Iniciativa de certificação orgânica mostra a força da agroecologia na Amazônia Mato-grossense
Repoama: um exemplo de que as soluções para enfrentar as mudanças climáticas e as desigualdades nascem dos territórios.
Por Priscila Viana

No miolo da Amazônia Mato-grossense, onde o agronegócio avança e as florestas sentem os impactos das mudanças climáticas, a terra traça caminhos para voltar a respirar. É ali que a Rede de Produção Orgânica da Amazônia Mato-grossense (Repoama) cultiva outra proposta de futuro — aquela que brota da força coletiva, da esperança e dos saberes agroecológicos.
Criada em 2019, a Repoama surge da união de famílias agricultoras que decidiram se conectar para enfrentar o agronegócio e salvar a terra. A rede é tecida pelo fortalecimento das estratégias agroecológicas frente à expansão do agronegócio na Amazônia Mato-grossense e atua como um centro catalisador de cuidados e de resistência.
São 108 integrantes que enlaçam a rede, 29 unidades de produção certificadas e 80 hectares sob manejo orgânico e agroecológico. Como fruto desse grandioso trabalho costurado no cotidiano do cuidado com a terra, mais de 180 tipos de alimentos são produzidos e comercializados, incluindo banana, cupuaçu, pimenta, pepino, couve, acerola, tomate, mandioca, café e tantos outros que fortalecem a cultura alimentar amazônica.
Oportunidades justas de acesso aos mercados
Após quatro anos de intensa germinação e colheita, a rede foi reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) como Sistema Participativo de Garantia (SPG), fortalecendo o direito à alimentação adequada e saudável e o trabalho de quem produz sem agrotóxicos.
O SPG é uma forma de certificação orgânica reconhecida legalmente pelo Estado brasileiro, que garante a qualidade de produtos da agricultura familiar por meio do selo oficial de orgânicos do Brasil. Além disso, valoriza os produtos comercializados em feiras livres e programas públicos de compras, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Entre os resultados que crescem nesse chão coletivo está o Fundo Rotativo Solidário (FRS), um instrumento de confiança e solidariedade que movimenta cerca de R$ 300 mil entre as/os associadas/os. O fundo garante microcréditos para impulsionar a produção orgânica e agroecológica e permitir que o ciclo de apoio se renove, de forma participativa e transparente.

Para a técnica do Instituto Centro de Vida (ICV), Kauany França de Sousa, que acompanha o trabalho da rede, a gestão dos recursos do FRS é coletiva, o que garante oportunidades justas de acesso para todas e todos.
“Os recursos são operados por meio de empréstimos de microcréditos concedidos a agricultoras e agricultores familiares, empreendedoras/es e coletivos, com formatos de devolução acordados em Assembleia Geral. O modelo permite a circulação e reinvestimento do capital em novos projetos, fortalecendo a sustentabilidade financeira das iniciativas apoiadas“, afirma Kauany.
Economia, tradição e futuro em Terra Indígena
Entre os integrantes da Repoama estão 12 famílias do povo Rikbaktsa, cuidadores da Terra Indígena Escondido, localizada no município de Cotriguaçu, no noroeste do Mato Grosso. Situado em área de transição entre Cerrado e Floresta Amazônica, Cotriguaçu é um grande arco-íris de diversidade biológica.
É nesse rico pedaço de terra que o povo Rikbaktsa maneja 50 mil hectares para a certificação da castanha-do-brasil, protegendo o que é tradição e futuro com o manto da sabedoria ancestral.
De acordo com o coordenador do Programa de Economias Sociais do Instituto Centro de Vida (ICV), Eduardo Darvin, a parceria com o povo Rikbaktsa visa fortalecer o extrativismo sustentável como uma atividade econômica viável e que valorize os conhecimentos tradicionais. “O papel da rede é fornecer o suporte técnico e a articulação necessários para que a certificação se traduza em acesso a mercados mais justos, agregando valor ao produto e garantindo uma comercialização que fortaleça a autonomia e a gestão territorial do povo Rikbaktsa”, explica Eduardo.
A Repoama mostra que as soluções para enfrentar as mudanças climáticas e as desigualdades no campo nascem dos territórios e das mãos que cuidam da terra e da floresta com respeito. Entre a sombra das castanheiras e o brilho dos frutos, a Repoama prova que a agroecologia é mais que produção: é modo de vida, é resistência e é poesia enraizada no chão amazônico.
Série Agroecologia, Território e Justiça Climática
Essa série é uma realização da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), em parceria com o Agroecologia em Rede, a Xepa Ativismo e o Clímax.Now. Serão cinco matérias, publicadas nos meses de março e abril de 2026, que mostram como experiências de agroecologia estão enfrentando as mudanças climáticas em diferentes biomas do Brasil.
Leia as outras matérias da série aqui:
Produção agroecológica de bioinsumos em Sergipe aponta caminhos para a justiça climática
Como a Agroecologia enfrenta as mudanças climáticas?
Mapeamento nacional
As iniciativas apresentadas na série “Agroecologia, Território e Justiça Climática”, como a luta da Repoama pelo processo de certificação orgânica, estão entre as 503 experiências identificadas em um mapeamento nacional inédito realizado pela ANA em 2025. Seja no âmbito da mitigação – que reduz as emissões de gases de efeito estufa – seja na dimensão da adaptação climática – que representa os ajustes necessários para conviver com as mudanças do clima – as iniciativas mapeadas comunicam uma série de estratégias coletivas de construção de sistemas alimentares baseados em valores como cooperação, solidariedade e complementaridade com a natureza.
As informações e reflexões sobre as soluções apresentadas pelas experiências podem ser acessadas na plataforma Agroecologia em Rede, onde já estão cadastradas mais de 6 mil práticas agroecológicas de todo o Brasil e da América Latina. Os principais resultados e análises do mapeamento também estão disponíveis na publicação “No Clima da Agroecologia”, elaborada em português, espanhol e inglês. O material foi apresentado no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), na COP30, na Cúpula dos Povos e em outros espaços globais de diálogo e ação pela justiça climática.



