numa tacada, o governo loteou, pornograficamente, a verba de mídia entre os parlamentares, permitindo inclusive que fossem direcionadas para suas próprias emissoras – o que, de saída, já vai contra o que reza a Constituição.

Noutro movimento de exímia falta de sutileza, inundou os intervalos do JN com uma propaganda muito mais longa que o padrão, do Banco do Brasil, entre os capítulos da novela do dedo-durismo. É a fatura do silêncio associada ao berrante que a boiada parlamentar sabe ouvir.

Um minuto de comercial na Globo custa US$ 140 mil. É o equivalente a R$ 440.510,00, na cotação de ontem. Sim, a cada exibição. E como $impatia é quase amor, basta fazer as contas e avaliar com que palavras e com que tempo Temer tem sido tratado na cobertura das delações…

A aliança com a mídia corporativista é duplamente benéfica para os veículos.

Para além do que as denúncias apontam (e que, evidentemente, merece apuração e comprovação), Lula e Dilma pagam o preço de terem cutucado dragão com vara curta, ao tentarem criar e bancar critérios (bastante discutíveis, diga-se) para a distribuição da verba de mídia. De outro lado, são vítimas da timidez e dos equívocos de como as políticas de comunicação foram conduzidas nos seus mandatos.

Há uma passagem na fábula política recente que ilustra com primor a queda de braços permanente entre o governo e as grandes corporações da mídia brasileira.

A certa altura da gestão Lula, o então ministro Franklin Martins foi chamado a apresentar um caminho capaz de fazer frente ao achaque permanente das Organizações Globo, sempre alerta e atuante na defesa dos seus interesses.

Franklin propôs a Lula que o governo provocasse uma aproximação com a Record –na sua avaliação, a única emissora capaz de ganhar musculatura e atuar em contraponto, oferecendo uma pauta menos desequilibrada, quiçá, positiva. Era mudar para não mudar. Sustentar o mesmo jogo, em mão invertida, e potencializar a disputa ferrenha que já existia entre as duas emissoras.

Assim foi feito. Nos anos subsequentes, o Governo Federal desaguou um oceano de dinheiro na Record. E isso se traduziu em certa simpatia no temário e no tratamento da pauta jornalística da emissora, seja nos telejornais ou em programas de reportagem.

A lua de mel foi inesquecível –com selfies de lado a lado. Permitiu que a Record se tornasse a Globo cover que virou na última década –da paleta de cores de cenários e vinhetas ao formato dos programas, sem esquecer dos profissionais que foram subtraídos da concorrente a peso de ouro. E os pombinhos (Governo Federal e Record) estavam fadados a serem felizes para todo sempre –no que é mais conhecido como “eterno enquanto dura”…

Em dado momento, já no governo Dilma, a presidenta e o bispo tiveram que enfrentar aquela “dêérre” típica das relações duradouras. Às vésperas da votação da admissibilidade do processo de impeachment pela Câmara dos Deputados, o staff de Dilma fez as contas e concluiu que a água já estava bem acima do joelho. E a presidenta, pessoalmente, foi levada a entrar no circuito do “deixa disso”.

Dilma liga então para Edir Macedo, num diálogo relatado por gente graúda do governo que testemunhou a cena e poderia ser transcrito (em versão algo livre) da maneira que segue.

“Muito obrigada por me atender, bispo. Eu ligo porque nós estamos muito preocupados com os rumos dessa votação e o retrocesso que ela pode representar para o país. Em nome das boas relações que nós construímos com o senhor, a Record e a Universal ao longo destes anos, eu peço a sua atenção e a sua intervenção, pra que tudo que nós construímos não se perca.”

O bispo ouve atentamente, sem dar um pio. “O senhor é um homem muito respeitado pela bancada do PRB e nós contamos com o seu apoio para que ela não deixe o processo de impeachment prosperar.” O PRB é considerado o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus. O partido detém 22 cadeiras na Câmara nessa legislatura. Ao final do relato da presidenta, Edir toma a palavra:

“Presidenta, a senhora sabe do meu apreço e do meu respeito pela senhora. E eu queria que a senhora soubesse que eu vou orar muito pela senhora. Mas a Record é a Record, a Universal é a Universal e o PRB é o PRB. Muito obrigado pela gentileza da sua ligação. Eu desejo boa sorte para a senhora. Passar bem.”

Na votação, a bancada toda, sem exceção, se posicionou a favor da abertura do processo de impeachment.

Moral da história: não se alimenta um monstrinho imaginando que, com o tempo, ele possa virar um anjo. Quando cresce, um monstrinho normalmente vira um monstrão.

O bastidor das relações entre a mídia corporativista brasileira e os governos é um circo de horrores. Lastreado num oligopólio que permite que meia-dúzia de famílias defina o que 90% da população do país ouve e vê (ou, pior: não ouve e não vê) e como cada assunto de importância é tratado e apresentado à opinião pública.

O pano de fundo disso é a falta de instrumentos de controle social que permitam que se tenha um ecossistema de comunicação mais saudável, capaz de assegurar uma pluralidade maior de vozes e interesses no mercado de comunicação –e no acesso à informação como direito essencial.

Não há democracia consolidada no mundo que não regule sua mídia. E enquanto esse tema for tratado como tabu no Brasil, não haverá uma democracia de fato. Porque não existe democracia sem uma mídia democrática.

E não me venham falar em censura, por favor –que é o como a grande família do oligopólio (reunida em torno da mesa do Instituto Millenium) e os autômatos do ódio e da intolerância respondem, em bloco, quando se fala em regulação.

Não há censura maior, afinal, do que impedir que um tema, qualquer que seja ele, possa ser debatido abertamente pela sociedade.

#RegulaçãoDaMídiaJá