Automobilismo: o patamar mais alto do universo da engenharia mecânica. Com projetos luxuosíssimos e muito dinheiro em jogo, o esporte atrai milhões de espectadores por ano. Carros de alta performance que remetem a muito desenvolvimento de engenharia e pilotos prodígios que começaram na infância são os protagonistas dessa competição que gera comoção há anos. Mas quando olhamos a fundo nesse cenário, vemos majoritariamente homens. Pouquíssimas mulheres estão envolvidas no esporte em sua engenharia.

Existem diversas competições automobilísticas que atraem multidões a nível internacional, entre elas Fórmula 1, Nascar, Fórmula V e, a nível estudantil, a Fórmula SAE. Com a última, por sinal, tenho muita familiaridade e é sobre ela que vamos falar hoje.

A Fórmula SAE, ou FSAE, é uma competição criada pela SAE (sigla em inglês para Sociedade dos Engenheiros Automotivos), onde os estudantes de engenharia possuem a oportunidade de aplicar na prática seus conhecimentos desenvolvendo um projeto completo e construindo um carro de Fórmula. Ou seja, os estudantes conseguem desenvolver um protótipo  a fim de competir com outras equipes podendo chegar a níveis internacionais de competição. No Brasil, a Fórmula SAE ocorre desde 2004 e conta atualmente com a passagem de mais de 50 equipes ao longo de sua história.

Mas ainda assim, a presença de mulheres na competição é baixíssima, mesmo sendo uma competição estudantil de nível superior.

Analisando um contexto mais abrangente, segundo o CONFEA, Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, atualmente no Brasil cerca de 28,3% dos alunos matriculados em engenharia são mulheres, mas a taxa de abandono do curso por mulheres é entre 20 a 40% ao ano e muitas mulheres nem mesmo chegam a exercer a profissão em que se graduaram.

Quando falamos em engenharia, mesmo no século XXI, ainda temos um mercado um tanto quanto restrito para mulheres. No âmbito da engenharia mecânica isso é ainda mais evidente se olharmos para empresas automotivas ou simplesmente para as competições já mencionadas.

Mas qual é o real motivo da discrepância? O CONFEA aponta que na maioria dos casos o principal motivo é o assédio, de qualquer tipo, seguido da desvalorização do trabalho pelo simples fato de ser mulher e salários mais baixos pelo exercício da mesma função. Precisamos falar sobre isso.

Mas pensando no contexto universitário, para uma competição como a Fórmula SAE, teríamos a mesma realidade? Para entendermos isso, precisamos analisar a fundo as equipes de Fórmula SAE e suas atividades dentro da competição. Essa é a proposta do projeto Women in FSAE, um projeto criado em 2020 por alunas competidoras da FSAE para analisar a presença das mulheres e tratativas das mesmas dentro do ambiente da competição, além de analisar os dados e, posteriormente, criar um guia para lidar com possíveis situações envolvendo o machismo dentro das equipes. Nas palavras das criadoras do projeto:

“Tomando o ambiente da Fórmula SAE, a iniciativa busca analisar as experiências e a perspetiva feminina dentro dessa categoria, além de criar um network ativo entre as meninas que participam da categoria em todo o Brasil. Dessa forma, busca-se dialogar com representantes femininas dentro do cenário da Fórmula SAE para identificar situações recorrentes, tais como assédio (moral, verbal ou sexual), desvalorização, falta de incentivo, atitudes implícitas de machismo, com o enfoque nas formas de gestão e política interna das equipes e a sua efetividade para combater esses problemas. Além disso, procura-se analisar os fatores que afetam na formação, o período médio de permanência das mulheres dentro de uma equipe – e as condições que levam a sua saída – e como essas situações influenciam na projeção de carreira da mulher.

Posteriormente, por meio dos dados coletados tanto da visão feminina, como da masculina e da capitania da equipe, o projeto vai organizar a criação de um Guia que auxiliará coordenadores e capitães a lidar com determinados acontecimentos internos, como evitá-los e como aumentar cada vez mais a quantidade de mulheres dentro das equipes, melhorando suas experiências no período de permanência”.

 Projetos como Women in FSAE são extremamente necessários, não só por promoverem debates necessários acerca do machismo, descriminação de mulheres e ausência evidente das mesmas na competição, mas também por proporcionar uma tratativa deste problema dentro do mesmo contexto.

A Women in FSAE conta com uma comissão inteira de mulheres das equipes Scuderia UFABC (@scuderiaufabc, no Instagram) e EESC USP Fórmula SAE (@formulaeesc, também no Instagram), sendo elas: Thaísy Santos, Lorrane Oliveira,  Ana Ribeiro, Thais Almeida, Leticia Cipriano, Luana Recucci, Bianca Kanehira e Victória H. Ianni.

Pensando na importância desse projeto podemos nos perguntar quando a comissão se viu na necessidade de criação de um projeto como esse. Elas explicam:

“Foi quando definitivamente chegamos em um consenso que, apesar de existirem mulheres unidas no Fórmula, as ações e debates entre diferentes equipes não avançavam por ausência de alguém que pudesse se responsabilizar pela visibilidade da causa, pela mobilização de pessoas e pela realização de atividades com constância.

E além disso, a pauta não alcançava devidamente os homens e mulheres das equipes que ficaram de fora destes pequenos grupos, o que não impactava tão efetivamente nas mudanças que as equipes deveriam refletir em relação à questão de gênero.

Claro que, para impulsionar a tomada de decisão para a criação do projeto em meados de março de 2020, nós nos deparamos com situações graves de machismo em nível nacional que afetam o bem-estar e a carreira das mulheres que participam dos projetos do Fórmula”.

É super coerente pensar que muitas mulheres no processo de graduação em engenharia, ao adentrarem em entidades estudantis como as voltadas para competições de nível técnico, possam se encontrar em situações que as levem a abandonar o curso e desistir da carreira de engenharia. É onde mora o problema.

A iniciativa se mostra necessária no contexto em que reside, mas a comissão tem maiores objetivos para o futuro do projeto, como a intensificação do alcance a nível nacional e internacional, ampliar parcerias com outros projetos, empresas e ações, levar a iniciativa para outras categorias de competição e renovar a comissão para os próximos anos.

Apesar de estarmos em pleno século 2021 (rs), ainda vivenciamos dia a dia situações de assédio que nos desmotivam muito e geram em muitos casos a evasão. Poderia citar, inclusive, mais de 10 situações de assédio que vivenciei dentro do ambiente técnico. Precisamos colocar esse assunto em pauta. A iniciativa Women in FSAE se faz instrumento de representatividade e pode, com certeza, impulsionar a presença de mulheres nas equipes e principalmente nos cursos de engenharia, podendo evitar situações de abandono através da tratativa do problema.

Esse mês comemoramos mais uma vez o Dia Internacional da Mulher, em que muitas de nós recebemos parabenizações por sermos mulheres. Devemos sempre lembrar que esse dia é símbolo de luta e não de parabenização. Esse dia foi criado em decorrência do assassinato de mulheres trabalhadoras de uma fábrica textil em 1911 após realizarem uma greve trabalhista por melhores direitos e condições trabalhistas. Não é sobre parabenizar uma mulher por ser mulher. Não devemos parabenizar uma mulher por ter de lutar por seus direitos, mas sim mudarmos nossa sociedade. É sobre repensar atitudes e opiniões que motivam a falta de igualdade entre homens e mulheres. É sobre construir uma realidade melhor para as mulheres à nossa volta e as que estão por vir.

Encerro com um trecho da comissão da Women in FSAE:

“Sabemos que temos muito caminho pela frente, mas nos anima ver o quanto o alcance do projeto só cresce e o quanto o nosso trabalho abre um diálogo saudável sobre a temática, utilizando dados para provocar a mudança.

E hoje, somos gratas pelas mensagens de apoio e inspiração que recebemos das pessoas que acompanham e colaboram com a nossa proposta.”

Para encontrar a iniciativa Women in FSAE vocês podem acessar o Instagram @womeninfsae e também o LinkedIn Women in FSAE.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Tatiana Barros

Novos tempos exigem novos palcos

Márcio Santilli

CPI da pandemia acelera declínio de Bolsonaro

Renata Souza

13 de abril: dia de celebração e luta para as mulheres do samba

Estudantes NINJA

Governo Bolsonaro: desrespeito ao Enem, à Educação e ao Futuro

Boaventura de Sousa Santos

A claridade e a escuridão

Álamo Facó

O indígena e a máquina do tempo

Liana Cirne Lins

O julgamento de Lula no STF: é cedo para comemorar?

Fabrício Noronha

Quem sabe do futuro da cultura brasileira?

Lais Gomes

Se é reversível, se joga!

Fabio Py

‘Flores nas encostas de cimento’: o silenciamento e a tomada dos crentes de esquerda na política

Movimento dos Pequenos Agricultores

Movimento dos Pequenos Agricultores no RJ lança novo site para ampliar a comercialização de alimentos agroecológicos

Isabella Queiroz

Ser maker não está à venda

Colunista NINJA

Reviravoltas andinas: eleições no Peru e Equador

Bancada Feminista do PSOL

100 dias de Covas em SP

Amanda Pellini

O que a ciência faz para confiarmos nela?